16/08/2011

De Artigas a Vilaró

Se recebemos limões, temos duas opções: limonada ou caipirinha. Só não fique azedo se o destino te prega peças e te impede em alguns momentos de viver plenamente, segundo seus planos. Você pode ficar de fora do vôo, pode não ter teto pra pousar, mas vale a pena ver pelo lado positivo: você tem mais uma cidade na sua rota. Exerce seu direito como cidadã, espera muito tempo por um boletim de ocorrência, mas no final, curte o jantar, tem uma boa noite de sono e no dia seguinte ainda consegue um tempo para fazer uma visita guiada por Porto Alegre.
Dia 01:
Assim começou nossa viagem. Sentindo o vento frio do sul do país chegar do Rio Guaíba, capaz de congelar o nariz e embaraçar qualquer cabelo. Valeu a pena rodar pela capital do Rio Grande do Sul conhecendo seus pontos importantes. Porto Alegre tem prédios incríveis e uma praça que nos prometemos ainda voltar lá. Um conjunto arquitetônico maravilhoso, composto pela catedral, o Palácio do Governo, o Palácio da Justiça, etc. Mas que pena ver a situação da universidade federal, abandonada, mal conservada e em período de greve.
Logo depois do almoço e um chocolate cremoso (conhecem “xindongue”?), uma nova tentativa rumo a Montevidéu. Chegamos ao final da tarde, fizemos o check-in num hotel 3 estrelas que era bem razoável pelo preço que pagamos antecipadamente (Los Angeles). Sem frescuras, um prédio bem antigo na Avenida 18 de Julho, região comercial da Cidade Velha. Decoração dos tempos de colônia, como se estivéssemos congelados nos remotos dias de fundação da cidade. Frio de 13 graus, muito vento e ainda assim ânimo pra rodar a Praça da Independência. Estamos no ano do bicentenário do Uruguai (2011) e isso só corrobora nossa opinião: como pode uma cidade parecer ser muito mais antiga, mesmo sendo tão jovem? Envelhecimento precoce?
O velho hotel que representa a região central da “Ciudad Veja” contra o sol naquele fim de tarde era um grande golpe de sorte, já que no ano passado encontrei a cidade num dia nublado e chuvoso. Artigas representado em monumento, imponente e solitário em seu cavalo. O prédio da Presidência da República em estilo moderno, conflitando com a arquitetura local e criando o contraste típico dos modelos de governo sul-americanos em relação ao seu passado. É uma praça bonita e neste dia, parecia desabitada. Nunca vi um ponto turístico tão vazio, mas isso não impediu que um “papagaio de pirata” ainda assim participasse com convite de uma foto minha com o hotel ao fundo.
Andamos até a Rambla, avenida “beira-rio” que delineia toda a cidade. A magnitude do Rio da Prata em ondas, como se fosse um verdadeiro mar. Afinal, o Uruguai deve sua razão de existir a Solís, descobridor deste rio que se transformou em riqueza nos tempos do comércio entre impérios. Uruguai que já foi território brasileiro! Mas que tem uma capital construída no estilo de Buenos Aires. Belas construções, por sinal, que estão abandonadas e que se deterioram com o passar do tempo... História que se perde por falta de incentivo e atenção por parte do seu governo, que não foi bem julgado pelo nosso amigo taxista. Paramos numa confeitaria e, claro, eu pedi uma medialuna (nosso “croassaint”, porém melhor), enquanto minha amiga Renata pediu um tipo de brioche com o famoso doce de leite uruguaio.
Rumo ao hotel naquele sábado congelante, passamos por várias bancas de comerciantes e pelas vitrines das lojas da Avenida 18 de Julho, que é referência pelo seu comércio. Mas um aviso aos navegantes: nenhum preço milagroso, nenhum produto diferenciado. Não ande por lá esperando comprar tudo pela metade do preço nas lojas que mais lembram o centro de Belo Horizonte. Os vendedores de rua podem até oferecer luvas, toucas e cumbucas de chimarrão a um bom preço, mas pára por aí o consumismo. Aliás, o mate faz sucesso por lá como eu nunca tinha visto! Lembre-se que na atual conjuntura, um real equivale a dez pesos uruguaios. Trocar a moeda nas casas de câmbio do Uruguai atualmente é melhor opção do que trocar no Brasil.
À noite retornamos à Praça da Independência e descobrimos um beco em frente ao Teatro Solís. Encontramos uma tradicional “parrilla” e não hesitamos. Era hora de comer dignamente depois de tanto caminhar. Frio de 9 graus de endurecer as canelas, mas a calefação é mesmo um recurso fundamental nessas horas. Pedimos um cabernet sauvingnon uruguaio, da marca Don Pascual, e me surpreendi. Como gosto de vinhos brancos e leves (especialmente frisantes), finalmente provei um cabernet que não me deixa com a língua azeda (coisa típica de quem não entende de vinhos e reclama de barriga cheia). Pedimos o “bife ancho”, segundo Renata, um patrimônio imaterial do Uruguai, assim como o pão de queijo em Minas. De sobremesa, creme brullé, uma dessas frescuras feitas com ovo, leite e sei lá mais o quê. Alma aquecida, fome satisfeita e riso frouxo. Hora de voltar para o hotel. Aliás, o taxi é mesmo muito barato. Já no hotel, uma tentativa de uma cambalhota no corredor, algumas fotos pitorescas no sofá que também deve estar fazendo 200 anos. E um sono merecido!
Dia 02:
Acordamos cedo, empolgadas com os planos para o dia. Como perdemos o primeiro dia de viagem, desistimos da ida à Colônia de Sacramento, cidade histórica uruguaia. Optamos por ir à Casa Pueblo, rumo a Punta Del Leste. Tomamos um taxi para o terminal Tres Cruxes e de lá um ônibus convencional rumo a Puertozuelo. Passamos por um nevoeiro interminável, que só se dissipou quando nos aproximamos da região costeira. Descemos na rodovia mesmo. O trocador balbuciou algumas instruções e só entendi que precisávamos descer. Encontramos uma placa e seguimos por uma estrada... Avistamos Punta Del Leste depois de muito caminhar... Passamos por um condomínio de bonitas casas (mansões que devem bombar no verão) e muito tempo depois chegamos à entrada da Casa Pueblo.
Visitamos o museu da Casa Pueblo, na Punta Ballena, recinto dedicado às obras de Carlos Vilaró, uruguaio que valoriza o sol de sua bandeira em muitas obras de sua coleção. Muitas cores, formas geométricas lembrando Romero Britto. Muitas referências a Van Gogh e Picasso. Mas o que impressiona mesmo é a construção em si, toda pintada de um branco intocável. Formas arredondas intercaladas por extremidades pontiagudas, cravadas na montanha à beira-mar. Você praticamente se imagina nas construções brancas que também existem na Grécia, Santtorini, países árabes, etc. É intimidante... Ficaria com medo se eu ainda por cima conseguisse avistar baleias dali naquela época do ano, razão do nome daquela ponta de terra em direção ao mar.
A Casa Pueblo ganhou mais espaço com a construção do hotel de luxo ao seu redor, seguindo o mesmo modelo arquitetônico. A estrutura como um todo tem uma proporção que não se percebe olhando pela varanda do museu. Renata recebeu a dica de uma amiga sobre o restaurante do hotel e corremos até lá. Éramos só nós duas tomando um elevador no rumo contrário: descendo 9 andares referentes ao espaço do hotel incrustado na montanha. Quando chegamos ao restaurante, nos deparamos com uma vista magnífica que ainda assim deve equivaler a 1/5 do conjunto arquitetônico completo. O vento cortante não nos impediu de fazermos várias fotos do lugar. Almocei um belo peixe local com um purê de batata meio sem tempero. Renata pediu uma massa com queijo gruyere. Não é barato, mas vale a pena. Era hora de voltar, refazer o percurso e tomar o ônibus de volta à capital uruguaia. Esses momentos de deslocamento eram nossa oportunidade de algum descanso.
Já em Montevidéu, mais uma caminhada longa pelos trechos da Avenida 18 de Julho que ainda não havíamos passado. Bonitos prédios e manifestações populares em plena atividade. Ainda não sei dizer como, mas tenho mesmo um carma com essas manifestações... Aconteceu a mesma coisa na Argentina! Caminhamos até uma lanchonete, mas não tínhamos fome o suficiente pra encarar um “chivito”, que é o nome dado aos hambúrgueres uruguaios. Adivinhem o que comi? Medialuna! E Renata encarou uma panqueca adivinha de que? Doce de leite! Fomos para o hotel e nem conseguimos sair à noite. Planejávamos um jantar no restaurante do Teatro Solís, mas estávamos exaustas.
Dia 03:
Madrugamos pra aproveitar a manhã que nos restava. O café da manhã do hotel era bem esquisito e já sabíamos que precisaríamos de um lanche intermediário. Fomos direto para a Rambla, na altura do Museu Zoológico e Oceanográfico na Playa Del Buceo. Como pode ventar tanto numa cidade, ao ponto de transformar o rio em um mar de altas ondas? Gaivotas e pombos disputavam a areia e as pedras da praia. O museu infelizmente estava fechado, mas sua arquitetura exótica valia a pena. Ano passado eu achei que era uma mesquita. Só conseguimos avistar o esqueleto de uma girafa pela porta e de lá caminhamos pela Rambla até um bondoso taxista finalmente nos resgatar.
Rumo ao Mercado Del Puerto, ouvimos mais histórias. Fato é que ficamos amigas de todos os taxistas, extraindo deles a percepção popular que não consta nos guias de viagem. Passamos pelo porto e reconheci o prédio que avistei ano passado ao descer do ferryboat (Buquebus). O mercado ainda estava fechado, preparando-se para receber as pessoas no horário do almoço. É basicamente um espaço gastronômico, com poucas opções de souvenirs e artesanato. Mas traduz completamente a tradição uruguaia quanto aos cortes de carnes, parrillas, vinhos e gula. Encontramos uma lanchonete com as tradicionais empanadas. Nome: “Empanadas Carolina”. Foto, claro. Completamos nosso café da manhã e fomos caminhar pelo bairro.
A região do porto também abriga das instituições financeiras da capital. Muitos bancos, muitos órgãos financeiros e prédios muito antigos. Volto a falar: se Montevidéu estivesse preservada, seria de uma beleza espantosa. O destino nos levou a belas igrejas e prédios com grandes colunas em estilo greco-romano. Monumentos, algumas cantadas dos uruguaios portuários e muitas galerias de arte. Podíamos passar horas entrando em cada uma delas, se soubéssemos disso antes! Voltamos ao mercado e optamos por nos sentarmos na Cabana Verônica, com uma enorme referência ao sol de Vilaró. Experimentamos o vinho Tannat, que só existe nesta região e em alguns trechos da França. Optamos novamente pelo Dom Pascual. Forte, e eu diria ainda: ele é primo do nosso vinho Chapinha! Vale a pena experimentar.
Era hora de partir. Já estávamos dentro do prazo limite para retornarmos ao hotel e buscarmos nossas malas. É importante lembrar que os taxis pretos e amarelos são muito mais baratos do que os brancos e na volta pro aeroporto confirmamos isso: metade do valor que gastamos na chegada. No aeroporto, um Free Shop de dar medo. Segurem os bolsos, porque o que você não gastou nas andanças, pode evaporar nesse momento! De volta pra casa, de volta ao mundo real. Mais uma máscara na parede, mais três ímãs na geladeira e muitas fotos pra contar o que vi com meus próprios olhos...
Fotos no próximo post...
 

09/08/2011

Antes de Partir

Estou naquele instantezinho do tempo em que me sinto dividida quanto à espera: é bom ter o que esperar, é bom saber que um dia vai estar lá, mesmo que isso te roube o sono e te deixe ansiosa. Vivo de esperas, e talvez eu sempre espere muito, especialmente de mim mesma. Quero passos largos, quero planos a curto ou longo prazo. Não é à toa que tenho uma lista do que ainda quero fazer...


Hoje estou beirando meus 29. Aos 16, que se não me engano foram ontem, eu fazia planos para o que sou hoje. Agora faço planos para minha terceira década. “Haja hoje para tanto ontem”, frase supostamente roubada de Leminski. Estamos em agosto, aquele bendito mês em que o vento uiva, os ipês florescem e se vão, quando eu descubro que tenho menos um ano para cumprir tantos planos. Por mais alvissareira que minha vida seja, será que vou realizar tudo que pretendo?


Não interessa. Esperar, fazer as malas, me permitir idas e vindas – isso me move, isso me mantém de pé. Disse Clarice Lispector hoje, através do seu correio eletrônico direto do céu: “Que medo alegre, o de te esperar”... A expectativa de romper distâncias enormes, de estar num túnel do tempo e do espaço, como se não houvesse limites quando se tem um bom propósito. Mas diriam os outros: “de bons propósitos o inferno está cheio”...


Propósitos estes que provavelmente só eu entendo, pois só cabem ao meu coração. Mas se for necessário encarar o outro lado da esfera sozinha, que assim seja. Desde que eu sempre atravesse os meridianos com a sensação de sonho realizado. Sonhos estes que encorpam um único desejo: o de ver tudo com meus próprios olhos.


Quero muito ir, sempre ir, e de vez em quando voltar. Voltar quando a saudade for sincera, quando o cansaço bater, quando eu descobrir que pertenço (ou não) àquele lugar. Sacrifícios são feitos, mas tornam-se irrisórios quando mensuramos o impacto do trajeto percorrido em nossas modestas almas. Não que quem vá que volte do mesmo jeito que foi.










26/07/2011

Quem tem um olho é rei?

Escrevi sobre o filme “Ensaio sobre a Cegueira” em 18 de setembro de 2008. Estou desenterrando alguns textos aqui!
 
Cada um só enxerga aquilo que quer realmente ver. É um ditado? Sabedoria popular? Instinto? O que importa é o fato de que nós, seres humanos, cegos ou não, só enxergamos aquilo que desejamos, ou seja, vamos sempre nos guiar pela ignorância enquanto esta nos for mais agradável.
 
O que vi neste filme é aquilo que vemos em poucos: nossa fragilidade. A maioria dos filmes nos trata como deuses, como símbolos de força, como criaturas perfeitas. Nesta oportunidade única somos expostos aos nossos maiores medos e defeitos: a realidade crua faz todos se contorcerem nas poltronas, seja por incômodo, por nojo, por agonia.
 
O que vi neste filme foi exatamente aquilo que poucos percebem: as imagens são claras e fúnebres como o próprio tema, representando a nossa cegueira como seres conscientes do nosso papel social. Não conseguimos escapar daquele mundo cinza onde mergulhamos em nossas primeiras necessidades, aquelas que suprimos como meros animais guiados pelo instinto. Somos reféns das nossas próprias loucuras.
 
O que vi nesta seqüência de personagens tão realistas é exatamente aquilo nos recusamos a imaginar: um mundo onde perdemos este controle que hoje insistimos em caracterizar como nossa grande realização no mundo, ou seja, perdemos a humildade diante de nossa natural fragilidade como seres vivos. Cada passo rumo à cegueira mundial, descobrimos mais sobre nós mesmos, deixamos transparecer tudo aquilo que escondemos diariamente graças à nossa razão.
 
O que vi diz mais respeito ao que senti do que às imagens propriamente ditas. A condição humana se deteriora em tão pouco tempo e daí: o que seria do nosso mundo se não pudéssemos sequer mantê-lo em um estado saudável e limpo? As disputas crescem proporcionais ao desespero e daí: a que ponto podemos chegar ao perdermos a razão que nos caracteriza diariamente e que controla nossos impulsos mais íntimos? Tudo aquilo que postulamos em filosofias ao longo de milênios se quebra como cristal e daí: será que podemos mesmo sempre garantir o controle de nossos desejos? Numa cidade onde a luta diária já nos torna competitivos por natureza, somos obrigados a brigar por aquilo que nos é mais fundamental: a dignidade.
 
O que importa é nos colocarmos numa situação semelhante, seja na posição dos cegos bonzinhos, dos cegos cruéis, dos cegos reais ou daquela que por algum motivo se manteve imune. Aliás, que imunidade é esta, concedida ao personagem da Julianne Moore, que lhe dá a condição de liberdade almejada por todos? Até que ponto esta liberdade, esta autonomia não lhe faz sofrer mais do que todos aqueles que não estão enxergando com os próprios olhos a desolação humana e a perversidade descarada? Até que ponto você realmente gostaria de ser um dos únicos providos do direito de ver tudo aquilo que todos iriam preferir desprezar? Este personagem apenas nos faz enxergar que a maioria de nós poderia se acovardar facilmente diante da visão de um mundo terrivelmente abandonado e que carregar um mundo cego em suas costas torna-se um fardo que poucos poderiam suportar com nobreza.
 
Sim, meu estômago embrulhou em várias cenas de violência durante a permanência dos infectados no hospital abandonado. Embrulhou inúmeras vezes em cada cena onde as condições sanitárias nos mostravam a discrepância em relação à nossa rotina. Embrulhou mesmo, o tempo todo. Embaçou a minha própria visão do que somos, a todo instante. Enfim, de onde surgiu a cegueira é o que menos importa. Nesta versão cinza do mundo, quem tinha um olho podia realmente ajudar, mas ninguém jamais almejaria reinar uma terra onde a esperança não consegue iluminar nossas almas.
 

7 Dramas do Telefone

Escrito em 29 de abril de 2009.
 
 
Boa tarde. Meu desabafo hoje gira em torno do meu pânico de atender telefone.
 
Número 1: Insistência.
Toca o telefone. Toca enquanto você não atender ou enquanto a pessoa não desistir. Saímos da insistência ao grau máximo da chatice. Que não se confunda com persistência, pois persistir é lutar, não incomodar.
 
Número 2: Desistência.
O ódio maior surge quando o insistente de repente se acovarda. Adivinhando, alguém do outro lado simplesmente desiste exatamente quando você toma coragem e ânimo pra atender. Neste momento, sua garganta trava, a boca seca e a raiva toma conta dos seus pensamentos: - Quem foi o panaca que desistiu da ligação? Ou... – Sabia, era só eu levantar pra atender que ia mesmo desligar.
 
Daí que você começa a achar que todo mundo te liga só pra desligar.
 
Número 3: Neurose
Você tem certeza de que está sendo espionado. Alguém estaria te vigiando, confirmando se você está disponível pra simplesmente pegar o gancho do telefone e desligar na sua cara? Quem seriam os suspeitos? Quem teria este prazer, de suplantar o ódio em sua alma apenas pra fazer hora com sua cara?
 
Número 4: Psicose
Certezas à parte, um psicopata não mede seus impulsos. Quando o telefone toca de novo, você o fuzila com um olhar, como se sua mente fosse controlar a pessoa que está telefonando pra você. De repente, você imagina um “vudu” em ação, espetando a pessoa até que ela desista de te ligar. Sem opção, você atende. Solta um “alô” tenso, carregado, já avisando que não está pra muito papo.
 
Número 5: Indiferença
Depois do “alô” inevitável, você já está dominado pelo estresse. A outra pessoa ainda pergunta “quem fala?” e a sua vontade de responder é “fala quem vc queria que falasse quando ligou pra este número”. Você sente uma vontade enorme de dizer “não me interessa se você ficou magoado”. A pessoa do outro lado acha que você está à disposição e que você pode ligar quando quiser. Mas não é bem assim que funciona.
 
Número 6: Egoísmo
Quando uma pessoa te liga, ela automaticamente considera que se você atender, você está disponível. Mas normalmente não está! A pessoa acha que seu tempo é o tempo dela, que ela pode te interromper sempre que quiser! Normalmente o telefone toca exatamente quando você está: a) dormindo, b) concentrado, c) discutindo a relação, d) vendo seu programa predileto na TV a cabo, e) com preguiça de falar com qualquer um no mundo. Se você não se encaixa em nenhuma das opções anteriores, você nem sequer é humano.
 
Número 7: Pânico
Daí que nessa loucura toda, só atendo agora por obrigação (exemplo: trabalho). Meus amigos irão me entender. Sabem que respondo por e-mail, comunidades virtuais, mensagens e às vezes até ligo de volta (mais pra descontar a raiva e me vingar do que pra saber o assunto). Minha mãe já sabe do meu pânico e ligo de volta assim que estou no meu tempo, ou seja, quando estou realmente disponível para telefonar. Sem interromper a minha vida porque os outros decidiram assim. Isso é liberdade! Graham Bell, a revolução começa aqui.
 
Obs: Estamos em 2011 e continuo com a mesma opinião sobre o bendito telefone.
 

Anjos, Demônios e Humanos

Escrevi este texto em Maio de 2009. Acho que vale a pena deixar aqui no blog.
 
 
Anjos, Demônios e Humanos
 
 
Ao sair do cinema, uma reação quase imediata: questionamento. Não vou entrar no mérito quanto à verdadeira história da Igreja Católica (esta tarefa fica para meu amigo historiador que sempre estraga o prazer da ficção), muito menos sobre os “Iluminatti”. O debate em si pode ser muito mais rico e transcender aos fatos armados pelo autor do livro que inspirou o filme. Afinal, a grande maioria não conhece Roma e não sabe se de fato todas aquelas estátuas sempre apontam para algum lugar. 
 
O debate religioso será sempre polêmico. Cada um defende a sua fé, tomando como verdade aquilo em que acredita. A natureza humana instintivamente busca suas raízes, se identifica com crenças e seleciona alguns recursos que minimizem sua solidão. Acreditar em algo superior conforta e confiar na punição divina talvez torne o mundo menos injusto. Afinal, só assim não estamos completamente sozinhos, nem quando dormimos, nem nos momentos de grande angústia ou desespero. A fé é, antes de mais nada, uma lei social que impõe regras “invisíveis”, as quais nos tornam mais racionais e possibilitam uma convivência mais digna.
 
Daí que talvez eu tenha mesmo algo em comum com o professor Robert Langdon - talvez seja muito “acadêmica” para conseguir explicar a fé e muito “insignificante” para ter o dom desta certeza. O filme fala de uma conspiração fictícia, portanto não busque defeitos ou confirmações na realidade. Mas vale pensar em tudo que a humanidade já escondeu, em como somos perversos e ao mesmo tempo tão inocentes para acreditarmos em falsos heróis. Se algum dia realmente tivéssemos certeza do fim dos tempos, agiríamos naturalmente ou tentaríamos ser santos apenas por medo e instinto de sobrevivência? Até que ponto seríamos mesmo honestos? E de que adiantaria ser lobo em pele de cordeiro, se Ele conhece as profundezas de nosso coração?
 
Fé é um tema que quanto mais se discute, mais se ofende. E definitivamente esta não é a minha intenção. Também acredito em “algo” que não consigo explicar, muito menos provar. Afinal, “acreditar” nos torna mais humanos, nos aproxima dos anjos e nos afasta dos demônios diários que enfrentamos. “Acreditar” talvez simplesmente signifique ter esperança. “Esperar” por algo melhor e “fazer” o nosso melhor pode ser a nossa real salvação.
 
Sinopse do Filme
O assassinato de um cientista faz com que o professor Robert Langdon (Tom Hanks) e Dra. Victoria Vetra (Ayelet Zurer), envolvam-se com uma trama da sociedade secreta dos Illuminati. Ciência e religião se refletem no mistério da anti-matéria. O Vaticano convoca a dupla (um simbologista e uma física), buscando a solução para uma conspiração envolvendo o assassinato de cardeais, às vésperas da eleição do novo Papa, que coloca Roma em perigo.
 
Obs: Meu irmão é maçom.
 
 

25/07/2011

Eu, Social

Fazemos parte hoje da década da “mídia social”. A geração que nasce agora vai encarar um mundo onde ter o seu “avatar” na internet é mais do que natural: vem de berço. Estamos na rede, conectados por usuários, contas, e-mails, números e senhas. Hoje somos completamente rastreáveis, desde que estejamos conectados na mesma realidade. Estatísticas podem falar sobre isso melhor do que eu (http://www.youtube.com/watch?v=gIDB9qB1DN8). Você é um código de banco, um CPF, um registro de identidade, um CEP, um índice cadastral, um IP, um usuário em cada site, um login na rede, ou seja, você é uma pista pra si mesmo. Estamos nos tornando itens do patrimônio globalizado. Melhor estar catalogado do que viver à margem da modernidade? Eis a questão.
 
Mas não adianta negar: realmente tudo isso beira à loucura para alguém que, como eu, quase aos 30 hoje,  ficou deslumbrada quando descobriu o telefone sem fio, a TV a cabo com desenhos sem legenda, o computador com DOS, o celular ainda com antena, o wireless ainda cheio de estranhamento, o MP3 minúsculo, o Ipod que ainda me dá uma surra, etc. Com quantas tecnologias você tromba todo santo dia e se assusta? Graham Bell que me perdoe, mas eu ainda nem digeri a invenção dele, o que direi das demais!? Há alguns anos atrás perdia horas discutindo este tipo de assunto no sofá da república estudantil da qual fiz parte e cheguei a uma conclusão: a modernidade é um assunto que só bêbado entende. Continuo sem entender como temos fotos de galáxias, como o sinal da televisão chega na minha casa com imagens, como a voz viaja pelo rádio, como o DNA define o que somos, como somos feitos de aminoácidos pensantes, como nasce uma pessoa. Pois a vida humana é a suprema tecnologia da natureza, em seu estado puro...
 
Nos últimos dias corri contra o ponteiro do tempo. Pelo pouco que sei, já fico espantada com as teorias físicas que surgem no mundo moderno. Cordas, dobras, buracos de minhoca, buracos negros, água em Marte. E daí vem a conclusão de que de fato o tempo é elástico, acompanhando o quanto exigimos dele. Você pode fazer milagres do “quase” tele transporte, saltando de um país para outro em horas se tiver os recursos certos. Quando é que os colonizadores famintos pelo ouro por volta de 1500 imaginariam que suas navegações históricas e o genocídio de civilizações inteiras, seriam substituídos pela informação que não se limita ao tempo e espaço? Você literalmente viaja sem sair do lugar, apesar as limitações da vivência virtualizada. Hoje você é uma peça na tal Sociedade do Conhecimento, essa bendita de quem ouço falar desde os meus tempos da faculdade, como uma teoria de pensadores malucos. Você vive múltiplas realidades, mesmo que não se possa estar lá de corpo presente.
 
Não dá pra fugir dessa tsunami de informação, convívio e sociabilidade. Você pode resistir, mas vai aos poucos se sentir perdido e contra a maré. Guetos virtuais existirão, representando a sociedade concreta, mas a nova mídia permitirá que seu alcance e seus relacionamentos cresçam exponencialmente. Antes você era X, agora você é X ao quadrado quando se trata da capacidade de comunicar e alcançar mentes alheias. Você agora é mais do que um microfone. Você é um megafone. Formador de opinião, ou “desinformador” de qualquer outra coisa. Polêmico superficial, ou observador contingencial. Não importa, você simplesmente faz parte. Você pode resistir, mas acredite: tem onda que vale a pena surfar. Se quiser, volte pra terra firme. A história prova que resistir às mudanças ou encará-las como um desafio definem as espécies que sobrevivem. 
 
 

14/07/2011

Como corre uma solteira

Se você pensou que entrar num curso para procurar um marido era uma estratégia inusitada, acredite: existem muitas outras formas malucas de procurar a bendita agulha no palheiro. Como se não bastasse se tornar uma profissional especialista, coisa chique no mercado, ela também estava decidida a ser uma atleta... Mas a corrida era outra: correndo atrás de um cara que talvez valha a pena. Como é que chegamos a esse ponto?
 
Simples. Ela o conheceu. Parecia um cara agradável, bem apessoado, buscando formação numa pós-graduação. Caiu a ficha? Sim, ele era aluno do curso em que ela se matriculou. Digamos que havia uma possibilidade da tal estratégia inusitada dar certo. Eles se aproximaram, trocavam idéias sobre auditorias, gestão, indicadores. Papo de adulto descolado, quase “Cult” (se entraram no assunto Cinema e Livros, eu não sei). Ele era de outra cidade, estava se enturmando numa cidade grande (menor que a sua, no entanto) e nada melhor do que a “relações públicas” do mundo dos solteiros para fazer sala.
 
Marcaram uma corrida, novo programa que virou mania na cidade. Agora ninguém chama mais pra caminhar: você tem que correr. Você já corre o maldito dia inteiro: no trânsito, no trabalho, em casa. E ainda tem que correr por aí, porque agora é moda e faz bem pra sua imagem. Foram até uma dessas avenidas em que os supostos atletas balançam seus quadris. Uns em forma, outros nem tanto. Fato é que toda a encenação se divide entre: 1) os desesperados pra emagrecer, 2) os que foram esculachados pelo médico por causa do colesterol, 3) os que querem se exibir e, agora, 4) aqueles que usam a corrida pra se sociabilizar.
 
Ele decidiu apertar o passo, ela ficou aos galopes. Por quando não se corre, tudo parece mais um trote. Ele tomou uma distância considerável e ela acabou vencida, derrubada na calçada. Quanto o avistava, levantava-se imediatamente, fingia uma respiração ofegante e corria em sua direção. Ele, sem entender como ela corria tanto, mas ainda estava tão atrás, perguntava: “Ué, não te vi passando!” Em uma sinapse imediata, ele retrucou: “É que dei a volta na praça, por isso você não me viu”. Ela “paga de atleta” e ele de “pateta”. Afinal, o que importa é a propaganda, pois o produto não é nada sem um bom marketing.
 
Dão mais algumas voltas, apenas caminhando, como dois colegas de corrida. Falam sobre a vida e aí voltamos àquele bendito questionário que se faz quando um pretendente é localizado: De que signo ele é? Ela pensa: “Se for aquariano, melhor nem tentar...” Qual a relação dele com a mãe? Ela conclui: “Será que ela é uma boa sogra?” Será que ele corre porque é complexado? Ela questiona: “Ai, meu Deus, complexo de quê?” Será que ele tem um bom fôlego? Ela ri: “Melhor que tenha, ninguém merece um homem mais ou menos.” Será que ele vale a pena? Ela desiste: “Coitado.” E cada um vai pra sua casa. Chega da novela por hoje.