24/04/2013

Ser sem Ressentir

Não abrir mão de quem você é. A regra mais básica para garantir que seu amor ao próximo não será construído com ressentimentos. A partir do momento em que você cede mais do que lhe cabe, você se perde, e um dia vai cobrar isso de volta. E se deu por decisão própria, é injusto que comecei a cobrar. Então não ceda se não é capaz de fazer isso sem se ressentir, sem criar expectativa que as outras pessoas passem a agir como você espera e como você age. Você se perde e deixa de ser a pessoa que levou anos pra construir, anos pra entender, anos pra se impor. 

Não é justo que você se ponha em risco a sua felicidade tentando suprir os desejos do outro que conflitam com quem você é. Se existe incompatibilidade, que exista negociação - e não apenas concessão. Quando você perceber, depois de tanto ceder pra não discutir, não brigar, não querer encarar o sofrimento e as diferenças, terá se transformado numa outra pessoa que não se reconhece, sem estrutura, sem base, sem felicidade real. E daí a cobrança pelo que o outro deveria estar fazendo no mesmo sentido, o esforço que as outras pessoas também deveriam ter feito, será duramente cobrado com juros, mas não serão pagos. Pior: sua cobrança será julgada, pois você não terá mais a força inicial para se defender. 

Ao se perder, corre-se ainda o risco de se perder também o amor e respeito daqueles que te amaram ou admiraram pelo que você já foi um dia, pois a essência não é mais a mesma. Qual o preço por abrir mão da pessoa que você levou tanto tempo para ser? E quanto tempo será necessário para recuperar a essência perdida, endurecida, ressecada e ofuscada pelo peso da mudança imposta? A culpa não está sempre no próximo, porém. A escolha muitas vezes é da própria pessoa, é nossa, tentando ser melhor, mas nem sempre percebendo que ser outra pessoa não significa ser melhor. 

02/04/2013

Sua Versão da História

Saber contar a própria história sem deixar que a narrativa te transforme em um mero aglomerado de fatos, vazios de experiência e motivação. Eis um grande desafio a todos aqueles que tentam se explicar, narrando suas vidas como se uma biografia autorizada fosse o melhor mecanismo de entender a si próprio. Pensando sobre isso, entendi por que "As Aventuras de Pi", além de falar sobre fé, me deixou tão emocionada, assim como eu já havia sentido antes com "Peixe Grande e suas Histórias Maravilhosas". O que eles têm em comum? A capacidade de transformar a vida em "sentido", propriamente dito, provida daquilo que efetivamente chamamos de "experiência". 

As duas histórias nos levam à reflexão de como nos perdemos diariamente nas "pequenices" da vida, ao invés de nos deixarmos levar pela magia do "todo", do que conquistamos ao longo do tempo, do quanto mudamos ao longo dos anos, da pessoa em que nos transformamos à medida em que acumulamos cada vivência peculiar, por mais simplória que nos pareça. E daí, como seres únicos, inigualáveis, nos perdemos como se fôssemos qualquer um, robotizados, deixando de pensar na nossa própria versão da história... Esquecemos que está em nossas mãos mostrar a nossa história com o que ela tem de melhor: a nossa versão. 

E para criar a nossa versão, precisamos também aprender a interpretar a nossa vida com olhos diferentes. Precisamos ter compaixão por nós mesmos, entender as fraquezas entranhadas e os erros que cometemos. Precisamos aceitar o passado imutável e os riscos do futuro, compreendendo que a vida não está sob nosso controle todo o tempo. E alimentando a compaixão, um sentimento que budistas e outras religiões entendem plenamente como aceitável e benéfico, você pode se perdoar por não ser perfeito, e interpretar a sua história como uma aventura, que exigiu coragem e esforço. Você passa a ser Pi, num barco, lutando contra o tigre, mesmo que ele seja apenas um reflexo de você mesmo, ou um motivo para te manter vivo. E você pode ser uma lenda vida, que ajudou várias pessoas ao longo da vida sem notar, mas só se gabar por ser também o misterioso peixe grande. Você pode não ser uma lenda mundial, não ser um super-herói do cinema, mas pode sentir orgulho do que conquistou e das lutas que venceu. 

A questão é: faz mais sentido para toda a humanidade aprender sobre a fé através das palavras da Bíblia, do Alcorão, ou de qualquer livro sagrado que seja, ou simplesmente ouvir uma narrativa científica explicando um milagre sobre a cura de alguém pelas orações daqueles que acreditam? A verdade é que para crer, as pessoas precisam da vida transformada em "sentido", da "experiência" transformada em sentimento. E daí percebi que Ed Bloom, o peixe grande, é como minha mãe: um mito, às vezes o anti-herói, que sempre me sacoleja mostrando que a gente precisa ver a vida de outro ângulo... e às vezes vivendo num mundo paralelo que tanto critico - mas será que é tão ruim assim? E mais: percebi que sou Pi, dentro daquele barco, brigando com um lado meu para entender os meus conceitos de fé - no divino e nas pessoas. Se essas histórias fossem narradas de outra forma, talvez eu não conseguisse entender tudo isso. 

24/02/2013

Tratado sobre a Arrogância

Nos últimos 4 anos eu mudei consideravelmente. Para alguns, sou mais petulante, para outros, mais calada, para outros ainda mais próximos, me tornei uma pessoa arrogante. Enquanto eu pensava simplesmente estar mais madura, consciente dos meus atos, distanciada dos problemas alheios que não me pertencem e sofrendo menos por aquilo que não me cabe resolver. Eu "endureci", coisa que aquela frase do Che Guevara me proibiria de fazer. Mas a verdade é que não foi por mal, mas sim pelo rumo que a vida tomou. 

Não quis me tornar uma pessoa mais fechada por simples opção, nem mais carrancuda por uma questão de acordar com um péssimo humor. As circunstâncias me pediram uma posição diferente diante da vida, das pessoas e dos fatos, e fui empurrada pra essa pessoa que agora eu sou, não sei se melhor, porém a que agora eu sei ser. Faz falta ser leve, mas não dá pra simplesmente voltar a velha fita cassete e desembolar o nó. Não sei até que ponto dá pra ser tudo tão "simples" de novo. 

A verdade é que também parei de esperar das pessoas mais do que elas podem dar, e talvez isso tenha me transformado numa pessoa menos "iluminada", como alguns diziam antes. Eu tinha mais fé no que estava por vir, tinha mais fé nas pessoas. E agora eu simplesmente sei que as pessoas falham, simplesmente sei que todos somos tortos de nascença. Não quero mais decepcionar, nem ser decepcionada, sem criar expectativas sobre coisas impossíveis, sem projetar sonhos que não dependam do simples momento do "agora". Não quero achar que daqui há uma semana a cura de todos os males estará na próxima esquina, quero simplesmente tomar o remédio de hoje à noite. 

E por essa visão simplista, que aos olhos de alguns parece triste e negativista, eu aprendi a ser mais leve, a me cobrar menos, a sentir menos o peso do mundo. Parei de carregar nas minhas costas as responsabilidades que não me cabiam, as mágoas que não me pertenciam, aprendendo a cultivar o desapego também pelo passado e pelo futuro. E por isso talvez eu agora tenha esse ar de arrogância, por simplesmente não querer mais me expor ao sofrimento. Não me tornei dura o suficiente, muita coisa ainda dói - só faço o que faço para não sofrer mais adiante. 

"O lado bom da vida", como diria o filme, não é ter esperança, não é criar falsas expectativas sobre o dia de amanhã. É simplesmente enxergar o que é bom agora, e cuidar disso da melhor forma possível. Tenho me esforçado para não sofrer pelo dia de amanhã, e como é difícil! Como é difícil não projetar no outro a sua própria vontade, o que você mesmo queria fazer e não consegue! Maldita inércia. Só que culpar o outro também não adianta, então prefiro cuidar do meu quadrado, fechar a boca, ouvir mais, e aí estou eu de novo: a arrogância em pessoa, porque agora eu não sou mais a velha matraca falante, não saio querendo animar a todos como antigamente, não tenho mais uma palavra amiga a todo instante como se meu repertório tivesse se esvaziado. Não é por mal, aconteceu. 

A gente simplesmente se transforma. Dizem que aos 30 nosso signo muda para o signo lunar. Ou algo assim. O meu signo anterior (virgem), combinado com o ascendente (peixes), era conhecido pela doação incondicional. Meu signo lunar é escorpião (independente, egocêntrico, materialista)... E se o nosso HD, pra não vir zerado, for realmente configurado no modo padrão com essas coisas de signo? E ao longo da vida a gente for se transformando, como a gente faz com um computador, instalando novos programas, mas no fundo, está lá o mesmo Windows, dando pau? Quem é que disse que não vou ficar ainda mais cabeça dura neste meu ciclo dos 30? Já fui feita no programa difícil - esse tal do virginiano sofre. Mas não podia ter nascido no "tabuleiro" que gera gente mais fácil, mais dócil, mais leve? Não tem boot de sistema que resolva, meu bem. 

O meu medo é esse: estar ou ser estigmatizada de agora em diante pelo meu novo gênio. Por estar mais consciente do que quero, do que sinto, do que falo, do que quero manter distante de mim, agora sou tachada. Não sei mais o real conceito de humildade (e de fato a perdi em vários aspectos, mas em outros não). Não sei mais até que ponto tomei o caminho certo para mim, que não era bom para outras pessoas porque deixei de ser um saco de pancada, ou deixei de ser o pára-raio, ou deixei de ser a fonte inesgotável de esperança e alegria. A verdade é, que por mais que doa, pesa menos em mim todo o peso do mundo, tudo aquilo que não me deixava dormir, tudo aquilo que me fazia escrever sem parar, tudo aquilo que me incomodava e deprimia, tudo aquilo que literalmente me adoecia. Para conseguir a minha paz de espírito, eu precisei mudar. Para me tornar uma pessoa mais segura, eu precisei cortar os galhos bem baixos, deixando tudo nascer de novo, mesmo que agora me pareçam tortos e encruados. Sinto muito por quem se sentiu atingido, mas foi apenas uma questão de sobrevivência. 

01/01/2013

À Liberdade

Eu descobri que os livros não são bons ou ruins. Descobri que os livros nos encontram nas fases certas da vida, ou da consciência, ou não. Concordo que a trilogia de Cinquenta Tons de Cinza é um romance, ficção pura para diversão do público feminino, mas isso não explica por que o livro nos prende - e mais do que isso - nos engole. E decidi escrever exatamente pra refletir sobre como essa trilogia me engoliu com suas 1483 páginas em 7 dias, assim como outros livros já me intoxicaram em diferentes fases da vida. 

Ontem mesmo perguntei para minha mãe como cheguei a Hermann Hesse aos 16 anos. Sinceramente, não sei até que ponto esse é um livro para uma adolescente. Fato é que o "Lobo da Estepe" determinou profundamente várias de minhas ações naquela época, deixando de ser a boa garota para assumir as vontades que uivavam dentro de mim. Da pamonha de sempre à rebelde contida, fato é que me vi refletida no mesmo "sufocamento" do personagem do livro e viver uma vida infeliz, presa nas circunstâncias, tornou-se o meu maior medo. Parece surreal, mas afinal somos feito pára-raios na adolescência: abertos a influências, a seguir mentores, a ter ídolos do mundo pop, a criar mitos, a definir ideologias como filosofias de vida. Eu simplesmente saltei de Richard Bach, do pacífico "Fernão Capelo Gaivota" e "Ilusões" para o "Lobo da Estepe" e "Sidarta", buscando uma elevação, um estado superior de consciência de mim, do outro, do meu destino. E desde então, nunca mais deixei de ser teimosa, petulante, aventureira e passei a assumir os riscos da vida. 

Aos 20, ganhei o livro de um amigo do trabalho (hoje o jornalista Erick Araújo, que está em algum lugar por aí) chamado "Mulher solteira procura homem impotente para relacionamento sério", da autora Gaby Hauptmann. Naquela época, eu sofria com a pressão típica da minha idade: estudar, trabalhar, ser popular, ser atraente, ter uma vida sexual ativa, ter um namorado, me divertir, ser jovem. E eis que surge um livro falando de um passo depois, mas com as mesmas pressões machistas e paradigmáticas estabelecidas por um maldito não sei quem. Virei a noite lendo o livro, 303 páginas, para ficar feito um zumbi nas aulas da faculdade no dia seguinte, mas satisfeita por saber que eu não era a única que simplesmente não estava a fim de priorizar o sexo aos 20. Eu tinha muitos planos na frente e tinha muitas outras coisas pra aproveitar. Eu, que às vezes me sentia um ET em meio às amigas com seus namorados que tanto lhe tomavam o precioso tempo, percebi que estava vivendo uma vida plena da minha liberdade e que não precisava correr. Fato é que seguindo essa filosofia, acabei me tornando uma mulher mais bem resolvida do que muitas que conheço, apesar de só entender isso anos depois...

Mais uma vez através de um presente de minha mãe (não lembro se eu já tinha escolhido o livro ou se ela quem escolheu o título por sorte), aos 22 anos eu descobri Aldous Huxley, em "Admirável Mundo Novo", que não é a letra da música da Pitty. Eu tinha acabado de me formar e pensar no mundo ditado por regras alheias à minha vontade, numa sociedade manipulada, me incomodava - aliás, sempre incomodou desde aquele lobo que descobri aos 16 anos. Tudo que impedia de fazer o que eu planejava, o que eu sonhava, não me deixava apenas infeliz - mas furiosa. E talvez tenha sido importante pra correr atrás dos meus planos como "gente grande", da minha independência - da minha liberdade, melhor dizendo, até onde me fosse possível. Não queria retroceder, regredir, perder o que já tinha conquistado. Huxley não me deixou ser engessada por modelos antiquados, pelo comodismo. Eu aprendi a persistir. 

Li vários livros neste período, poderia citar como cada um mexeu com minhas ideias, mas vou me ater àqueles que estão ligados ao tema do post... Só pra constar os prediletos... "Outra Vez", o segundo diário de Che Guevara. "Em busca do sonho", de Heloísa Schürmann. "Deusa do Mar", de P.C. Cast. "Contato", de Carl Sagan... "Travessuras da menina má", de Mário Vargas Llosa. 

Aos 28, ganhei das minhas queridas amigas (Carla e Rafaela) o tão falado "Comer, Rezar e Amar" e fui devorada. Sem saber, as meninas tinham me jogado no olho do meu próprio furacão pessoal. Não que eu tivesse a sorte de chutar o balde por um ano e viajar pra 3 países diferentes, mas eu tinha acabado de passar por um divórcio difícil (sentimentalmente falando), assim como a personagem. O que ela sentia, era o que eu sentia - decepção, fracasso, medo. E também os momentos de redescoberta dos novos planos, reconstrução da vida, entendimento da crise, aceitação, compaixão e perdão. Os críticos falem o que quiser, mesmo sendo um livro (depois um filme) pra "mulherzinha". Eu estava mesmo numa fase "mulherzinha" e precisava recuperar o meu lobo... Quando eu digo que um livro te encontra, não duvide. Se não acontece com você, isso realmente me preocupa - pois comigo, acontece a todo momento. 

Aos 29, trombei com "O Segredo de Frida Kahlo", de Francisco Haghenbeck, uma biografia desta artista que aprendi a admirar como mulher. Toda sua história de amor à arte e a um homem peculiar, mesmo sofrendo com o egoísmo de Diego, talvez me tenham permitido a reflexão para amenizar as minhas mágoas em relação ao amor... E tenham permitido que eu me envolvesse novamente... A paixão é necessária em tudo que fazemos na vida... Acho que Frida pensava assim... Eu terminei de ler o livro a caminho de Santiago, no Chile, e estava a caminho da minha aventura na Ilha de Páscoa, outro marco na minha vida. Era hora de me permitir arriscar novamente, apesar de ter sido doloroso da última vez. Não sei até que ponto o livro é verdadeiro em todas as partes, mas sinto uma enorme vontade de conhecer os lugares onde Frida viveu, só pra ver se a energia daquela mulher perdura. Pois eu não duvido. E quem sabe eu agradeça por ela ter ajudado a amaciar o meu coração ressentido.

E agora, aos 30, dou de cara com o Sr. Grey, um cara transtornado que precisa ser domesticado. Mas que vale a pena porque é, a princípio, bonito, sedutor, sensual e rico. Apesar de toda a ostentação, o que faz o mulherio querer um Grey em casa não é sua riqueza, nem sua beleza - são seus gestos. É a disposição para o prazer, para conquistar continuamente, para seduzir a qualquer preço, com ou sem os fetiches. E claro, com amor, vira sonho de consumo de qualquer uma... Mas eu posso garantir que a história é boa e prende não é porque fala de sadismo, mas sim de carne, de vontade, de desejo - de coisas que a maioria das pessoas reprime por achar que é pecado saber mais do próprio corpo, entender mais de sexo ou ter fantasias sexuais. A trilogia rompe preconceitos machistas que várias gerações antes da minha foram obrigadas a engolir, a seco. É uma versão romanceada da liberação sexual feminina. Éramos sempre o lado tortuoso da equação - passionais, imprevisíveis, românticas. E acho que o rumo dos fatos acaba mostrando que nem mesmo o macho mais perfeito por fora, é sempre tão racional e binário por dentro... Enfim, o equilíbrio dos tempos modernos onde podemos nos permitir direitos iguais ao prazer e a tantas outras esferas da vida... Volto àquele meu bom e velho lobo, ronronando, com as patas pro ar, brincando... Não é disso que sempre falei? Não é dos vários tons da liberdade, baby? 


A propósito... Personificando Sr. e Sra. Grey, desde que comecei a ler o livro, me vieram à mente os dois atores abaixo, brasileiros. Danilo Sacramento e Priscila Moura Faria (Priscila Sol). Gostaria de saber como cada um imaginou o biotipo dos dois! Essa é a vantagem da leitura: cada um pode imaginar o que quiser! :)


 

19/12/2012

Nossa mala velha...

Hoje uma amiga dos velhos tempos me disse que estava saudosista e que ficou surpresa ao descobrir o meu blog. Bem típico de Dona Dani não saber que um blog existe há 3 anos e ainda por cima ficar emotiva ao ler alguns textos e se lembrar do meu jeito de contar "causos" como fazíamos nos bons tempos, sentadas na pracinha esperando o carro do velho príncipe encantado passar... A verdade é que somos feitos de histórias, estórias e casos pra lá de absurdos, que só a nossa memória será sempre capaz de reproduzir... E mesmo assim o tempo aos poucos nos garante a vantagem da distorção, tornando tudo mais heróico, ou reduzindo as dores, minimizando os medos daqueles tempos, ou talvez até deixando mais brilhantes os amores e aventuras. 

Somos um apanhado de situações que, a cada pessoa nova que entrar em nossas vidas, nunca conseguiremos repassar tudo que vivemos, por mais que todo dia a gente se dê ao trabalho de contar algo que já vivemos... E o pior: a gente nem se dá ao luxo de fazer isso pra se conhecer melhor... No máximo contamos sobre as férias do ano passado, das viagens que já fizemos (e bem por alto, talvez só aqueles pontos mais incômodos ou os mais malucos), ou falamos dos traumas já vividos quando alguém vive uma situação parecida... Afinal, tem horas que nem a gente tem paciência pra ficar revendo filme repetido, explicando tudo de novo pra várias pessoas, só pra que alguém talvez um dia entenda como chegamos aqui, desse jeito que agora a gente é. 

A questão é que só a gente sabe o que leva cada um de nós a ser do seu jeito. Cada um tem uma bagagem, cada um viveu uma vida totalmente sua. Não há ninguém sequer parecido com o próximo nem mesmo dentro da própria família ou casa. Mas o difícil é que nem todo mundo carrega nessa bagagem o respeito pela bagagem alheia... E aí fica complicado tolerar, tolerar-se, entender, respeitar, ceder. Se você não aprende nesse tempo todo que cada um tem seu limite, ou precisa de certo espaço, de repente invade o outro, magoa, se impõe e o pior: tenta mudar a essência do outro, ferindo o seu direito primordial. 

Daí me lembro de novo que quando era ainda pré-adolescente (e ainda restam uns 20% dentro de mim dessa figura pitoresca, mesmo que adormecida e pouco representada em meus escritos antes melancólicos e agora bem mais pragmáticos), eu carregava a bandeira da liberdade a todo preço. Tudo que contrariava esse direito me feria tão dolorosamente que eu mais parecia uma militante em tempos da ditadura do que muitos que lá estiveram. Tudo que definisse uma regra, um limite, um padrão (até estético), era uma afronta aos meus princípios... Saudade daquele ardor ideológico, mas nem tanto do sofrimento por me sentir incapaz diante dele, inerte, inútil ou inutilizada, a palavra me fugiu... 

E aqui estou eu, a adulta que ainda escreve pra ninguém, palavras ao vento, sem os velhos diários abandonados por uma questão tão prática que assusta: a invasão descoberta e a sinceridade finalmente entendida como fragilidade. O velho hábito de escrever que nunca se foi permanece como um desabafo, para nada, ou para simplesmente organizar as ideias, ou para que alguém um dia leia, ou se veja refletido... Não espero que ninguém tenha a mesma bagagem, mas que os meus rabiscos sejam de algum modo válidos. 



Coisas assim eu levo na minha bagagem... Você é quem diz o que leva na sua...

17/12/2012

O fim

Vamos falar da pauta em alta: o fim do mundo na próxima sexta. Os caras eram bons em astronomia e geometria, mas não venham me dizer que os maias eram os mais inteligentes... Senão, seríamos hoje mais maias do que espanhóis. A questão é que para muitos malucos por aí em poucos dias tudo vai virar pó, ou algo do tipo. Mas o fim do mundo vem sendo anunciado há tempos, desde que me entendo por gente. Quando era criança, me assustaram com as profecias de Nostradamus. Quando cresci, ouvi muitos falarem dos trechos do Apocalipse. E tantos outros agora dizem que os maias sabiam disso há mais de 500 anos e que num bloco de barro rabiscaram o rumo da nossa história. 

Mas o Alcorão, os eco-chatos, os suicidas também dizem que o mundo vai acabar um dia. E os mais pessimistas, dizem que em breve - muito breve. Tenho medo das tempestades solares - o que seria de nós sem energia elétrica? Colapso. Aí me lembro de "Ensaio sobre a Cegueira", com todo mundo meio insano, doido, desorientado ou virando zumbi no estilo "A Lenda". Então, que se for pra acabar, que acabe triunfante - que exploda, que inunde, que vire pó. Pra ninguém sofrer, pra ninguém se matar, pra ninguém chegar ao seu pior. 

Mas se o mundo não acabar (de novo), que o mínimo possível de pessoas se mate por achar que antes de meia-noite o céu acabará em chamas. Tenho compromissos pós fim do mundo, então se eu chegar atrasada, não é porque no meu fuso horário o mundo acabou antes, ok? E este é só um post desconexo, pra ficar na Matrix, caso o mundo acabe, e os ETs algum dia encontrem nossos registros sobre nossas vidas. Ou será que primeiro os Bilderbergs vão filtrar essa publicação idiota, ao estilo Mãe Diná? Tenha dó! Quem sabe do fim do mundo não vai te contar. 

13/11/2012

Ilusões do Ouro de Tolo

Sou facilmente percebida por métricas: quantas fotos tiradas, quantas fotos reveladas, quantos posts escritos, quantos posts públicos, quantos compromissos agendados, quantas festas presenciadas. O meu ser social representa a minha "efetividade" diante dos fatos: ou sou, ou não estou mesmo a fim de ser. Simplesmente quero estar ali, ou não quero sequer fazer parte... A questão é que 2012 pode não ser mesmo o fim do mundo, nem pros maias, nem pra mim, nem pra você, mas de alguma forma é uma mudança radical no meu jeito "sociável" de ser.

Nunca fui tão rabugenta, nunca fui tão azeda, nunca fui tão mau humorada, talvez nunca tenha sido tão séria e talvez tão fria e madura. Pra grande maioria, claro, isso é quase imperceptível. Mas pra quem tinha como padrão alguém tão presente, quase sempre disponível, tão constante, 2012 pode ter sido um choque. Um choque cultural, uma ruptura nas convenções que provavelmente mais me sugavam do que me davam espaço... Mas tudo tem seu outro lado: faz falta aquela leveza, faz falta ser mais amável. Afinal, a doçura e suposta amabilidade social têm suas vantagens. 

Só que o peso, o esgotamento, a falta de tempo pra me debruçar em cima dos meus próprios medos, encobertos durante tanto tempo (sim, já fui essa rabugenta em outra fase da vida... isso é cíclico), fizeram com que eu parasse de olhar pra minha vida real, pro meu mundo miúdo cheio de questões pra ponderar, pesar e resolver. Sim, a pessoa amável tem dúvidas, problemas e questões. Só porque aparento ser leve não quer dizer que não tenha dentro de mim um turbilhão pesado de maluquices... 

Quando notei, estava aqui, cheia de coisas pra rever, hábitos pra mudar, comportamentos pra repensar. E ainda são vários, congelados - muitos deles completamente fora das minhas reais possibilidades de seguir adiante. Sim, eu preciso me mexer, mudar, revisar meus conceitos. Retomar alguns dos quais andei me desapegando ao longo desses anos de pessoa "leve" - e, agora que vejo, talvez superficial. É hora de retomar as rédeas da vida real, com seu peso real, deixando de lado as manias absorvidas neste tempo maluco que só Cazuza daria conta... Fascinação pura, ilusão que entorpece. A vida consegue te fazer isso, é muito fácil se deixar levar. 

É hora de deixar o cavalo-marinho contar suas histórias por aí, em outras bandas... E que este ciclo de azedume me ajude mais uma vez a voltar aos eixos, com os pés no chão, ainda em tempo de consertar o que está errado, retomar do ponto onde parei e aprender com o que já vivi. Que as doces ilusões dessas primaveras entorpecentes fiquem como boas lembranças, mas que sirvam de lição para as próximas aventuras, um pouco mais "comedidas", mais amadurecidas, menos desvairadas. Pois nem tudo que reluz é ouro.