22/11/2011

Ilha de Páscoa



Ahu Akivi

Vulcão Rano Raraku


Ahu na vila Hanga Roa


Henry Garcia









Expedição Rapa Nui

Quando você pisa naquela terra, não imagina tudo que está além das milhares de reportagens e documentários que você assiste para se preparar para o paraíso. Nada é como pisar naquela terra, mesmo que você deixe de lado superstições sobre ondas energéticas, extraterrestres ou qualquer teoria afim. Não se trata de uma ilha turística como tantas outras, conhecida por suas praias ou pelo azul do Pacífico. Você não entende a ilha logo de cara... E eu procurava entendimento, de mim, do passado, das pessoas. Mas não pensem que eu encontrei.
 
Na Ilha de Páscoa a única certeza que você tem gira em torno de um binômio: fé e ambição. Uma história que representa claramente qualquer passagem humana pela Terra, revelando nossas fraquezas e vitórias. Nossa eterna mania de aproximação de deuses, enquanto mal sabemos lidar com o próximo, aqui, do nosso lado. Os moais são mais do que a representação dos ancestrais do povo Rapa Nui. São a comprovação do quanto estamos à mercê dos nossos egos. Estávamos pisando no umbigo do mundo e acabamos encontrando nosso próprio umbigo.
 
Assim que chegamos, fomos recebidos com aqueles colares floridos que nos remetem ao Hawaí. Afinal, a Ilha de Páscoa também faz parte do triângulo polinésico e a cultura dos 3 pontos possui semelhanças entre si. Chegamos ao hotel e, acompanhada do meu novo amigo também mineiro, arriscamos nossos primeiros passos. É muito fácil andar por lá, mesmo até os pontos mais distantes. Descobrimos logo de cara que à noite aconteceria o espetáculo Kari Kari, com danças da terra. Claro que compramos o ingresso por 10 mil pesos chilenos...
 
Descobrimos que próximo a Hanga Roa (a vila) estava uma parte do patrimônio histórico da ilha. Encontramos o Tahai, com seus olhos ainda pintados de branco e preto, com seu pukao que remete aos coques nos cabelos dos rapa nui. Não é um chapéu, como dizia o filme. Encontramos também um ahu (plataforma sagrada) e mais outro moai um pouco mais deteriorado, mas ainda assim magnífico. Os penhascos contra o mar completam o cenário que impressiona qualquer um que caminha pelos arredores. Você não pode pisar num ahu, é uma área protegida, mas eu havia me prometido uma foto abraçando um moai verdadeiro... Sim, agora me sinto culpada, mas eu tirei a bendita foto com o moai mais deteriorado... E agora ela está no meu mural. A consciência pesou tanto que não repeti a invasão nos outros dias e me ative aos moais “fake” espalhados pela ilha.
 
No segundo dia, encaramos um passeio contratado. Conhecemos as ruínas de Akahanga, com seus moais tombados pelas guerras entre as tribos rapa nui. Além de disputarem o poder, em determinado momento enfrentaram sua própria fé, derrubando os moais que representavam os ancestrais vangloriados e as homenagens aos deuses. Os pukaos rolaram metros adiante e as ruínas não foram restauradas exatamente para manter viva a lembrança desta parte da história do povo rapa nui, levando ao seu próprio declínio e posterior fragilidade diante dos colonizadores.
 
De Akahanga direto para Rano Raraku, o vulcão onde eram talhados os moais. Você paga uma taxa para entrar neste tipo de parque na ilha e seu bilhete vale para outras áreas protegidas. Pelo caminho você compreende a dimensão dessa história. Um moai tombado, quebrado em vários pedaços, mas totalmente protegido. A ação do tempo também é uma ação histórica. Caminhando pelas trilhas, você descobre um vulcão que já estava inativo antes dos ancestrais do povo rapa nui pisar naquelas terras, mas que ao mesmo tempo é sua base cultural. 400 moais espalhados por todo o terreno, acabados ou não, ainda deitados ou já enfrentando o vento, sendo talhados diretamente na pedra e revelando o trabalho manual necessário para executar obras de tamanha grandeza. Você encontra moais rodeando o lago que restou na cratera e pensa em como tantos moais deixaram de ser transportados devido ao extermínio das árvores na ilha (com o deslocamento dos moais utilizando as toras). A cultura rompida pela própria limitação da consciência ecológica a centenas de anos. E não é que ainda persistimos no mesmo erro?
 
Em seguida chegamos ao ahu Tongariki, restaurado pelos japoneses depois do maremoto de 1960 que derrubou estes moais no maior ahu da ilha. Lembrando que quase todos os moais estão posicionados de costas para o mar, olhando para o interior da ilha como se tomassem conta do seu povo e também os vigiassem. O ahu Tongariki possui apenas um moai com pukao e os demais são comuns, mas o que impressiona é o tamanho dos mesmos, a quantidade alinhada a contraposição ao mar azul. Eles estão olhando para o vulcão Rano Raraku e quando o maremoto aconteceu, foram arrastados pela área. Um deles ainda permanece derrubado, talvez com o objetivo de lembrar o povo rapa nui sobre sua fragilidade. É uma visão extraordinária e ainda mais bucólica quando você descobre os cavalos selvagens que circulam pelas redondezas... Cavalos estes que viraram “piada interna” entre nós (mineiros) e os amigos da Croácia e Sérvia que fizemos ao longo do dia... Dizíamos: “Wild horses” com um sotaque esquisito.
 
No terceiro dia também havíamos contratado mais uma série de passeios. Começamos nosso trajeto pela visita ao Rano Kau, outro vulcão inativo da ilha (são três). O vento era de cortar, frio e úmido como manda a tradição de qualquer “morro uivante”. Do topo podemos avistar a vila de Hanga Roa e vislumbrar o formato da ilha. Mas o que mais me encantou foi a história do lago que hoje está na cratera deste vulcão, povoado pela totora (aquela mesma vegetação flutuante do Lago Titicaca). Ele funciona atualmente como uma caixa d´água da ilha, represando água da chuva e escoando pela rede fluvial para toda a ilha, além de ter sido um reservatório amplamente utilizado pelos rapa nui naqueles tempos. Recentemente, devido às taxas de dengue na ilha, buscaram uma solução ecológica para o problema do lago: introduziram uma pequena espécie de peixe que se alimentava das larvas do mosquito. E assim aquela doença estaria com seus dias contados através de uma medida simples e controlada. Avistamos pela primeira vez o Kari Kari (sim, o mesmo nome do espetáculo), que é a abertura do vulcão onde aconteciam os importantes rituais da ilha. Um enorme precipício encarando o mar...
 
Chegamos a Orongo, território sagrado para o povo rapa nui. Um complexo histórico rodeado de lendas e rituais. 53 casas de rapa nui restauradas, demonstrando o estilo de vida daquele povo. Eram como tocas, com uma entrada pequena para barrar o vento constante, em que os rapa nui sempre se mantinham agachados ou deitados. Eram basicamente seus cômodos para dormir, pois não havia espaço para convivência interna. Do alto avistamos as ilhotas que compunham o ritual do homem-pássaro. Moto Nui e as demais ilhas são excelentes pontos de mergulho e seus únicos habitantes são os pássaros, os mesmos que em agosto chegavam à ilha para seus períodos de reprodução. E por este mesmo motivo o ritual era realizado entre agosto e setembro, uma vez que o objetivo era descer o Kari Kari, nadar até as ilhas, buscar o ovo do pássaro e trazê-lo de volta a Orongo, intacto. Muitos morriam já na descida do Kari Kari, que nada mais é do que um enorme penhasco diante do mar. Aquele que retornava primeiro com o ovo intacto era nomeado rei da ilha por um ano, tendo poder sobre as demais tribos. Além disso, recebia como prêmio a virgem branca, aquela que no filme ficava trancada numa caverna para que sua pele clareasse (não ter a pele bronzeada pelo sol lhe garantia um ar de pureza e santidade). O Kari Kari impressiona por sua beleza e por todos os sacrifícios que ali já foram feitos em nome do poder.
 
Orongo também possui petroglifos que registraram a história deste povo, especialmente do ritual do homem-pássaro. São imagens que retratam os vencedores desta corrida, os símbolos da fertilidade (incluindo as genitálias dos sexos), a chegada do pássaro na primavera. Outros animais são representados, tais como a foca (entendida como um ser divino), os peixes e as tartarugas. A população animal da ilha atualmente é composta especialmente por espécimes trazidos durante a colonização, modificando a ecologia natural da ilha. Os bois e vacas ainda têm chifres, coisas que não vemos mais no Brasil, por exemplo. Os cavalos selvagens estão por todos os lados. Cachorros (a maioria vira-lata) enormes e simpáticos rondam a ilha durante todo o dia. E os gatos estão sempre à espreita, gorduchos (se não vemos ratos, eis a explicação mais provável). Quanto às árvores, são todas recentes e espécimes também importados pelos colonizadores. Afinal, este foi o preço dos moais: as toras para rolar cada estátua para seu ponto de destaque...
 
Saltamos para Vinapu, mais um ponto misterioso da história da ilha. É o único ponto onde encontramos uma construção semelhante ao estilo dos incas do Peru, talhando as pedras para que o encaixe fosse perfeito e bem acabado. Estas são as únicas ruínas com este estilo em toda a ilha e não há elo que comprove uma eventual influência dos incas nesta cultura. O povo rapa nui veio da Polinésia, não há dúvidas sobre isso. Testes genéticos comprovaram as semelhanças com o povo polinésico, mas ainda assim permanece o mistério da relação com o povo dos Andes. Talvez a teoria do centésimo macaco explique esse conhecimento compartilhado. Quem sabe não somos mesmo pontos conectados numa consciência coletiva?
 
Rumo às cavernas que um dia foram utilizadas como abrigo pelo povo rapa nui, inclusive para proteger a plantação dos ventos marinhos. Chegamos a Ana Tepahu. Ana em rapa nui é “caverna”. Esta é uma das maiores cavernas da ilha, com cerca de 150 metros de largura. Caminhamos por lá, encontramos fósseis de coqueiros utilizados para suportar o teto da caverna. As plantações de frutas e outros vegetais na entrada da caverna servia para alimentar o povo e também barrar a entrada do vento cheio de sal. Tudo é muito escuro e eu, já conhecida pela minha falta de jeito e coordenação motora, andei pela caverna às cegas e resmungando que eu não precisava fazer aquilo (risos). Mas vale a pena conhecer e sentir aquele clima de esconderijo que toda caverna tem. Nosso guia contou sobre a dizimação desse povo, que recebeu os pacíficos holandeses (James Cook) mas que depois foram escravizados pelos piratas baleeiros. De 20 mil, entre guerras tribais e colonização, foram reduzidos a 111 rapa nui. Uma história de sobrevivência, dolorosamente humana.
 
Dia longo, não é? Ainda visitamos o ahu Akivi, o meu predileto. Não pela beleza, mas pela simbologia. Representam os 7 navegadores que se aventuraram pelo mar para chegar à ilha. São os verdadeiros colonizadores e ancestrais do povo rapa nui. E exatamente por sua ligação com o mar, é o único ahu que não está voltado para o centro da ilha. Eles observam o mar como todo desbravador das águas faria... Confesso que exatamente pelo encanto que me causaram, pouco ouvi o que o guia nos disse (Cristian, um descendente original do povo rapa nui). De lá fomos à montanha onde era extraída a escória vulcânica utilizada para talhar os pukao (rapa nui não tem plural) que representavam os coques nas cabeças dos nativos (que ainda é moda por lá). A escória vulcânica é vermelha e por isso você nota a coloração diferente daquela percebida nos corpos dos moais (sempre com grandes unhas, que representavam o poder).
 
Nossos amigos nos europeus nos forneceram uma informação que nenhum site de pesquisa relatou. A cadeia da Ilha de Páscoa é aberta à visitação. Os presos fabricam artesanato pela metade do preço que encontramos nas lojas no centro da vila (onde eu já havia gastado milhares de pesos). É uma longa caminhada pela vila, mas vale a pena. A cadeia mais parece um galinheiro em função da segurança precária, porém suficiente. Quem é o preso maluco que fugiria dentro de uma ilha onde ele não tem pra onde ir? Você não pode perguntar sobre os crimes cometidos. Os guardas não são armados, enquanto os presos estão em posse de serras elétricas para cortar a madeira utilizada no trabalho que os ajuda a sustentar suas famílias lá fora. Um modelo bacana, mas que provavelmente só funciona em pequenas cadeias como aquela. Os presos te engolem com os olhos, aconselho a não darem muita trela apesar da curiosidade. Dias depois levei um casal de novos amigos lá também e um dos presos me deu um “regalo” (presente) por eu ter levado novos turistas. Logo em seguida ele me pediu meu telefone. Rita Cadilac da Ilha de Páscoa, esse foi meu apelido no dia. A minha amiga é ativista dos direitos humanos e ficou encantada com o conceito. A vila militar é linda e fica bem ao lado da cadeia. Policiais e presos convivem num espaço compartilhado. Mas a pergunta é: quem é capaz de cometer um crime numa ilha que respira paz? E que tipo de crimes seriam esses? Isso eu não posso responder.
 
Quarto dia. Mergulho na praia de Anakena. Aquele azul deslumbrante, com a vista para o ahu que a equipe do Jacques Cousteau ajudou a descobrir em 1976. E não sei disso pela internet... Sei disso por Henry Garcia, francês, dono da Orca (operadora de mergulho), que fez parte da equipe de Cousteau e acabou se apaixonando pela ilha (e por uma rapa nui, eu acho) e nunca mais abandonou aquela terra. Criou ali o seu sustento baseando-se nos seus eternos princípios de adoração ao mundo marinho. E, claro, eu o conheci. Aliás, eu o irritei durante uns três dias com todas as minhas perguntas a curiosidade para saber mais sobre o meu ídolo Cousteau. Optei por esta operadora (são três na ilha) exatamente para conseguir a chance de ficar perto de alguém que fez parte dos meus sonhos de infância e que realizou as coisas que meu lado oceanógrafa ainda sonha... Quanto ao mergulho, foi bacana. Acabei por apadrinhar meu amigo mineiro, que caiu nas águas com cilindro pela primeira vez. Muitos corais, alguns peixes e aquela eterna sensação do “mundo silencioso”. Cousteau esteve ali, isso é o que me importava (assim como foi no cenote no México). À tarde, fomos até o museu da ilha, onde pudemos ver um dos 6 moais femininos já encontrados.
 
O dia seguinte amanheceu nublado. Mas não me impediu de caminhar e desvendar outros pontos da vila. À tarde me deitei perto do ahu da vila (próximo ao Tahai, o mesmo do primeiro dia) e li um livro. Poético, sim. Fiquei olhando pro mar, pro além, pros moais, pro tempo. Conheci dois chilenos da marinha, muito engraçados, e com meu espanhol improvisado demos boas risadas. Eles eram tão baixinhos que mais pareciam chaveirinhos perto de mim (eles mesmos disseram isso e fizemos umas fotos assim). Foi uma tarde de descanso, de contemplação, de constante espanto com os rumos que tomo na minha vida. De repente eu estava me dizendo: “ainda não acredito que estou aqui”. Mais um item da grande lista realizado. E ainda faltam muitos outros...
 
No último dia, fui à missa. A igreja da vila mistura estilos quase antagônicos. Na parede, um triângulo com um olho pintado. Seria algo da maçonaria? Os pássaros sagrados da cultura rapa nui circulavam as imagens da igreja católica, demonstrando o respeito à religião dos nativos, donos da terra. Quanto ao rito em si, uma coisa de arrepiar. Não sou das mais assíduas às cerimônias religiosas, mas é lindo ver as palavras católicas sendo repetidas ou afirmadas em cânticos rapa nui. Por sorte, sentei-me bem perto do líder da religião rapa nui, que cumprimentava a todos que chegavam e que repetia com a voz firme as expressões de sua religião (como se falassem “amém” a cada item celebrado). Foi uma despedida importante deste cenário tão místico e cheio de histórias...
 
De volta ao continente, observando a neve branca na Cordilheira dos Andes, pouco me restava: o livro pra terminar, as fotos pra rever e a dúvida constante... Eu estive mesmo lá? Eu fui realmente sozinha pra esse lado tão distante do mundo, o ponto mais ermo de qualquer ponto terrestre do mundo? Estou mesmo mais perto do Tahiti do que do Chile? Como o acordar de um sonho, em negação. Era tudo um delírio, mas muito rico em detalhes? Não, não era. Senti o colar que ganhei na despedida pendurado no meu pescoço, com um pequeno moai talhado em madeira. Sim, eu estive lá. E espero que outras expedições como essa permeiem minha vida, me lembrando constantemente da magia que me toca que só o conhecimento de outras culturas permite. Que Deus (seja ele católico, rapa nui ou qualquer outra opção) me dê memória o suficiente pra não me esquecer dessa experiência.
 

21/11/2011

Quem somos nós?


por Jacques Yves Cousteau

“Como todos os seres humanos, nascemos no coração da mãe-terra. Temos braços e pernas. Passamos grande parte da nossa vida na posição vertical, que nos dá uma maior autonomia e um maior conforto na terra. Vistos superficialmente, somos iguais a todos os seres humanos. Mas analisando um pouco mais a fundo, alguma coisa nos faz diferentes. Nascemos com os olhos acostumados ao azul das águas. Temos um corpo que anseia pelo abraço do mar.


Somos homens e mulheres de espírito inquieto. Buscamos na nossa vida mais do que nos foi dado. Passamos por grandes provas para aproximar-nos dos peixes. Transformamos nossos pés em grandes nadadeiras, seguramos o calor do nosso corpo com peles falsas e chegamos até a levar um novo pulmão em nossas costas. E tudo isto para quê? Para podermos satisfazer uma paixão. Um sonho. Porque nós, algum dia, de alguma maneira, fomos apresentados a um mundo novo. Um mundo de silêncio, de calma, de mistério, de respeito e de amizade. E esta calma e este silêncio nos fizeram esquecer da bagunça e da agitação do nosso mundo natal. O mistério envolveu nosso coração sedento de aventura. O respeito que aprendemos a ter pelos verdadeiros habitantes desse mundo, respeito esse que, só depois de ter sentido a inocência de um peixe, a inteligência de um golfinho, a majestade de uma baleia ou mesmo a força de um tubarão, pudemos compreender.


E a amizade? Quando vamos até o fundo do mar, descobrimos que ali jamais poderíamos viver sozinhos. Então levamos mais alguém. E esta pessoa, chamada de dupla, companheiro ou simplesmente amigo, passa a ser importante para nós. Porque além de poder salvar nossa vida, passa a compartilhar tudo o que vimos, tudo o que sentimos. E de duplas, passamos a ter equipes. E estas equipes passam a ser cada vez mais unidas. E assim entendemos que somos todos velhos amigos, mesmo que não nos conheçamos. E esse elo que nos une é maior do que todos os outros que já encontramos. E isso faz de nós mais do que amigos; faz de nós mais do que irmãos. Faz de nós. Mergulhadores".


Jacques Yves Cousteau (11/01/1910 - 25/06/1997)

18/11/2011

O Próximo

Existem duas formas de encarar a vida. Ou você vive esperando pelo amanhã ou você deixa o amanhã esperando por você. Prefiro a segunda opção em quase tudo que faço, claro, considerando aquilo que só depende de atitudes minhas. Agora... depender do próximo, é dureza. Depender do passo alheio me deixa desnorteada, afinal, sou uma eterna controladora dos meus passos. Não sou tão perfeccionista, acreditem, mas sou mesmo obcecada pelo “conhecido”. Esse papo de que o “desconhecido” é mais emocionante não aplica aos meus dias.
 
A gente insiste em achar que o outro vai agir como gostaríamos, ou vai agir como agiríamos. A gente esquece que somos diferentes em detalhes e muitas vezes são esses “mínimos detalhes” que mudam tudo. Seus gostos, seu estilo, seu jeito de ser, sua criação, sua referência, seu caráter. Tudo isso muda de cara pra cara, de gene pra gene. E ainda assim nos decepcionamos. Mania de nos iludirmos com a perfeição alheia, nos gestos, no bom senso e nos sentimentos. Eu insisto em trombar com gente assim, diferente demais de mim, e olha que estou longe de ser a perfeita boa samaritana.
 
Mas não dá, não consigo evitar a avaliação do absurdo, a punição da desonestidade, a descrença na transparência. Poucas vezes na vida eu me vi querendo de fato excluir gente da minha convivência. Normalmente faço isso naturalmente, sem muito esforço e muito menos sem peso na consciência. Mas quando faço porque é preciso, porque o outro me invade, me fere e me decepciona, aí sim fica difícil ser a pessoa pacífica de sempre. Fica difícil ser racional, pois neste tipo de caso, minha cabeça entende (“o ser humano é fraco e corruptível por natureza”), mas meu ego não (“não acredito que permiti que a corrupção se aproximasse de mim com a minha própria permissão”). Meu ego e meu coração, pois é difícil excluir da nossa pessoas em que apostamos e confiamos.
 
Quando o seu amanhã pode ser imprudentemente invadido pelo próximo, aí a coisa fede. Merda no ventilador. Não se deixar atingir pelas ações alheias é um enorme desafio pra mim, pois sou extremamente permeável. Não me separo das realidades alheias como se estivesse em uma bolha. Fagocito o mundo ao meu redor. Vivo em constante osmose quanto ao que gira lá fora. E aí acabo descobrindo que me irrito com uma felicidade criada em cima de um fracasso, me irrito muito mais do que gostaria. E resolvi escrever na esperança de tirar isso do meu pensamento e organizar as idéias, que estão exaustas disso tudo.
 

01/09/2011

Que aprenda!

A Terra pede pra respirar, como nós, mortais, faríamos se estivéssemos com um saco plástico preso na cabeça. Tem vulcão berrando pra todo lado no México, tempestade tropical se disfarçando de Irene, água furando tudo quanto é cano, bomba explodindo em acampamento juvenil, político corrupto sendo solto, petróleo invadindo Abrolhos. E tem hora que bate aquela sensação: puta que pariu, a humanidade não aprende?


Vossa eminência, estou na iminência do pânico. O mundo parece de cabeça pra baixo e continuo não sabendo o que fazer. Como se não bastasse, não consigo interferir no destino de quem amo, pois nem toda decisão parte do meu Facebook. Certas salas aprisionam decisões que mudarão rumos, amigos, salários. Enquanto isso, só falta o vulcão do Chile começar a roncar por volta do dia 19.


Já passei do meu inferno astral, mas o de muita gente ainda persiste. Espero que nenhum Moai tenha signo e que as águas do Pacífico fiquem quentes. Preciso ver as cores por outro ângulo, voltar com a alma translúcida como aquela água quase intocada. Intocável, na iminência de ser desvendada pelos meus planos de dominar o mundo. Não, não é um tabuleiro de War, é um propósito de vida.






16/08/2011

De Artigas a Vilaró

Se recebemos limões, temos duas opções: limonada ou caipirinha. Só não fique azedo se o destino te prega peças e te impede em alguns momentos de viver plenamente, segundo seus planos. Você pode ficar de fora do vôo, pode não ter teto pra pousar, mas vale a pena ver pelo lado positivo: você tem mais uma cidade na sua rota. Exerce seu direito como cidadã, espera muito tempo por um boletim de ocorrência, mas no final, curte o jantar, tem uma boa noite de sono e no dia seguinte ainda consegue um tempo para fazer uma visita guiada por Porto Alegre.
Dia 01:
Assim começou nossa viagem. Sentindo o vento frio do sul do país chegar do Rio Guaíba, capaz de congelar o nariz e embaraçar qualquer cabelo. Valeu a pena rodar pela capital do Rio Grande do Sul conhecendo seus pontos importantes. Porto Alegre tem prédios incríveis e uma praça que nos prometemos ainda voltar lá. Um conjunto arquitetônico maravilhoso, composto pela catedral, o Palácio do Governo, o Palácio da Justiça, etc. Mas que pena ver a situação da universidade federal, abandonada, mal conservada e em período de greve.
Logo depois do almoço e um chocolate cremoso (conhecem “xindongue”?), uma nova tentativa rumo a Montevidéu. Chegamos ao final da tarde, fizemos o check-in num hotel 3 estrelas que era bem razoável pelo preço que pagamos antecipadamente (Los Angeles). Sem frescuras, um prédio bem antigo na Avenida 18 de Julho, região comercial da Cidade Velha. Decoração dos tempos de colônia, como se estivéssemos congelados nos remotos dias de fundação da cidade. Frio de 13 graus, muito vento e ainda assim ânimo pra rodar a Praça da Independência. Estamos no ano do bicentenário do Uruguai (2011) e isso só corrobora nossa opinião: como pode uma cidade parecer ser muito mais antiga, mesmo sendo tão jovem? Envelhecimento precoce?
O velho hotel que representa a região central da “Ciudad Veja” contra o sol naquele fim de tarde era um grande golpe de sorte, já que no ano passado encontrei a cidade num dia nublado e chuvoso. Artigas representado em monumento, imponente e solitário em seu cavalo. O prédio da Presidência da República em estilo moderno, conflitando com a arquitetura local e criando o contraste típico dos modelos de governo sul-americanos em relação ao seu passado. É uma praça bonita e neste dia, parecia desabitada. Nunca vi um ponto turístico tão vazio, mas isso não impediu que um “papagaio de pirata” ainda assim participasse com convite de uma foto minha com o hotel ao fundo.
Andamos até a Rambla, avenida “beira-rio” que delineia toda a cidade. A magnitude do Rio da Prata em ondas, como se fosse um verdadeiro mar. Afinal, o Uruguai deve sua razão de existir a Solís, descobridor deste rio que se transformou em riqueza nos tempos do comércio entre impérios. Uruguai que já foi território brasileiro! Mas que tem uma capital construída no estilo de Buenos Aires. Belas construções, por sinal, que estão abandonadas e que se deterioram com o passar do tempo... História que se perde por falta de incentivo e atenção por parte do seu governo, que não foi bem julgado pelo nosso amigo taxista. Paramos numa confeitaria e, claro, eu pedi uma medialuna (nosso “croassaint”, porém melhor), enquanto minha amiga Renata pediu um tipo de brioche com o famoso doce de leite uruguaio.
Rumo ao hotel naquele sábado congelante, passamos por várias bancas de comerciantes e pelas vitrines das lojas da Avenida 18 de Julho, que é referência pelo seu comércio. Mas um aviso aos navegantes: nenhum preço milagroso, nenhum produto diferenciado. Não ande por lá esperando comprar tudo pela metade do preço nas lojas que mais lembram o centro de Belo Horizonte. Os vendedores de rua podem até oferecer luvas, toucas e cumbucas de chimarrão a um bom preço, mas pára por aí o consumismo. Aliás, o mate faz sucesso por lá como eu nunca tinha visto! Lembre-se que na atual conjuntura, um real equivale a dez pesos uruguaios. Trocar a moeda nas casas de câmbio do Uruguai atualmente é melhor opção do que trocar no Brasil.
À noite retornamos à Praça da Independência e descobrimos um beco em frente ao Teatro Solís. Encontramos uma tradicional “parrilla” e não hesitamos. Era hora de comer dignamente depois de tanto caminhar. Frio de 9 graus de endurecer as canelas, mas a calefação é mesmo um recurso fundamental nessas horas. Pedimos um cabernet sauvingnon uruguaio, da marca Don Pascual, e me surpreendi. Como gosto de vinhos brancos e leves (especialmente frisantes), finalmente provei um cabernet que não me deixa com a língua azeda (coisa típica de quem não entende de vinhos e reclama de barriga cheia). Pedimos o “bife ancho”, segundo Renata, um patrimônio imaterial do Uruguai, assim como o pão de queijo em Minas. De sobremesa, creme brullé, uma dessas frescuras feitas com ovo, leite e sei lá mais o quê. Alma aquecida, fome satisfeita e riso frouxo. Hora de voltar para o hotel. Aliás, o taxi é mesmo muito barato. Já no hotel, uma tentativa de uma cambalhota no corredor, algumas fotos pitorescas no sofá que também deve estar fazendo 200 anos. E um sono merecido!
Dia 02:
Acordamos cedo, empolgadas com os planos para o dia. Como perdemos o primeiro dia de viagem, desistimos da ida à Colônia de Sacramento, cidade histórica uruguaia. Optamos por ir à Casa Pueblo, rumo a Punta Del Leste. Tomamos um taxi para o terminal Tres Cruxes e de lá um ônibus convencional rumo a Puertozuelo. Passamos por um nevoeiro interminável, que só se dissipou quando nos aproximamos da região costeira. Descemos na rodovia mesmo. O trocador balbuciou algumas instruções e só entendi que precisávamos descer. Encontramos uma placa e seguimos por uma estrada... Avistamos Punta Del Leste depois de muito caminhar... Passamos por um condomínio de bonitas casas (mansões que devem bombar no verão) e muito tempo depois chegamos à entrada da Casa Pueblo.
Visitamos o museu da Casa Pueblo, na Punta Ballena, recinto dedicado às obras de Carlos Vilaró, uruguaio que valoriza o sol de sua bandeira em muitas obras de sua coleção. Muitas cores, formas geométricas lembrando Romero Britto. Muitas referências a Van Gogh e Picasso. Mas o que impressiona mesmo é a construção em si, toda pintada de um branco intocável. Formas arredondas intercaladas por extremidades pontiagudas, cravadas na montanha à beira-mar. Você praticamente se imagina nas construções brancas que também existem na Grécia, Santtorini, países árabes, etc. É intimidante... Ficaria com medo se eu ainda por cima conseguisse avistar baleias dali naquela época do ano, razão do nome daquela ponta de terra em direção ao mar.
A Casa Pueblo ganhou mais espaço com a construção do hotel de luxo ao seu redor, seguindo o mesmo modelo arquitetônico. A estrutura como um todo tem uma proporção que não se percebe olhando pela varanda do museu. Renata recebeu a dica de uma amiga sobre o restaurante do hotel e corremos até lá. Éramos só nós duas tomando um elevador no rumo contrário: descendo 9 andares referentes ao espaço do hotel incrustado na montanha. Quando chegamos ao restaurante, nos deparamos com uma vista magnífica que ainda assim deve equivaler a 1/5 do conjunto arquitetônico completo. O vento cortante não nos impediu de fazermos várias fotos do lugar. Almocei um belo peixe local com um purê de batata meio sem tempero. Renata pediu uma massa com queijo gruyere. Não é barato, mas vale a pena. Era hora de voltar, refazer o percurso e tomar o ônibus de volta à capital uruguaia. Esses momentos de deslocamento eram nossa oportunidade de algum descanso.
Já em Montevidéu, mais uma caminhada longa pelos trechos da Avenida 18 de Julho que ainda não havíamos passado. Bonitos prédios e manifestações populares em plena atividade. Ainda não sei dizer como, mas tenho mesmo um carma com essas manifestações... Aconteceu a mesma coisa na Argentina! Caminhamos até uma lanchonete, mas não tínhamos fome o suficiente pra encarar um “chivito”, que é o nome dado aos hambúrgueres uruguaios. Adivinhem o que comi? Medialuna! E Renata encarou uma panqueca adivinha de que? Doce de leite! Fomos para o hotel e nem conseguimos sair à noite. Planejávamos um jantar no restaurante do Teatro Solís, mas estávamos exaustas.
Dia 03:
Madrugamos pra aproveitar a manhã que nos restava. O café da manhã do hotel era bem esquisito e já sabíamos que precisaríamos de um lanche intermediário. Fomos direto para a Rambla, na altura do Museu Zoológico e Oceanográfico na Playa Del Buceo. Como pode ventar tanto numa cidade, ao ponto de transformar o rio em um mar de altas ondas? Gaivotas e pombos disputavam a areia e as pedras da praia. O museu infelizmente estava fechado, mas sua arquitetura exótica valia a pena. Ano passado eu achei que era uma mesquita. Só conseguimos avistar o esqueleto de uma girafa pela porta e de lá caminhamos pela Rambla até um bondoso taxista finalmente nos resgatar.
Rumo ao Mercado Del Puerto, ouvimos mais histórias. Fato é que ficamos amigas de todos os taxistas, extraindo deles a percepção popular que não consta nos guias de viagem. Passamos pelo porto e reconheci o prédio que avistei ano passado ao descer do ferryboat (Buquebus). O mercado ainda estava fechado, preparando-se para receber as pessoas no horário do almoço. É basicamente um espaço gastronômico, com poucas opções de souvenirs e artesanato. Mas traduz completamente a tradição uruguaia quanto aos cortes de carnes, parrillas, vinhos e gula. Encontramos uma lanchonete com as tradicionais empanadas. Nome: “Empanadas Carolina”. Foto, claro. Completamos nosso café da manhã e fomos caminhar pelo bairro.
A região do porto também abriga das instituições financeiras da capital. Muitos bancos, muitos órgãos financeiros e prédios muito antigos. Volto a falar: se Montevidéu estivesse preservada, seria de uma beleza espantosa. O destino nos levou a belas igrejas e prédios com grandes colunas em estilo greco-romano. Monumentos, algumas cantadas dos uruguaios portuários e muitas galerias de arte. Podíamos passar horas entrando em cada uma delas, se soubéssemos disso antes! Voltamos ao mercado e optamos por nos sentarmos na Cabana Verônica, com uma enorme referência ao sol de Vilaró. Experimentamos o vinho Tannat, que só existe nesta região e em alguns trechos da França. Optamos novamente pelo Dom Pascual. Forte, e eu diria ainda: ele é primo do nosso vinho Chapinha! Vale a pena experimentar.
Era hora de partir. Já estávamos dentro do prazo limite para retornarmos ao hotel e buscarmos nossas malas. É importante lembrar que os taxis pretos e amarelos são muito mais baratos do que os brancos e na volta pro aeroporto confirmamos isso: metade do valor que gastamos na chegada. No aeroporto, um Free Shop de dar medo. Segurem os bolsos, porque o que você não gastou nas andanças, pode evaporar nesse momento! De volta pra casa, de volta ao mundo real. Mais uma máscara na parede, mais três ímãs na geladeira e muitas fotos pra contar o que vi com meus próprios olhos...
Fotos no próximo post...
 

09/08/2011

Antes de Partir

Estou naquele instantezinho do tempo em que me sinto dividida quanto à espera: é bom ter o que esperar, é bom saber que um dia vai estar lá, mesmo que isso te roube o sono e te deixe ansiosa. Vivo de esperas, e talvez eu sempre espere muito, especialmente de mim mesma. Quero passos largos, quero planos a curto ou longo prazo. Não é à toa que tenho uma lista do que ainda quero fazer...


Hoje estou beirando meus 29. Aos 16, que se não me engano foram ontem, eu fazia planos para o que sou hoje. Agora faço planos para minha terceira década. “Haja hoje para tanto ontem”, frase supostamente roubada de Leminski. Estamos em agosto, aquele bendito mês em que o vento uiva, os ipês florescem e se vão, quando eu descubro que tenho menos um ano para cumprir tantos planos. Por mais alvissareira que minha vida seja, será que vou realizar tudo que pretendo?


Não interessa. Esperar, fazer as malas, me permitir idas e vindas – isso me move, isso me mantém de pé. Disse Clarice Lispector hoje, através do seu correio eletrônico direto do céu: “Que medo alegre, o de te esperar”... A expectativa de romper distâncias enormes, de estar num túnel do tempo e do espaço, como se não houvesse limites quando se tem um bom propósito. Mas diriam os outros: “de bons propósitos o inferno está cheio”...


Propósitos estes que provavelmente só eu entendo, pois só cabem ao meu coração. Mas se for necessário encarar o outro lado da esfera sozinha, que assim seja. Desde que eu sempre atravesse os meridianos com a sensação de sonho realizado. Sonhos estes que encorpam um único desejo: o de ver tudo com meus próprios olhos.


Quero muito ir, sempre ir, e de vez em quando voltar. Voltar quando a saudade for sincera, quando o cansaço bater, quando eu descobrir que pertenço (ou não) àquele lugar. Sacrifícios são feitos, mas tornam-se irrisórios quando mensuramos o impacto do trajeto percorrido em nossas modestas almas. Não que quem vá que volte do mesmo jeito que foi.