24/02/2013

Tratado sobre a Arrogância

Nos últimos 4 anos eu mudei consideravelmente. Para alguns, sou mais petulante, para outros, mais calada, para outros ainda mais próximos, me tornei uma pessoa arrogante. Enquanto eu pensava simplesmente estar mais madura, consciente dos meus atos, distanciada dos problemas alheios que não me pertencem e sofrendo menos por aquilo que não me cabe resolver. Eu "endureci", coisa que aquela frase do Che Guevara me proibiria de fazer. Mas a verdade é que não foi por mal, mas sim pelo rumo que a vida tomou. 

Não quis me tornar uma pessoa mais fechada por simples opção, nem mais carrancuda por uma questão de acordar com um péssimo humor. As circunstâncias me pediram uma posição diferente diante da vida, das pessoas e dos fatos, e fui empurrada pra essa pessoa que agora eu sou, não sei se melhor, porém a que agora eu sei ser. Faz falta ser leve, mas não dá pra simplesmente voltar a velha fita cassete e desembolar o nó. Não sei até que ponto dá pra ser tudo tão "simples" de novo. 

A verdade é que também parei de esperar das pessoas mais do que elas podem dar, e talvez isso tenha me transformado numa pessoa menos "iluminada", como alguns diziam antes. Eu tinha mais fé no que estava por vir, tinha mais fé nas pessoas. E agora eu simplesmente sei que as pessoas falham, simplesmente sei que todos somos tortos de nascença. Não quero mais decepcionar, nem ser decepcionada, sem criar expectativas sobre coisas impossíveis, sem projetar sonhos que não dependam do simples momento do "agora". Não quero achar que daqui há uma semana a cura de todos os males estará na próxima esquina, quero simplesmente tomar o remédio de hoje à noite. 

E por essa visão simplista, que aos olhos de alguns parece triste e negativista, eu aprendi a ser mais leve, a me cobrar menos, a sentir menos o peso do mundo. Parei de carregar nas minhas costas as responsabilidades que não me cabiam, as mágoas que não me pertenciam, aprendendo a cultivar o desapego também pelo passado e pelo futuro. E por isso talvez eu agora tenha esse ar de arrogância, por simplesmente não querer mais me expor ao sofrimento. Não me tornei dura o suficiente, muita coisa ainda dói - só faço o que faço para não sofrer mais adiante. 

"O lado bom da vida", como diria o filme, não é ter esperança, não é criar falsas expectativas sobre o dia de amanhã. É simplesmente enxergar o que é bom agora, e cuidar disso da melhor forma possível. Tenho me esforçado para não sofrer pelo dia de amanhã, e como é difícil! Como é difícil não projetar no outro a sua própria vontade, o que você mesmo queria fazer e não consegue! Maldita inércia. Só que culpar o outro também não adianta, então prefiro cuidar do meu quadrado, fechar a boca, ouvir mais, e aí estou eu de novo: a arrogância em pessoa, porque agora eu não sou mais a velha matraca falante, não saio querendo animar a todos como antigamente, não tenho mais uma palavra amiga a todo instante como se meu repertório tivesse se esvaziado. Não é por mal, aconteceu. 

A gente simplesmente se transforma. Dizem que aos 30 nosso signo muda para o signo lunar. Ou algo assim. O meu signo anterior (virgem), combinado com o ascendente (peixes), era conhecido pela doação incondicional. Meu signo lunar é escorpião (independente, egocêntrico, materialista)... E se o nosso HD, pra não vir zerado, for realmente configurado no modo padrão com essas coisas de signo? E ao longo da vida a gente for se transformando, como a gente faz com um computador, instalando novos programas, mas no fundo, está lá o mesmo Windows, dando pau? Quem é que disse que não vou ficar ainda mais cabeça dura neste meu ciclo dos 30? Já fui feita no programa difícil - esse tal do virginiano sofre. Mas não podia ter nascido no "tabuleiro" que gera gente mais fácil, mais dócil, mais leve? Não tem boot de sistema que resolva, meu bem. 

O meu medo é esse: estar ou ser estigmatizada de agora em diante pelo meu novo gênio. Por estar mais consciente do que quero, do que sinto, do que falo, do que quero manter distante de mim, agora sou tachada. Não sei mais o real conceito de humildade (e de fato a perdi em vários aspectos, mas em outros não). Não sei mais até que ponto tomei o caminho certo para mim, que não era bom para outras pessoas porque deixei de ser um saco de pancada, ou deixei de ser o pára-raio, ou deixei de ser a fonte inesgotável de esperança e alegria. A verdade é, que por mais que doa, pesa menos em mim todo o peso do mundo, tudo aquilo que não me deixava dormir, tudo aquilo que me fazia escrever sem parar, tudo aquilo que me incomodava e deprimia, tudo aquilo que literalmente me adoecia. Para conseguir a minha paz de espírito, eu precisei mudar. Para me tornar uma pessoa mais segura, eu precisei cortar os galhos bem baixos, deixando tudo nascer de novo, mesmo que agora me pareçam tortos e encruados. Sinto muito por quem se sentiu atingido, mas foi apenas uma questão de sobrevivência. 

01/01/2013

À Liberdade

Eu descobri que os livros não são bons ou ruins. Descobri que os livros nos encontram nas fases certas da vida, ou da consciência, ou não. Concordo que a trilogia de Cinquenta Tons de Cinza é um romance, ficção pura para diversão do público feminino, mas isso não explica por que o livro nos prende - e mais do que isso - nos engole. E decidi escrever exatamente pra refletir sobre como essa trilogia me engoliu com suas 1483 páginas em 7 dias, assim como outros livros já me intoxicaram em diferentes fases da vida. 

Ontem mesmo perguntei para minha mãe como cheguei a Hermann Hesse aos 16 anos. Sinceramente, não sei até que ponto esse é um livro para uma adolescente. Fato é que o "Lobo da Estepe" determinou profundamente várias de minhas ações naquela época, deixando de ser a boa garota para assumir as vontades que uivavam dentro de mim. Da pamonha de sempre à rebelde contida, fato é que me vi refletida no mesmo "sufocamento" do personagem do livro e viver uma vida infeliz, presa nas circunstâncias, tornou-se o meu maior medo. Parece surreal, mas afinal somos feito pára-raios na adolescência: abertos a influências, a seguir mentores, a ter ídolos do mundo pop, a criar mitos, a definir ideologias como filosofias de vida. Eu simplesmente saltei de Richard Bach, do pacífico "Fernão Capelo Gaivota" e "Ilusões" para o "Lobo da Estepe" e "Sidarta", buscando uma elevação, um estado superior de consciência de mim, do outro, do meu destino. E desde então, nunca mais deixei de ser teimosa, petulante, aventureira e passei a assumir os riscos da vida. 

Aos 20, ganhei o livro de um amigo do trabalho (hoje o jornalista Erick Araújo, que está em algum lugar por aí) chamado "Mulher solteira procura homem impotente para relacionamento sério", da autora Gaby Hauptmann. Naquela época, eu sofria com a pressão típica da minha idade: estudar, trabalhar, ser popular, ser atraente, ter uma vida sexual ativa, ter um namorado, me divertir, ser jovem. E eis que surge um livro falando de um passo depois, mas com as mesmas pressões machistas e paradigmáticas estabelecidas por um maldito não sei quem. Virei a noite lendo o livro, 303 páginas, para ficar feito um zumbi nas aulas da faculdade no dia seguinte, mas satisfeita por saber que eu não era a única que simplesmente não estava a fim de priorizar o sexo aos 20. Eu tinha muitos planos na frente e tinha muitas outras coisas pra aproveitar. Eu, que às vezes me sentia um ET em meio às amigas com seus namorados que tanto lhe tomavam o precioso tempo, percebi que estava vivendo uma vida plena da minha liberdade e que não precisava correr. Fato é que seguindo essa filosofia, acabei me tornando uma mulher mais bem resolvida do que muitas que conheço, apesar de só entender isso anos depois...

Mais uma vez através de um presente de minha mãe (não lembro se eu já tinha escolhido o livro ou se ela quem escolheu o título por sorte), aos 22 anos eu descobri Aldous Huxley, em "Admirável Mundo Novo", que não é a letra da música da Pitty. Eu tinha acabado de me formar e pensar no mundo ditado por regras alheias à minha vontade, numa sociedade manipulada, me incomodava - aliás, sempre incomodou desde aquele lobo que descobri aos 16 anos. Tudo que impedia de fazer o que eu planejava, o que eu sonhava, não me deixava apenas infeliz - mas furiosa. E talvez tenha sido importante pra correr atrás dos meus planos como "gente grande", da minha independência - da minha liberdade, melhor dizendo, até onde me fosse possível. Não queria retroceder, regredir, perder o que já tinha conquistado. Huxley não me deixou ser engessada por modelos antiquados, pelo comodismo. Eu aprendi a persistir. 

Li vários livros neste período, poderia citar como cada um mexeu com minhas ideias, mas vou me ater àqueles que estão ligados ao tema do post... Só pra constar os prediletos... "Outra Vez", o segundo diário de Che Guevara. "Em busca do sonho", de Heloísa Schürmann. "Deusa do Mar", de P.C. Cast. "Contato", de Carl Sagan... "Travessuras da menina má", de Mário Vargas Llosa. 

Aos 28, ganhei das minhas queridas amigas (Carla e Rafaela) o tão falado "Comer, Rezar e Amar" e fui devorada. Sem saber, as meninas tinham me jogado no olho do meu próprio furacão pessoal. Não que eu tivesse a sorte de chutar o balde por um ano e viajar pra 3 países diferentes, mas eu tinha acabado de passar por um divórcio difícil (sentimentalmente falando), assim como a personagem. O que ela sentia, era o que eu sentia - decepção, fracasso, medo. E também os momentos de redescoberta dos novos planos, reconstrução da vida, entendimento da crise, aceitação, compaixão e perdão. Os críticos falem o que quiser, mesmo sendo um livro (depois um filme) pra "mulherzinha". Eu estava mesmo numa fase "mulherzinha" e precisava recuperar o meu lobo... Quando eu digo que um livro te encontra, não duvide. Se não acontece com você, isso realmente me preocupa - pois comigo, acontece a todo momento. 

Aos 29, trombei com "O Segredo de Frida Kahlo", de Francisco Haghenbeck, uma biografia desta artista que aprendi a admirar como mulher. Toda sua história de amor à arte e a um homem peculiar, mesmo sofrendo com o egoísmo de Diego, talvez me tenham permitido a reflexão para amenizar as minhas mágoas em relação ao amor... E tenham permitido que eu me envolvesse novamente... A paixão é necessária em tudo que fazemos na vida... Acho que Frida pensava assim... Eu terminei de ler o livro a caminho de Santiago, no Chile, e estava a caminho da minha aventura na Ilha de Páscoa, outro marco na minha vida. Era hora de me permitir arriscar novamente, apesar de ter sido doloroso da última vez. Não sei até que ponto o livro é verdadeiro em todas as partes, mas sinto uma enorme vontade de conhecer os lugares onde Frida viveu, só pra ver se a energia daquela mulher perdura. Pois eu não duvido. E quem sabe eu agradeça por ela ter ajudado a amaciar o meu coração ressentido.

E agora, aos 30, dou de cara com o Sr. Grey, um cara transtornado que precisa ser domesticado. Mas que vale a pena porque é, a princípio, bonito, sedutor, sensual e rico. Apesar de toda a ostentação, o que faz o mulherio querer um Grey em casa não é sua riqueza, nem sua beleza - são seus gestos. É a disposição para o prazer, para conquistar continuamente, para seduzir a qualquer preço, com ou sem os fetiches. E claro, com amor, vira sonho de consumo de qualquer uma... Mas eu posso garantir que a história é boa e prende não é porque fala de sadismo, mas sim de carne, de vontade, de desejo - de coisas que a maioria das pessoas reprime por achar que é pecado saber mais do próprio corpo, entender mais de sexo ou ter fantasias sexuais. A trilogia rompe preconceitos machistas que várias gerações antes da minha foram obrigadas a engolir, a seco. É uma versão romanceada da liberação sexual feminina. Éramos sempre o lado tortuoso da equação - passionais, imprevisíveis, românticas. E acho que o rumo dos fatos acaba mostrando que nem mesmo o macho mais perfeito por fora, é sempre tão racional e binário por dentro... Enfim, o equilíbrio dos tempos modernos onde podemos nos permitir direitos iguais ao prazer e a tantas outras esferas da vida... Volto àquele meu bom e velho lobo, ronronando, com as patas pro ar, brincando... Não é disso que sempre falei? Não é dos vários tons da liberdade, baby? 


A propósito... Personificando Sr. e Sra. Grey, desde que comecei a ler o livro, me vieram à mente os dois atores abaixo, brasileiros. Danilo Sacramento e Priscila Moura Faria (Priscila Sol). Gostaria de saber como cada um imaginou o biotipo dos dois! Essa é a vantagem da leitura: cada um pode imaginar o que quiser! :)


 

19/12/2012

Nossa mala velha...

Hoje uma amiga dos velhos tempos me disse que estava saudosista e que ficou surpresa ao descobrir o meu blog. Bem típico de Dona Dani não saber que um blog existe há 3 anos e ainda por cima ficar emotiva ao ler alguns textos e se lembrar do meu jeito de contar "causos" como fazíamos nos bons tempos, sentadas na pracinha esperando o carro do velho príncipe encantado passar... A verdade é que somos feitos de histórias, estórias e casos pra lá de absurdos, que só a nossa memória será sempre capaz de reproduzir... E mesmo assim o tempo aos poucos nos garante a vantagem da distorção, tornando tudo mais heróico, ou reduzindo as dores, minimizando os medos daqueles tempos, ou talvez até deixando mais brilhantes os amores e aventuras. 

Somos um apanhado de situações que, a cada pessoa nova que entrar em nossas vidas, nunca conseguiremos repassar tudo que vivemos, por mais que todo dia a gente se dê ao trabalho de contar algo que já vivemos... E o pior: a gente nem se dá ao luxo de fazer isso pra se conhecer melhor... No máximo contamos sobre as férias do ano passado, das viagens que já fizemos (e bem por alto, talvez só aqueles pontos mais incômodos ou os mais malucos), ou falamos dos traumas já vividos quando alguém vive uma situação parecida... Afinal, tem horas que nem a gente tem paciência pra ficar revendo filme repetido, explicando tudo de novo pra várias pessoas, só pra que alguém talvez um dia entenda como chegamos aqui, desse jeito que agora a gente é. 

A questão é que só a gente sabe o que leva cada um de nós a ser do seu jeito. Cada um tem uma bagagem, cada um viveu uma vida totalmente sua. Não há ninguém sequer parecido com o próximo nem mesmo dentro da própria família ou casa. Mas o difícil é que nem todo mundo carrega nessa bagagem o respeito pela bagagem alheia... E aí fica complicado tolerar, tolerar-se, entender, respeitar, ceder. Se você não aprende nesse tempo todo que cada um tem seu limite, ou precisa de certo espaço, de repente invade o outro, magoa, se impõe e o pior: tenta mudar a essência do outro, ferindo o seu direito primordial. 

Daí me lembro de novo que quando era ainda pré-adolescente (e ainda restam uns 20% dentro de mim dessa figura pitoresca, mesmo que adormecida e pouco representada em meus escritos antes melancólicos e agora bem mais pragmáticos), eu carregava a bandeira da liberdade a todo preço. Tudo que contrariava esse direito me feria tão dolorosamente que eu mais parecia uma militante em tempos da ditadura do que muitos que lá estiveram. Tudo que definisse uma regra, um limite, um padrão (até estético), era uma afronta aos meus princípios... Saudade daquele ardor ideológico, mas nem tanto do sofrimento por me sentir incapaz diante dele, inerte, inútil ou inutilizada, a palavra me fugiu... 

E aqui estou eu, a adulta que ainda escreve pra ninguém, palavras ao vento, sem os velhos diários abandonados por uma questão tão prática que assusta: a invasão descoberta e a sinceridade finalmente entendida como fragilidade. O velho hábito de escrever que nunca se foi permanece como um desabafo, para nada, ou para simplesmente organizar as ideias, ou para que alguém um dia leia, ou se veja refletido... Não espero que ninguém tenha a mesma bagagem, mas que os meus rabiscos sejam de algum modo válidos. 



Coisas assim eu levo na minha bagagem... Você é quem diz o que leva na sua...

17/12/2012

O fim

Vamos falar da pauta em alta: o fim do mundo na próxima sexta. Os caras eram bons em astronomia e geometria, mas não venham me dizer que os maias eram os mais inteligentes... Senão, seríamos hoje mais maias do que espanhóis. A questão é que para muitos malucos por aí em poucos dias tudo vai virar pó, ou algo do tipo. Mas o fim do mundo vem sendo anunciado há tempos, desde que me entendo por gente. Quando era criança, me assustaram com as profecias de Nostradamus. Quando cresci, ouvi muitos falarem dos trechos do Apocalipse. E tantos outros agora dizem que os maias sabiam disso há mais de 500 anos e que num bloco de barro rabiscaram o rumo da nossa história. 

Mas o Alcorão, os eco-chatos, os suicidas também dizem que o mundo vai acabar um dia. E os mais pessimistas, dizem que em breve - muito breve. Tenho medo das tempestades solares - o que seria de nós sem energia elétrica? Colapso. Aí me lembro de "Ensaio sobre a Cegueira", com todo mundo meio insano, doido, desorientado ou virando zumbi no estilo "A Lenda". Então, que se for pra acabar, que acabe triunfante - que exploda, que inunde, que vire pó. Pra ninguém sofrer, pra ninguém se matar, pra ninguém chegar ao seu pior. 

Mas se o mundo não acabar (de novo), que o mínimo possível de pessoas se mate por achar que antes de meia-noite o céu acabará em chamas. Tenho compromissos pós fim do mundo, então se eu chegar atrasada, não é porque no meu fuso horário o mundo acabou antes, ok? E este é só um post desconexo, pra ficar na Matrix, caso o mundo acabe, e os ETs algum dia encontrem nossos registros sobre nossas vidas. Ou será que primeiro os Bilderbergs vão filtrar essa publicação idiota, ao estilo Mãe Diná? Tenha dó! Quem sabe do fim do mundo não vai te contar. 

13/11/2012

Ilusões do Ouro de Tolo

Sou facilmente percebida por métricas: quantas fotos tiradas, quantas fotos reveladas, quantos posts escritos, quantos posts públicos, quantos compromissos agendados, quantas festas presenciadas. O meu ser social representa a minha "efetividade" diante dos fatos: ou sou, ou não estou mesmo a fim de ser. Simplesmente quero estar ali, ou não quero sequer fazer parte... A questão é que 2012 pode não ser mesmo o fim do mundo, nem pros maias, nem pra mim, nem pra você, mas de alguma forma é uma mudança radical no meu jeito "sociável" de ser.

Nunca fui tão rabugenta, nunca fui tão azeda, nunca fui tão mau humorada, talvez nunca tenha sido tão séria e talvez tão fria e madura. Pra grande maioria, claro, isso é quase imperceptível. Mas pra quem tinha como padrão alguém tão presente, quase sempre disponível, tão constante, 2012 pode ter sido um choque. Um choque cultural, uma ruptura nas convenções que provavelmente mais me sugavam do que me davam espaço... Mas tudo tem seu outro lado: faz falta aquela leveza, faz falta ser mais amável. Afinal, a doçura e suposta amabilidade social têm suas vantagens. 

Só que o peso, o esgotamento, a falta de tempo pra me debruçar em cima dos meus próprios medos, encobertos durante tanto tempo (sim, já fui essa rabugenta em outra fase da vida... isso é cíclico), fizeram com que eu parasse de olhar pra minha vida real, pro meu mundo miúdo cheio de questões pra ponderar, pesar e resolver. Sim, a pessoa amável tem dúvidas, problemas e questões. Só porque aparento ser leve não quer dizer que não tenha dentro de mim um turbilhão pesado de maluquices... 

Quando notei, estava aqui, cheia de coisas pra rever, hábitos pra mudar, comportamentos pra repensar. E ainda são vários, congelados - muitos deles completamente fora das minhas reais possibilidades de seguir adiante. Sim, eu preciso me mexer, mudar, revisar meus conceitos. Retomar alguns dos quais andei me desapegando ao longo desses anos de pessoa "leve" - e, agora que vejo, talvez superficial. É hora de retomar as rédeas da vida real, com seu peso real, deixando de lado as manias absorvidas neste tempo maluco que só Cazuza daria conta... Fascinação pura, ilusão que entorpece. A vida consegue te fazer isso, é muito fácil se deixar levar. 

É hora de deixar o cavalo-marinho contar suas histórias por aí, em outras bandas... E que este ciclo de azedume me ajude mais uma vez a voltar aos eixos, com os pés no chão, ainda em tempo de consertar o que está errado, retomar do ponto onde parei e aprender com o que já vivi. Que as doces ilusões dessas primaveras entorpecentes fiquem como boas lembranças, mas que sirvam de lição para as próximas aventuras, um pouco mais "comedidas", mais amadurecidas, menos desvairadas. Pois nem tudo que reluz é ouro. 

11/10/2012

#PADI: Sofri, mas consegui!

Há 10 anos eu me aventuro pelas águas salgadas, cumprindo uma promessa feita para o meu diploma. Se eu não podia ser oceanógrafa, que me realizasse de outra forma, que buscasse minha felicidade em outros caminhos sem perder a ligação com aquele velho sonho. Já se vão 10 anos sempre revisitando o velho amigo, "Omar". Em 2002, meu primeiro mergulho, eu achava que respirar menos debaixo d´água era vantagem. Economizava ar sem saber o risco que corria, só pra ficar mais tempo na água. Mas meu padrinho de mergulho me disse que eu tinha me virado bem, e eu acreditei. De lá pra cá, eu tinha certeza absoluta que já tinha vencido os primeiros obstáculos na água, que o mar nem era tão mau humorado assim. E o histórico de mergulhos se deu na seguinte sequência: 

- 2002 - Morro de São Paulo - Bahia: peixe morcego, aranha do mar, a minha primeira vez.
- 2004 - Maragogi - Alagoas: sargentos, donzelas, peixes esverdeados, a água mais clara de todas e a noite sem dormir de tanta ansiedade (tive até asma).
- 2005 - Fernando de Noronha - Pernambuco: frades, mergulho em caverna, o sobrevôo no naufrágio, os cardumes no mergulho de reboque, o canto dos golfinhos na água, os ouriços brancos, a moréia de chifre.
- 2006 - Itacaré - Bahia: snorkel em Maraú, valendo a citação porque fiquei presa no coral...
- 2007 - Guarapari - Espírito Santo: a linda arraia-manta, muitos peixes diferentes.
- 2008 - Cancun - México: o tanque com os golfinhos e o snorkel em Xel-Ha com vários tipos de peixes.
- 2009 - Abrolhos - Bahia: as baleias jubarte e um mergulho frustrante, que foi facilmente superado pelo snorkel em volta da ilha com direito a perseguir uma tartaruga e ganhar uma cicatriz no punho.
- 2010 - Arraial D´Ajuda - Bahia: um mergulho com visibilidade ruim, um segundo mergulho excelente com lindas fotos e peixes coloridos (o frade cinza e amarelo, peixe porquinho, cirurgiões, budiões) e um snorkel surpreendente, com direito a um caramujo com uma estampa que merecia ser usada num vestido de verão.
- 2011 - Ilha de Páscoa - Chile: conheci Henry Garcia, da equipe de Cousteau, mas não pude mergulhar no ponto do moai naufragado porque não tinha certificação...
- 2011 - Arraial do Cabo - Rio de Janeiro: nas águas cariocas geladas, finalmente consegui ver cavalos-marinhos em seu ambiente natural - uma marrom e um branco, lindos, super pequenos...
- 2012 - Oranjestad - Aruba: o ponto de mergulho de Pos Chiquito levou o meu cavalo marinho que mergulhou por quase todos os pontos acima, mas finalmente consegui a minha certificação Open Dive Water. E é sobre esse episódio que se trata este post... 

Dia 1: O plano inicial era apenas mergulhar uma vez, conhecer o mar de Aruba "do lado debaixo" e marcar mais um ponto na ficha. Busquei informação numa cabana na praia de Palm Beach e me recomendaram a Sea Aruba, que já marcou meu mergulho pra sexta. Na data marcada, a ajudante me buscou, bastante simpática, nativa de Aruba e, como a maioria, falava desde holandês, até espanhol, inglês, papiamento e entendi o meu enrolation em português. Avisou que eu iria mergulhar com um polonês, que todos os instrutores só falavam inglês e assim fui, mais uma vez, com essa cara de pau que Deus me deu. Ele falava um inglês bem fácil de entender, era simpático e tudo correu muito bem, apesar do meu desespero nos exercícios com a máscara já na praia... Afinal, eu tinha que cumprir pelo menos 3 "skills" obrigatórios naquele mergulho... No tira e põe da máscara é que provavelmente fiquei sem meu brinco, no mar mesmo... Mas enfim... Sem o compromisso de ser avaliada, consegui executar os procedimentos e entramos pra água... Fora a minha respiração, que já ferrava com minha flutuabilidade, dentro d´água eu até me viro bem. E daí que achamos uma tartaruga, bem na dela, parada na areia. Cutuquei o polonês, que nem tinha visto a bendita, bati umas fotos até me aproximar bem, passei a câmera pra ele e não perdi a chance. Agarrei a tartaruga e saí nadando com ela, alguns bons segundos... Mansa, tranquila, completamente despreocupada. Vi moréias, bem de perto, um barquinho naufragado que rendeu fotos bem legais, mas nada se compara ao momento com aquela tartaruga, totalmente em paz e sem medo. Parada de 3 minutos em 5 metros por segurança e tudo deu certo, exceto pelo brinco, que só dei falta quando cheguei no hotel... Satisfeita com essa história toda, por ter conseguido me comunicar bem com o polonês gente boa e por não ter feito nenhuma burrada enorme, perguntei: afinal, quanto custa o curso aqui? E quantos dias eu precisaria? Respostas bem mais positivas e animadoras do que eu esperava, saí de lá com aulas agendadas e mais 3 dias da viagem totalmente comprometidos para a certificação. Já era hora. 

Dia 2: Tédio, puro tédio. Vídeos em inglês. Horas a fio numa sala, ou muito quente ou com ar condicionado (odeio!), ouvindo um DVD com termos técnicos que eu tinha que fixar bem os olhos pra adivinhar de qual parte da roupa de mergulho estavam falando, ou de qual lei da física estavam explicando... Tenso! Imersão total no inglês técnico de mergulho, que nunca usei e que graças às imagens do vídeo consegui digerir uns 75%... Entretanto, era informação para se absorver em semanas e eu estava consumindo tudo aquilo em um só dia... Em outra língua... Sem intervalos longos, sem almoço, sem nem sequer colocar o pé no mar azul maravilhoso lá fora. Um dia em Aruba foi totalmente perdido dentro de uma sala de aula. E pra cada um dos 5 módulos de aula, uma série de questões de um livro (em inglês, claro) com 200 e tantas páginas e mais um teste final em cada parte, incluindo questões discursivas. Pensem numa pessoa esgotada? No final da tarde, eu só pensava em desligar a cabeça, que tinha se esforçado em dobro naquele dia. Corri pro Mc Donalds no dia. Tinha que afogar meu cansaço em algo pelo menos mais próximo da minha realidade... Descobri que todo sanduíche lá tem picles. rssss Aff! 

Dia 3: Ela, a professora, holandesa. Nada do polonês bonzinho. Inglês com sotaque puxado pro britânico e já me dando atividades que exigem coordenação motora. Quem me conhece, sabe bem... Se tem uma coisa que não sou boa, é lidar com coisas manuais... rsss Enfim, começou me dando uma sequência de ordens em verbos e conjunções em inglês que eu não entendia, e eu tentava arrancar dela as ações pra que eu pudesse ao menos repetir e assim conseguir me virar. Não foi fácil e foi assim o dia todo. Saudade da aula teórica... Na água, vários exercícios em que ela fazia e eu devia repetir. A questão é que ela me explicava tudo fora d´água e meu receio era: se eu não tiver entendido direito, lá embaixo já era. Eis o problema de se fazer um curso desses em inglês... Onde eu estava com a cabeça? Mas a questão era: onde estava o polonês bonzinho e paciente? rsss Ela era rigorosa, exigente e bem menos paciente, fato. Os holandeses são assim? Tomei muita água lá embaixo, fazendo exercício de limpar a máscara com água dentro, de tirar a máscara debaixo d´água e colocar de volta, limpando até a água toda sair... A garganta já estava queimada de tanto sal, de tanto trocar de regulador, de tanto inflar a jaqueta com a boca, etc. Os exercícios de flutuabilidade nem eram os mais vexamosos, pior era conseguir ficar na vertical sem parecer um balão dentro d´água (e olha que eu tinha mais lastro com vários pesos do que o normal). Ana, you are a balloon! Que ódio! Chamar uma mulher de balão não é justo! rssss E ela me torturou até o último segundo. Depois da aula prática, morta de fome, hora de corrigir os exercícios teóricos. Fiz de 80 a 100% nos testes fechados e os demais nós discutimos. Aí ela descobriu que eu não sabia nada da tabela de cálculo de espaço de tempo entre mergulhos, resíduo de nitrogênio, etc. Claro, isso não estava nos vídeos! Ora, mas tinha um livro na pastinha... É, eu não li. Estava esperando alguém me explicar. Só que aí a paciência dela já era -1. Eu me senti a topeira do século, porque ela definitivamente não conseguia me explicar... Resultado: falei que eu ia estudar em casa e que na prova final eu iria conseguir. Quando pedi pra me deixar em Eagle Beach perto das Divi Divis, ao invés de me deixar no hotel, ela conseguiu me deixar no ponto errado da praia, e tive que tomar um ônibus pro ponto certo. Sacana é apelido. Mas tudo bem, eu não ia desistir. 

Dia 4: Programação do dia: saída de barco (risco de enjoar), dois mergulhos práticos de avaliação (não sabia quais seriam os exercícios, mas o lance de tirar a máscara é sempre obrigatório) e prova teórica depois. Pra começar, atrasaram pra me buscar no hotel. Quando cheguei no barco, estavam todos me olhando como se eu fosse a "palerma" do ano. Que beleza! Eu era a única sem certificação, só tinha tiozão ninja, megaequipado... Um divemaster iria descer também comigo e minha avaliadora holandesa mau humorada (que às vezes fazia uma piadinha pra tentar amenizar minha cara de velório) para ajudar no procedimento. Ele seria meu companheiro de mergulho, uma regra da certificação - jamais mergulhar sozinho e sempre "olhar pelo outro". O primeiro mergulho sempre é o mais profundo e claro, nada de levar máquina fotográfica... Nem a bruaca podia levar pra me fotografar? Não, segundo ela, tinha que nos observar, e não pode fazer isso em processo de certificação. Ah, mas o polonês faria! Ela avisou quais seriam os exercícios de avaliação: máscara, flutuabilidade, inflar a jaqueta com a boca, trocar o regulador pelo alternativo com o companheiro e fazer o procedimento de ficar com o tanque sem ar, fechado. Pânico total, isso a 18 ou 20 metros. Pra começar o divemaster já caiu na água vomitando... E eu lá, de boa... Tensa!!!! Tomei água na máscara, esqueci de apertar o BCD  pra inflar a jaqueta, mas até que tudo saiu do jeito que tinha que ser... Mas minha respiração, ah, ela é uma merda! Como eu preciso das minhas aulas de yoga!!! Exhaile, Ana, exhaile!!!! 4 segundos inspirando e uns 10 expirando, se possível, para não parecer um balão dentro d´água e descer, sem problemas! Demorou, mas entendi... Mas quando batia o cansaço, eu só queria respirar normal, e dava mesmo era vontade de subir pra superfície... Aí a máscara começou a embaçar e quando percebi, eu mesma já estava deixando a água entrar na máscara pra dar uma limpada na visão, logo eu, que odiava limpar a máscara!!! Quando notei, estava ao lado de um maravilhoso naufrágio de um navio, enorme, cheio de corais e muita vida, mas que nem curti tanto porque estava mesmo era exausta e prestando atenção na avaliadora pra saber o que tínhamos que fazer em seguida. A verdade é que estive lá só pra ser avaliada, mas meu coração ficou em casa! E o pior: não tenho fotos pra dar uma mãozinha na memória de uma pessoa em momento de estresse... Subimos (nem vou comentar a luta pra subir no barco), um tempo no barco e segundo mergulho... O polonês perguntou por que eu não estava rindo... E eu disse o nome da avaliadora, indicando que ela era a causa do problema... Ele disse que me entendia. O segundo mergulho foi literalmente pra cumprir tabela. Foi num ponto onde eu já tinha feito snorkel no dia anterior, era mais raso e não tinha aquele navio lindo. Novamente o exercício da máscara e dessa vez eu nem sofri tanto. Fui muito bem no exercício da navegação pelo aparelho (relógio de pulso com pólo magnético e a "Lummer Line" para ir e voltar no mesmo sentido mesmo sem visibilidade), acertando milagrosamente de primeira - logo eu, que sou a mais sem rumo, como todo mundo sabe - afinal, nem carteira de motorista tenho... Fiz um exercício patético de flutuabilidade na posição de Buda - não ficava reta nem a porrete... Era cômico... E acho que a venci pelo cansaço... E depois ficamos nadando em vão... E foi quando bateu o cansaço mesmo... Bem no finalzinho, quase chutei o balde... Estava sem ar, sem paciência, perdendo a flutuabilidade, nervosa, e não tinha como gritar. Essa é a única desvantagem do mar: você não pode gritar, ninguém pode te ouvir. E naquele instante a única coisa que consegui fazer foi rezar um "Pai Nosso", desesperadamente. Até que eu conseguisse recobrar a consciência do esforço que já tinha feito até ali... Consegui finalmente recuperar o ritmo da respiração, aos trancos e barrancos, e fizemos mais um exercício de nado com uso do regulador de emergência do companheiro de mergulho, até o ponto de parada de segurança, onde milagrosamente conseguimos ficar parados com a flutuabilidade certa... De volta pro barco, morta, quase não consegui subir no barco. Estava exausta. Não tinha forças e definitivamente cheguei à conclusão de que não tenho mesmo musculatura alguma pra essa parte pesada do serviço. Se ouvi parabéns, claro que não, só o divemaster puxou papo comigo, falou que meu inglês era bom, eu nem queria mesmo conversar... Ainda faltava a prova teórica com 50 questões... incluindo aquelas malditas questões sobre a tabela... E lá fui eu... A avaliadora me entregou um tipo de apostila e mandou eu fazer o Exame A. Não vi que tinha diferença entre Exame A e Exame Final A, mas em inglês tinha... rsss... Resultado: fiz umas 10 questões a mais e óbvio, rasurei o gabarito. A avaliadora logo disse: se quer passar, tem que fazer pelo menos a prova certa. Nada sutil, nada gente boa. Mas ao menos se despediu e foi embora, me deixando em paz pra fazer a prova sozinha. Demorei, fiz a prova toda, aprontei a maior confusão nas questões da tabela quando vi que estava em metros e não em pés. Eu tinha aprendido a tabela imperial, em pés, e de repente a prova era em metros? Saí convertendo tudo, desesperada, e nenhuma resposta batia... Chamei o meu amigo Jack, o senhor que ajudava na operadora, e pedi ajuda... Ele descobriu que mais a frente estavam as questões em pés e daí que lá fui eu recalcular tudo de novo... Bom, pelo menos eu descobri que sabia mesmo fazer as contas e usar a tabela... Só não sei é converter metros em pés, pelo visto. Fim da prova, chamei o outro professor pra corrigir, tudo na lata, na hora... Detalhe: marido dela. E ele foi corrigindo... E de repente começou a marcar um monte de erros. Eu falei: opa, não está olhando o gabarito errado? Ele voltou e conferiu, e estava mesmo... Saiu corrigindo tudo de novo e fiz 86% da prova. Ufa! Acabou o sofrimento assim, com novela até o fim! 

Esse post é um recado pra quem ainda não tomou coragem de se certificar... Eu resolvi fazer tudo do jeito mais difícil, mas não precisa ser assim pra todo mundo: ninguém precisa fazer os exercícios logo de cara na correnteza do mar, nem aturar uma Diana da vida, nem ficar frustrado por não poder fotografar um mergulho bonito... Ninguém precisa ficar angustiado por não ter certeza se entendeu o procedimento direito por estar fazendo o curso numa outra língua! As operadoras de mergulho espalhadas pelo Brasil já têm o material traduzido há anos e ninguém precisa ficar sofrendo 3 dias pra entender uma loira mau humorada pra conseguir o mesmo que eu consegui. Eu só paguei o meu pecado por demorar tanto a me certificar naquilo que eu já devia estar escolada faz tempo. Mergulhar com segurança, conhecendo mais sobre os procedimentos e entendendo como tudo funciona, além de melhorar a respiração, ajuda bastante! A minha lição principal foi: respiração, Ana, respiração! 

Obs: Talvez eu precise de uma nova aula pra saber os nomes reais das coisas, porque decorei em inglês mas não arrumei ainda um tradutor pra tudo... rsss Qualquer erro no inglês nas poucas palavras escritas acima, favor desconsiderar, já tá ótimo! :)




Cara de feliz no primeiro dia... Nos outros dias, "no photos, Ana"! 

24/07/2012

Você Nunca É

Você nunca é bom o suficiente. Por uma razão simples: você nunca é o que o outro projeta. E o pior: por mais que você se esforce, nunca será perfeito. Nunca será a pessoa ideal, o filho ideal, o namorado ideal, o empregado ideal, o chefe ideal, o professor ideal, o amigo ideal, o irmão ideal, o pai ideal, o escambau do ideal. Nada que você faça, por mais que faça todo santo dia, por mais que você se esforce pra ser o seu melhor, jamais será o suficiente pra ele, pra ela, pra qualquer um. Talvez só sejamos bons ou quase tão "bons demais", para nossos concorrentes, ou nossos inimigos, ou nossos malfeitores. E talvez seja o inimigo o único que possa nos ensinar a prática da virtude da compaixão e da tolerância, como disse o Dalai Lama. Eis uma intrigante contradição. 

A questão é que você sempre está fazendo mais do que deveria quando pensa no quanto ganha todo mês (no seu ponto de vista), mas deveria ser mais pró-ativo, inovar e provocar mudanças com resultados (no ponto de vista do seu líder), enquanto poderia estar trabalhando em outro lugar que te pagaria melhor (no ponto de vista do mercado).  Enquanto você acredita que realmente está fazendo a diferença, é reduzido ao pó. Enquanto você salta troncos de árvores, dizem que você tropeça em palitos. Ou que você sempre parece ser sempre o filho ingrato porque não diz obrigado todo dia (no ponto de vista dos pais), enquanto se esforça pra ser independente, ser um bom profissional, não levar problemas pra casa e só dar notícias boas (no seu ponto de vista, isso é sucesso, a melhor recompensa pelo investimento), mas para outros você é o filho relapso, grosseiro, sem paciência, desligado e que não divide com a família suas questões (no ponto de vista dos apegados).

Talvez você seja o mais ausente dos amigos porque não pode estar presente nos eventos nos horários que são mais convenientes para todos, mas não são mais tão fáceis pra você, e automaticamente seja excluído de tudo porque amizade só faz sentido se for presencial mesmo no mundo virtual de hoje (para os mais antigos), mas a questão é que você continua tentando dizer que está ali, pronta pra ajudar quando for realmente necessário e que nem por isso quer deixar de ser participado das boas notícias ou dos problemas para poder ajudar (no seu ponto de vista de quem não é onipotente e muito menos onipresente). E ainda por cima você não pode ser a namorada perfeita da televisão, pois você não gosta mesmo de academia, tem opiniões diferentes, não nasceu pra ser Amélia, tem outras prioridades para administrar ao longo do dia e equilibrar com uma vida emocional saudável sempre que possível (no seu ponto de vista), mas claro, você pode ser egoísta, egocêntrica, radical, teimosa, fria e quase ausente quando nem tudo gira ao redor do ente amado (no ponto de vista dele, acostumado a esperar a mulher perfeita que não existe). 

Se você quer que os outros sejam transparentes e honestos, quer que tomem uma atitude e assumam uma posição, você é o rebelde e indisciplinado. Você é o líder do motim enquanto os outros, residentes do país "em cima do muro" preferem não levar o problema à tona. Ora, quem não leva problema, mas não leva solução, pelo menos sai no zero a zero! Mas claro, se você prefere discutir, resolver, você não é bom o suficiente, pois demonstra que todos somos frágeis e pecamos nos mesmos pontos: sejamos filhos ou pais, empregados ou patrões, donos ou locatários, em qualquer uma das posições. Você nunca é, baby, nunca é...

Ou você é o cachorro perfeito ou não é. Ou você é o artista perfeito ou não é. Ou você é o cientista perfeito ou não é. Isso não existe. Mas... Se você ajuda muito, está com tempo sobrando. Se você sabe demais, é um risco. Se você pergunta demais, incomoda. Ou você é do jeito que o outro quer ou não é. Mas só é perfeito pra quem está na disputa, nunca para quem te observa ou para quem deveria se colocar no seu lugar. Retornamos ao ponto mencionado pelo Dalai Lama: a compaixão. A gente espera do outro a perfeição, mas não queremos que esperem de nós que o sejamos. A gente nunca é, simples assim. É assim todo dia, pra qualquer um, sentado em cima do próprio rabo.