27/02/2012

O Tédio

O Tédio. Devo ser da geração T, de tédio. T de exigente constante tesão por tudo. Aprender que a vida não é 100% aventura é quase tão difícil quanto entender que o número do Pi é uma dízima periódica. Aceite, a vida é 99% do tempo batalha para viver 1% do sonho que nem te pertence. Eis a questão. Não me conformo com esse T de “tantinho”, esse pouco que nada vale diante de tantas possibilidades. O problema do Tédio é que ele corrói quem é ansioso por viver, por sorver a vida em seu princípio básico: ela tem fim. E se tem fim, quanto mais você se conforma, mais perde tempo. Ou melhor, Tempo.
 
E não dá pra pensar que perder Tempo é passível de correção - que minuto se resgata, que hora se recupera, que dia se retoma. Você pode até aprender dali pra frente, mas o minuto que aqui estou perdendo, entediada, resmungando, esse Tempo eu já perdi na batalha cega contra esse monstro. E você também, pois sendo de carne e osso como eu, mero mortal encarnado em suas funções de gente, está provavelmente trabalhando, cuidando de sua vida, e não sonhando com ela, muito menos gastando todo o seu tempo vivendo sonhos. Pois até viver de sonhos um dia cai no Tédio.
 
Ah, maldito ser humano que não se contenta! Um “contentar descontente”, alguém já disse, depois de já saber que o Tédio não discrimina. Você se entedia de qualquer coisa, por melhor que ela seja? Não se preocupe, talvez você seja só humano, insatisfeito e inconformado. Não se trata de ser infeliz! É apenas uma questão de sempre achar que tudo pode ser mais intenso, mais emocionante, mais tela de cinema. A gente quer viver uma novela, mas sem dramas, só com grandes sentimentos, grandes ideias, achando que a mesmice é desprezível e cabível aos comerciais e horários políticos.
 
Santa ignorância! Se nos entediamos até quando vivemos de sonhos, até a vida sonhada se transformaria em mesmice e cairíamos no mesmo paradoxo do Tédio. Estamos condenados. Portanto, que bom que a mesmice que temos ao nosso alcance é barata e ainda nos dá a chance de pequenos luxos e prazeres que nenhum outro ser vivo tem direito: família, trabalho, educação, fé, amizade, conceito de futuro. A nossa mesmice, tão reclamada, ainda é a melhor condição que a natureza propusera quando nos fez seres inteligentes: ainda bem que não vivemos enlouquecidos numa vida de aventuras constantes!
 
A verdade é que o Tédio, nem é tão malvado assim. Ele te sacode, te move, te acorda. Te incomoda. E por mais que ele pareça querer te engolir, na verdade está te soprando pra bem longe, dizendo que você precisa aprender a dar valor aos dias pacíficos, aos sonhos que se permite e ao poder que tem para realizá-los. Pois acredite: sonhar muitas vezes demanda mais esforço, gera mais felicidade e causa mais benefícios do que viver o sonho de fato. Não se mate quando estiver entediado. Vai passar.
 

24/02/2012

O mestre

"O verdadeiro poder e a verdadeira autoridade não é exercer poder e autoridade sobre os outros, mas sobre si mesmo. Entender essa simples verdade é entrar no processo de se tornar um mestre de si. Mais do que tentar controlar os outros, eu começo a perceber que sou capaz de controlar meus próprios impulsos, hábitos, pensamentos e reações."
 
 

23/02/2012

Infância bem vivida

Quando eu era criança, mas nem tão pequena assim, me divertia na caixa d´água do prédio em que eu morava nos dias em que tínhamos que lavar a bendita. Até hoje não sei como minha mãe tinha coragem de nos deixar nadar naquele lugar, beirando o topo do prédio. Adulta que sou hoje, não sei se eu ia achar tão natural ficar rodeando aquela beirada como se fosse a dois palmos do chão. Deus, como já estivemos imperceptivelmente expostos ao risco! E só isso me incomoda quando tenho essa memória hoje. Não penso na época de vacas magras, nem de diversões aparentemente mixurucas, muito menos na suposta ausência de luxo ao se divertir na caixa d´água do prédio. Por sinal, eu era bem mais corajosa do que talvez eu seja hoje!
 
Naqueles tempos, subíamos no teto do terraço sem pensar na altura a que estávamos expostos. Não interessava a que distância estava o chão. Só nos interessava o quanto estávamos mais próximos do céu azul, que nos esperava para mais uma de nossas aventuras, fossem elas imaginárias ou reais. Podíamos nos divertir às custas de uma simples pipa, feita do papel mais barato, ou de mundos criados daquela matéria-prima que o dinheiro não compra e nem manda buscar. Viajávamos em nossa nave espacial feita de cacos recolhidos na rua, lixo reciclado em sua mais pura essência, convertido em brinquedo clássico. Paredes pintadas de azul e amarelo, restos de tinta aproveitados e sem permissão, indicando computadores que já eram holográficos em nossas ideias.
 
De cabos de vassoura convertidos em espadas e bastões, de placas de madeira convertidas em escudos e armadura, a portões imaginários, passagens secretas pelo espaço, civilizações inteiras esperando por nós em outros planetas, poderes concedidos a cavaleiros nomeados por constelações. A gente não tinha medo de altura! A verdade é que a gente não tinha medo de nada, de monstro algum, de lugar algum, de risco algum, de qualquer desafio - a gente nem sequer tinha medo do futuro. Éramos mais criativos, mais corajosos, mais honrados (provavelmente) e mais leais aos nossos propósitos. Só queríamos viver aquela aventura, mesmo que durasse apenas uma rápida tarde de sol, num terraço de um prédio numa cidade do interior, sem muitos recursos. Ainda assim, éramos gigantes.
 
E talvez por isso nós sejamos quem somos hoje, cada um em seu canto, seguindo sua vida já saciados de sua quota de aventuras descabidas. Fato é que não somos mais aqueles heróis com nomes folclóricos, guerreando para proteger povos e terras. Somos heróis de nossa rotina, real, de pés no chão, seguindo nossos rumos tão diferentes de nossas antigas funções naquela nave espacial. Talvez tudo tenha servido para nos ensinar a valorizar o que temos hoje em nossas mãos, o que alcançamos através de nossos esforços, a cada passo. Não chegamos aonde estamos por sorte ou acaso. Tivemos nossa parcela de trabalho e culpa. Fizemos por onde. Talvez isso explique como eu me sinto em casa mesmo estando diante de coisas tão magníficas... porque eu já as conheço de viagens anteriores, daqueles tempos, em que eu apenas sonhava com aquilo, acordava naquele terraço, mas já decorando cada pedacinho do que estava por vir.
 

09/01/2012

Sua trança

A vida é um emaranhado de universos paralelos. Segundo Rayssa Constancio, talvez uma trança, com pelo menos 3 caminhos... Eu já acho que temos muito mais opções ao nosso dispor. A gente escolhe o que quer dentre mil possibilidades. Algumas delas te empurram um pouco pra trás, outras te trazem um atalho. Talvez você se depare com um único caminho lá no fim, e descubra que de qualquer jeito, tinha que chegar lá. Ou pode ser que você aprenda a escolher não o caminho certo, perante a lógica, mas sim o caminho que te faz mais feliz. Desejo que você tenha essa sorte.
Eu SEMPRE me deparei com essa constatação.
Quando era criança, assisti um filme em que uma mulher tinha uma doença misteriosa, com uma mancha em forma de borboleta. Não me lembro do nome do filme, nem em que ano foi. Fato é que na infância, sofri anos por causa do reumatismo infantil. Anos depois, descobrimos que era uma outra doença, mascarada pelo organismo ainda em desenvolvimento. Os hormônios e o estresse chegaram, trazendo o lúpus cutâneo. E daí? Daí que o primeiro sinal é a ferida / mancha em forma de borboleta no nariz e bochechas. Quando era criança, lia reportagens sobre o sistema imunológico do tubarão. Quer apostar que a cura do lúpus vai ter algo a ver com os grandes tubarões?
Quando eu era criança, escrevia jornais diários pra minha mãe. Li cada um deles como se fosse uma apresentadora... Escrevia sem parar... Anos depois, tentei Comunicação Social no vestibular... Não passei. Achou que a lei do destino tinha falhado? Pois te digo... No colégio, no último ano, me deparei com a propaganda de um novo curso. Ciência da Informação, o profissional do futuro, multidisciplinar. Fui fisgada. E foi este o curso que fiz. Meu primeiro estágio? 3 anos numa assessoria de imprensa... E o que descobri? Que seria uma jornalista frustrada: alguém cortando os meus textos? Desaforo!!! Não sei se seria mesmo o melhor caminho pra mim.
Quando era criança, via vários antigos programas do Jacques Cousteau. Queria ser oceanógrafa. Eu me desfiz desse plano por dois motivos: lúpus (avesso ao sol) e medo (coisas da idade de mudanças, receio de ir pra longe). Acabei caindo nas duas opções citadas acima. E quando me formei, fiz a minha primeira promessa para a vida toda: que todo ano eu estaria no mar, de qualquer jeito, de preferência mergulhando, em contato com aquele mundo azul e silencioso do Jacques. Promessa cumprida desde 2003. E sabe o que aconteceu? Estive em vários lugares que Cousteau também esteve: no cenote maia no México, no mar da Ilha de Páscoa, nas águas de Noronha e Arraial do Cabo. Falta muito, mas quando é que eu imaginaria que viveria essa realidade?
Quando eu era mais nova, imaginava como seriam meus irmãos. Não sabia como chegar até eles, inclusive sem me obrigar a uma convivência com meu pai. Na época, isso não era assunto discutido pra mim. Anos depois, via rede social, uma prima me ajudou a encontrar minha irmã. Por sorte (jura que é sorte?) eu adicionei a caçula, aberta, sem desconfiança, sem ciúmes e leonina. Se eu tivesse adicionado a mais velha (depois de mim), teria dado com a cara na parede e não teria resolvido esse dilema de tantos anos. Se tivesse adicionado meu irmão, teria rido do seu jeito caladão e pode ser que eu recuasse intimidada. Mas eu tropecei na pessoa certa e aqui estamos, ganhando espaço uma na vida da outra. E resolvendo velhos remorsos...
Eu bem que tentei estudar na Espanha, por volta de 2004. Era um mestrado de Gestão do Conhecimento e Comunicação Corporativa na PUC de Salamanca. Passei em todos os processos seletivos, mesmo sem saber nada de espanhol. Mas não consegui a bolsa do programa europeu. Porém, se eu tivesse aqueles 6 mil euros, teria feito o mestrado e seguido meu lado nerd de vez. Não tinha, claro. Mas eu tentei. E nunca deixei de gostar do tema... Anos depois, peguei um projeto chamado "Banco de Projetos" na empresa e tentei realizar um pouco do meu sonho... Criamos uma logomarca com o olho de Hórus, aquele que tudo vê. O projeto morreu na praia, mas eu coloquei a mão na massa. Mais uns anos e aqui estou eu participando de um projeto de uma rede social corporativa. Quais são os temas recorrentes? Gestão do conhecimento e comunicação corporativa. Destino? Não, bebê!
Se eu tivesse feito oceanografia, seria uma ambientalista frustrada diante do caos ambiental de hoje. Estaria em depressão pelo que fazem com nossos mares e florestas. Provavelmente estaria dedicada a alguma ONG, fissurada em golfinhos, baleias ou algo do tipo. Não teria muito dinheiro, pois o mundo capitalista é cruel. Quem se doa, não recebe tudo de volta. Não logo de cara. E daí, meu caro, que eu vim parar no lugar certo. Conheço 3 unidades do ICMBio. Mergulhei várias vezes. Faço meu ambientalismo em pequenos gestos em redes sociais e alguns discursos meio descascados. E ainda assim tenho meu teto, tenho meus sonhos e viajo pelo mundo porque dou um jeito. Não estou colada num pedaço de terra. Sou do mundo que eu sempre quis ver de perto.
Eu nunca sequer imaginei que eu fosse me casar. Não estava nos meus planos. Aconteceu, claro, sempre do meu jeito: a jato. Sem titubear, sem duvidar de que aquilo era o certo. Foi certo enquanto durou. Só doeu (muito) no fim, mas eu não me arrependo. Onde está o destino? Um dia procure saber o que eu dizia pra minha mãe quando era criança: "vou me casar com um branquelo do cabelo preto, quando eu tiver X anos". Deixei de ir pra França pra apresentar um artigo sobre mapas conceituais... Mas esse mesmo dinheiro, que usei pra outros fins, depois virou um crédito de aluguel... E em meio aos tempos turbulentos, eu fui pra Abrolhos. O preço de um sonho. E você quer mesmo que eu diga que não valeu a pena? Valeu. E era pra eu estar lá, contando 25 baleias jubarte.
Posso citar muitas coisas como essas... Perco as contas de quantas vezes eu escolhi um caminho, mas cheguei ao mesmo resultado. Ou quantas vezes direcionei minhas forças pra um rumo, fui obrigada a mudar de ventos, e mesmo assim encontrei o que buscava. A gente se adequa à vida, desde que você se permita confiar nas possibilidades que o futuro te oferece. Somos flexíveis, como a água. Somos feitos de 2/3 de água, não se esqueça. Voltando ao que a Rayssa disse... O destino não é uma trança com 3 escolhas. O destino é uma trança com milhares de fios.

28/12/2011

2012 - Seja Diferente

Quando o ano novo se aproxima, é hora de refletir sobre o que aprendemos...
2011 foi um ano de muita dor em vários pontos do mundo, mesmo que isso pareça tão distante de nossa realidade.
O que acontece num continente, pode acontecer em qualquer outro ponto do planeta.
A natureza mostrou mais uma vez sua força, mostrou que é capaz de revidar o tratamento que damos ao meio ambiente.
As revoluções foram transmitidas pelos canais de comunicação online, sem cortes, sem censura. E você nem sequer elaborou sua opinião sobre isso.
Os japoneses foram varridos de seu território, e nem foi preciso uma bomba como naquela década de 40.
Mas até mesmo alguns momentos de luxúria da natureza podem nos espantar por sua magnitude e beleza.
 
Mas e aí?
Você viu isso no jornal e deitou para dormir com a consciência leve de um bebê. Eu também.
Não, você não tem que se punir pelo sofrimento alheio, mas tem no mínimo que criar o sentimento de empatia por aqueles que sofrem.
Você tem, no mínimo, que rezar, orar, pedir por eles, para que o sofrimento não seja maior do que o necessário.
Você tem, no mínimo, que rever a sua vida para que seja mais coerente com seus princípios e potencialize o bem que você faz ao próximo.
Você tem, no mínimo, que deixar cair a ficha de que você não é perfeito e que pode, sim, fazer a sua parte pra melhorar o mundo ao seu redor.
Na teoria é fácil, na teoria é tudo muito óbvio.
Mas você não acorda perdoando a má vontade alheia, você não acorda relevando os absurdos falados pelas bocas alheias.
Você não engole a comida pensando que na sua gula, você já é um grande sortudo enquanto milhares passam fome.
Sim, é difícil fazer a nossa parte, é cansativo remar contra a maré.
Mas se você ao menos tentar ser uma pessoa melhor, será menos um fortalecendo a corrente negativa que ainda persiste.
As leis da vida valem para todos, não se julgue mais merecedor por estar vivo hoje do que aqueles que já se foram.
Já dizia o documentário: “Nós que aqui estamos, por vós esperamos”.
 
Que em 2012, você se permita ser uma pessoa melhor e que estimule o que há de melhor naqueles com os quais convive.
Afinal, “gentileza gera gentileza”.
Difícil, eu sei. O sangue talha, o sapo engolido arrebenta, o mundo conspira contra seus sonhos, a vida é uma selva.
Mas tente. Não deixe de tentar, pois este tipo de fracasso não borra uma letra sequer da sua história.
Fracassar tentando ser uma pessoa mais “humana” é o passaporte para aquele sono de bebê, com a consciência limpa.