15/06/2014

A Semente

Não tenho uma vida perfeita. Já dizia minha amiga Isabela, todo mundo vê as pingas que eu tomo, mas não vê os tombos que eu levo. Você acaba parecendo superficial ou fútil porque não idolatra os problemas e foca na solução. Isso não me impede de sofrer, mas me permite deixar o que é ruim no passado, ir adiante e não guardar rancor. Daí vem um problema sério: eu me desapego tanto da experiência ruim, que "emburreço". Passo por cima, perdoo e me agarro à esperança de que a vida há de dar um jeito e irá consertar tudo. E esqueço que não basta eu querer que a vida seja boa. Outras pessoas estão envolvidas...

Mas daí outro dia, com as ideias fervilhando, trombei com Dr. Artur, um oftalmologista que eu nunca tinha visto antes e com quem estava fazendo minha primeira consulta para monitorar o efeito dos medicamentos do lúpus nos meus olhos. E pouco depois que resumi essa história do lúpus e contei que estou há 1 ano e meio em remissão, sem corticoides, ele parou de examinar os meus olhos e dissecou a minha alma. Seguindo uma lógica assustadora através de seus questionamentos sobre minha postura diante da doença e da vida, ele examinou a minha alma.

Como quem não queria nada, ele foi me perguntando sobre como reagi a cada etapa do lúpus e a cada reação das pessoas ao meu redor durante o período de atividade da doença. Falei sobre o quanto fiquei chateada ao me olhar no espelho e ver o rosto ferido, os cabelos caindo e as bochechas inchando. Meu corpo mudou e perdi o controle sobre ele, sobre minha saúde e especialmente sobre minha qualidade de vida. Mas nem por isso deixei de tomar os remédios, de dar tempo ao tempo e de confiar. A negação inicial se transformou em aceitação alguns meses depois e decidi seguir minha vida adiante.

Sai do ninho da minha mãe, morei com outros estudantes aos 17 anos, encarei a faculdade como prioridade e comecei a trabalhar duro para conquistar o meu futuro. Batalhei especialmente para mostrar que eu não era apenas uma garota de saúde frágil, mas sim uma pessoa que tinha aprendido a dar valor à vida, independente do desafio que me era apresentado. Aprendi a conviver, a aceitar a minha condição e fazer o melhor possível com o que eu tinha. Durante anos fiquei distante do mar, evitando o sol, pois era naquela época um grande vilão. Mas não deixei de ser jovem, de ter amigos, de ir a festas e nem de me apaixonar, por mais insegura que eu ainda fosse. Aceitei, mesmo com aquela sombra me rondando. Não aceitei parar de viver.

E depois de contar outras tantas coisas para o Dr. Artur, ele me disse exatamente o que intuitivamente eu entendia sobre a minha postura diante do lúpus, da vida. Que eu tinha me permitido aceitar a vida que estava programada para mim, que eu tinha aprendido a confiar em algo maior que sabia o motivo daquela experiência, que eu tinha aprendido a converter o sofrimento em presente, em uma chance de viver de forma diferente. Eu não me entreguei e que o mais importante era que hoje eu podia SEMEAR a minha história para que outros pudessem ter esperança, pudessem confiar no aprendizado que nos era ofertado.

Não falei para o Dr. Artur sobre quase nada da minha vida, não falei da Corrente do Bem, não falei de quantas pessoas com lúpus já me procuraram em busca de um conforto, nem de como fui referência quando outras pessoas próximas a mim descobriram que também carregariam a borboleta do lúpus... Não contei sobre minhas decepções ao longo da vida, não falei sobre como reagi a elas, mesmo que levasse tempo para a dor ir embora. Mas falei para ele sobre como consegui aprender a controlar o lúpus a meu favor. Ele é meu alerta, meu termômetro, meu limite. Para o estresse, para a angústia, para a infelicidade. Meu corpo me diz o que ando fazendo de errado e que fere minha alma... O lúpus é o registro do meu instinto, meu sexto sentido, minha inconsciência representada.

E daí contei para o Dr. Artur sobre como consegui estabilizar os efeitos da doença, mesmo no período mais estressante que vivi em 2009. Eu aprendi a não carregar o problema dos outros, aprendi a não me sentir culpada pelos erros dos outros e aprendi, principalmente, a não guardar meus sentimentos... E por mais que eu não gostasse de confrontos, falar, falar, falar e nunca deixar as coisas mal resolvidas passou a ser um medicamento oral, infalível. Parei de me esconder, parei de carregar pesos alheios e comecei a viver a minha vida, seguindo uma disciplina com severidade: por mais que alguns tivessem sentido o cordão umbilical romper, por mais que às vezes eu parecesse dura, por mais que às vezes eu parecesse ser egoísta. Entendi que não posso resolver os problemas de todo mundo e que não posso mudar as pessoas - a mudança tem que partir delas mesmas.

A adaptação a essa nova "Carol" foi dolorosa para muita gente, mas me tornou uma pessoa mais sincera, transparente, honesta e, especialmente, saudável. E daí, quando parei de brigar com o destino, passei a seguir adiante sem desconfianças, descobri que podia ser uma pessoa mais leve, menos angustiada, mais feliz. E quando Dr. Artur, em suas perguntas inquietantes, me dissecava a alma, segurei meus olhos embaçados para não chorar e entrar em pânico sobre o meu medo de não conseguir ser a SEMEADORA que ele me dizia que eu era... Que me sinto frustrada por não conseguir fazer as pessoas serem mais felizes, mesmo as pessoas que mais amo. Que me sinto pequena diante da força da negatividade que algumas pessoas se acostumaram a cultivar. Que me sinto fraca às vezes diante da insistência das pessoas em serem infelizes.

Daí o Dr. Artur me sacolejou e disse que o meu papel era semear, não obrigar a semente a nascer. Que eu tinha o papel de contar a minha história, mesmo para aqueles que não sabiam ouvir, que só sabiam reclamar. Que eu tinha o papel de ensinar pelo exemplo para que os outros se sentissem mais confortáveis e não ouvissem uma teoria da boca pra fora. Que eu era uma SEMEADORA e que a minha postura de aceitação demonstrava a minha confiança em algo maior, fosse Deus ou qualquer representação de outra crença. Que era melhor a minha postura de aceitação sem questionamento do que aquela postura em que as pessoas que se julgam mais "fiéis e crentes" que entendem as experiências como castigo e não como aprendizado. Que era meu papel semear a fé em sua forma pura, sem preconceitos religiosos, sem amarras ideológicas.

Ah, Dr. Artur, se o senhor soubesse como eu queria ser mais eficiente nesse papel de distribuir as sementes da esperança, da leveza, da positividade... Quem me dera eu fosse superior às minhas limitações humanas, como irritação, falta de paciência e ansiedade... Quem dera eu pudesse chacoalhar cada um para que aprendam a viver a sua vida com plenitude... Quem dera eu tivesse mesmo todo esse poder... É muita responsabilidade sair por aí semeando uma visão de mundo, uma visão de fé na vida. Eu aprendi pelos meus próprios tropeços, mas cada um tem seu tempo... E daí sou realmente só uma semente... Miúda, mas insistente. Entretanto, sem terra fértil que se permita ser cultivada, não há semente que vingue...




15/05/2014

Coisa de Gente


Como é difícil ser GENTE.

Você precisa gostar de dinheiro o suficiente pra viver bem, mas precisa desgostar o suficiente de dinheiro pra ser mais "gente". Você precisa trabalhar muito pra ser "gente", mas precisa trabalhar menos pra conseguir ser mais "gente". Você precisa ter compaixão com outras "gentes", mas precisa aprender que se não tiverem compaixão pela sua pessoa, você precisa aprender a perdoar porque somos todos "gente". Você precisa agir corretamente a maior parte do tempo, mas só precisa agir corretamente o suficiente para não estragar a sua felicidade e a felicidade de outras gentes. Você às vezes precisa relevar porque a "gente" é tudo "gente", mas precisa também soltar os cachorros pra não engolirmos sapos e assim respeitarmos as "gentes" que somos.

Mais difícil ainda é ser GENTE e ao mesmo tempo saber que toda GENTE é falha.

E aí você descobre que tem que aprender a amar outra "gente" mesmo com todos os defeitos e com todas aquelas promessas de que existe uma vida perfeita em algum ponto do universo. Daí quanto mais "gente" você é, mais você entende que nada vai dar certo todo o tempo e que mesmo que você faça tudo certo, não depende de você garantir que as outras "gentes" vão sempre agir do jeito certo. Daí que quanto mais "gente" você é, mais você entende que "gente" nasceu com defeito de fábrica e que só dá pra melhorar a situação se você aceitar a condição falível de qualquer um ao seu redor. Ou seja, você se prepara para a falha, e não para ser positivamente surpreendido.

É uma pena, no entanto, que alguns confundam os dois conceitos: sobre saber que "gente" falha e sobre aceitar o hábito das "gentes" de falhar. Ao mesmo tempo que você não deve, não pode, não merece criar expectativas falsas sobre a perfeição de qualquer "gente" que seja, a "gente" não pode deixar de confiar e de esperar que cada um seja melhor, ou que ao menos tente ser melhor. Não é simplesmente se decepcionar por uma grande atitude em especial, mas é se decepcionar com aquela sangria continuada, que vai devorando, que vai te consumindo, e fazendo você perder a esperança sobre o que é ser "boa gente". E quando percebe, é bem diferente ser "boa gente" de ser "gente boa". E que não dá pra ser só um ou outro - tem que ser "gente" equilibrada pra ao menos viver melhor.

Por outro lado, não posso negar que GENTE me encanta, assim como me assusta. É como um livro não lido, um presente ainda por abrir, um caminho nunca feito, um pensamento novo - "gente" é bicho surpreendente, aterrorizante, interessante. Nem os mais previsíveis, monótonos e planejados conseguem garantir que o dia seguinte será exato, calculado e programado, pois outras "gentes" poderão interferir a qualquer instante. E se convém a explicação sobre o conceito de "inteligência", tão peculiar ao ser "gente", dá pra entender que ser inteligente é ser capaz de ser imprevisível. Ser capaz de mudar a vida, o mundo, o destino, em um piscar de olhos. Num ato, numa ideia, num sonho.

Fato é que ser GENTE é coisa que se aprende, e que não se para de aprender.

E que bom mesmo seria nascer jovem mas com cabeça de velho, pra sofrer menos com esse aprendizado pra ser "boa gente" na medida certa e "gente boa" sem exageros. Porque a "gente" só começa a entender de "gente" quando já errou muito, já se perdeu e se reencontrou exaustivamente, já se decepcionou, já se precipitou. Se fosse possível fazer um manual sobre melhores práticas da operação de uma "gente", ainda assim de nada valeria - porque gente não segue manual, gente não segue padrão, gente não sai forma de gelo. "Gente" inova, segue o instinto quando sente algo fora do lugar, segue a razão quando acha que vale a pena, abandona quando perde o gosto, toma pra si quando se apaixona, joga tudo pro alto quando quer recomeçar.

Eu não sei você, mas eu sou "gente" pacarái! E quando acho que estou no caminho certo, que aprendi a ser resiliente, a aceitar as fraquezas alheias, a ser mais paciente, descubro que estou caminhando rumo ao tédio, ao erro, ao desencontro com a "gente" que eu sou. E daí me pego revisando os meus passos, supondo o que seria diferente, pesando o que realmente vale a pena - manter, suportar, batalhar, assumir, abandonar ou mudar. Como "gente", eu só posso garantir que por mim, pela "gente" que sou, prefiro não botar a mão no fogo, pois fomos criados à imagem e semelhança de quem queria que aprendêssemos a viver, custe o que custar.

Obs: Mas cabe ressaltar que toda ação, reação e relação tem um custo benefício. Cuidado com o saldo negativo em sua conta.

01/04/2014

Era uma vez!

Era uma vez uma garotinha de sonhos gelatinosos, esculpidos em entulhos no terraço de um prédio, criados com os olhos colados no céu, que era o maior pedaço de azul que até então podia permanecer próxima. A sua proximidade com o azul do céu camuflava a sua paixão platônica por outra imensidão azul, da qual de alguma forma sempre se sentiria conectada.

Ela queria o teletransporte para saltar da nave para um submarino e em menos de 20 mil léguas encontrar cada ser vivo que um dia já imaginou ou desenhou em sua memória inventada. Foi sereia, foi saci que via baleias no céu, foi tubarão com um sistema imunológico que ignorava o câncer, foi mergulhadora com Cousteau. Como se não bastasse inventar um mundo nas estrelas, especialmente em Fomalhaut, precisava buscar o oceano. 

Queria um golfinho no seu quintal, mas se contentava com porquinhos da índia. Queria siris de aquário que durassem mais de 2 meses, mas se contentava com a lenda da Afrodite que permaneceu 8 anos (no seu tempo de criança, não no tempo da Terra) em seu aquário, sobrevivendo aos fungos, choques térmicos e outros peixes estressados. Queria que piabas de rio sobrevivessem em água parada, sem corrente, pois água "era água", em seu entendimento peculiar. Queria ter barbatanas e guelras atrás das orelhas, como no filme. 

Mas a vida é feita de condições reais, ainda que boas. A garotinha aprendeu a nadar, mas ainda assim não aprendeu a plantar sementes de praias. Aprendeu a se virar, mas não aprendeu a virar o mapa pra inverter a posição do mar. Aprendeu a viajar, usando menos a imaginação e mais os próprios pés, que ainda assim, ela queria que fossem barbatanas. Aprendeu a mergulhar e ouviu de um amigo de Cousteau algumas histórias que nem a memória conseguiu guardar em detalhes, pois não aprendeu a ser hardware quando o assunto era o mar. Aprendeu a tentar, mesmo que ainda sentisse medo. 

A garotinha ainda não cresceu, continua velejando em ideias, mas segue acumulando sonhos e planos ao longo de anos. Não sabe no que vai dar essa mania de azul, refletida em suas roupas, traços e inspirações. Mas espera que o que for seu, permaneça reservado para a hora certa, para a alma devidamente pronta. 


 Que tudo seja possível pra quem crê!

27/02/2014

Conto de um minuto só

Era uma vez uma menina, com seus sonhos, sonhados todos os dias de sua infância. De uma querência sem igual, que só o Seu Guimarães, o Rosa, entenderia. Sem pestanejar, sem duvidar, sabia o que queria para seu futuro: tudo que não era o que tinha. E com o tempo, remando contra a maré, a ressaca e até a piracema, ela um dia chegou lá, mesmo que não fosse como no seu mundo sonhado infinito. De que adiantava a querência, se nenhuma escolha era exata e precisa?

Adiantava, mesmo que essa adiantância não fosse exatamente o que se esperava do seu destinamento percebido como finito. Ralava o calcanhar dias a fio, para depois descobrir que seu destino não era aquele sonhado, e parecia mais um pão dormido: duro, destinado a ser ralado. Destino ralado. Ela, que via estrelas no céu e sempre esperava por algo mágico que dali viesse, terminou por descobrir que tinha uma força de piaba diante do rio da vida. "Tem dia que não é fácil, menina" - dizia seu conscienciamento inquieto. 

Mas nem tudo era farelo, e quando em vez a vida lhe era misteriosamente boa. Com uma pitada de surpresa, de repentismo, descobria um sabor novo, mesmo que desconfigurado do plano inicial. Era essa a fórmula: achar que os tombos tinham mais cara de desajustes e que as coisas normalmente são simples, sem grandes momentos cinematosísticos. Só era difícil de engolir, porque a garganta travava. 

E nesse passo, trocando às vezes gato por lebre, engolindo sapos sem gosto de rã frita, a vida toma sua rumância, discordância e petulância em pessoa. Não há o que fazer quando você não é pitoresca como aquela Amelie, e nem tem o poder de fazer o mundo e as pessoas encorpadas de pessimismo mudarem. Você rema, rema, e quando nota, já não é um barco e está em trilhos inexatos, mas totalmente seus. Pois a vida é essa coisa, desrregulada. 


30/12/2013

As nossas vidas secretas

Olá, meu nome não é Walter Mitty, mas poderia ser. Quantas vezes não nos sentimos empurrados pela roda da vida, tomando decisões responsáveis para sobrevivermos nesta selva? Quantas vezes já acordamos pensando nas contas do fim do mês, vivendo a curto prazo, só para que nenhuma engrenagem pare de funcionar devidamente? Quantas vezes você não se sente pequeno diante de um mundo de possibilidades, reduzido à jornada de um trabalho que estava longe de ser o seu plano inicial?

Eu não era skatista, mas já sonhei com uma vida dedicada ao mar. Eu preferia meus patins, se isso vale de alguma coisa. Mas o que fazia diferença eram os planos, os quais foram engolidos pela rotina. E pelo destino. Fato é que você tem que decidir em minutos algo que irá afetar toda a sua vida a longo prazo, o que não é de fato muito justo. A gente acaba fazendo o melhor que pode, mas não o que podia ser feito de melhor. Daí é um passo a você se achar muito parecido com Walter Mitty, o cara que cuida dos negativos de uma revista, mesmo em tempos de câmeras digitais.

Sinto muito. Eu guardo todos os meus negativos. E sinto falta das antigas câmeras, quando você nunca sabia o que esperar da revelação dos filmes... Assim como o personagem de Sean Penn, também aprendi ao longo destes anos que mais vale viver o momento do que tirar mil fotos daquela paisagem que te tira o fôlego. Resultado deste aprendizado: reduzi consideravelmente o número de fotos que faço durante minhas viagens, algo que a gente só aprende depois de muitos anos. Afinal, também descobri que minha memória é preguiçosa e tenho mania de guardar somente as imagens que registrei, e não o que vi em 360 graus.

A sensação que tenho é Walter é meu reflexo, congelado pela vida real. Por mais que eu tenha me prometido viajar pelo mundo, me sinto limitada. Porque não posso ir quando bem entendo, e nem tenho dinheiro pra ficar durante o tempo que pretendo. Porque não posso chutar o balde de uma vida "certinha" sem antes me planejar, o que também é coisa de gente com juízo. Não dá pra acordar amanhã e comprar uma passagem pra Cidade do Cabo, só pra salvar pinguins sem ser paga por isso. E isso é triste. Ou melhor, isso é Walter Mitty, preso no padrão de vida capitalista ao qual todos estamos condenados. 

E não é um discurso hipócrita: claro que gosto do meu teto, do conforto, do meu dinheiro no final do mês. Mas fato é que os rumos foram definidos sem que houvesse tempo para ponderar o que realmente faria eu me sentir completa, realizando aqueles velhos sonhos. Agora, pra chegar perto daqueles planos, eu tenho que ir com calma, passo a passo, resiliente. Aliás, resiliência foi um exercício diário ao longo de todo esse ano. Como se eu estivesse todo santo dia me preocupando somente com a foto da última capa da Revista Life (como no filme). 

Como se não bastasse, Sean faz com que Walter viaje sem destino, por um objetivo quase pessoal. Disposto a ir onde fosse preciso, superando a si mesmo, deixando para trás todos os seus "pré-conceitos" sobre a vida. Pra aprender a sentir a vida e viver o mundo, como diria o verdadeiro fundador e editor da Revista Life: "Ver coisas a milhares de milhas de distância, coisas escondidas atrás de muros e dentro de quartos, coisas perigosas por vir" - Henry Luce - 1936. 

O filme é leve e posso apostar que pra muita gente vai ser "só mais um filme". Bom, se você está totalmente conformado com quem você é hoje, em que você se transformou, fato é que nada neste conto irá dizer algo a seu respeito. É um filme pra quem sente que falta algum pedaço, que deixou para trás alguma realização que mudaria sua vida, que não sabe hoje como mudar o curso de toda uma vida de responsabilidade e compromisso. É um filme pra quem tem medo de nunca estar "estampado" na capa do seu próprio livro de memórias, por ter sido coadjuvante de toda uma vida. 


A vida secreta de Walter Mitty: Walter (Ben Stiller) é o responsável pelo departamento de arquivo e revelação de fotografias da tradicional revista Life. Ele é um homem tímido, levando uma vida simples, perdido em seus sonhos. Ao receber um pacote com negativos do importante fotógrafo Sean O'Connell (Sean Penn), ele percebe que está faltando uma foto. O problema é que trata-se justamente da foto escolhida para ser a capa da última edição da revista, que está em transição para uma publicação online. Walter, com o apoio de Cheryl (Kristen Wiig) é obrigado a embarcar em uma verdadeira aventura que irá mudar a sua vida.

08/12/2013

Vida de gente grande

A gente nunca se imaginou ali, tendo aquela conversa. Os tópicos anteriores já eram parte da pauta, faziam sentido. Mas sermos arrebatadas pela nossa "maior idade" não estava previsto, por mais que a gente soubesse que esse dia chegaria. Quando a gente se descobre como pessoa adulta, é de assustar. O tempo circula em nossas mentes e ainda assim não cai a ficha de que estamos fazendo nossos destinos porque esta é a ordem natural da vida. Só que agora a decisão e o medo são de "gente grande", e não daquelas adolescentes que um dia já fomos. 

Como bem disse uma de nós, não era como roubar o carro, ficar bêbada ou qualquer outra situação maluca já vivida. Agora era assunto que fazia chorar e rir ao mesmo tempo: preocupadas, felizes, assustadas e cúmplices. A vida é de arrepiar, temos certeza disso nesses momentos: você não pode fugir - não é um plano, mas sim um fato. E daí os tópicos anteriores se tornaram pequenos, miúdos diante daquela notícia. Pois a vida de gente grande é assim: surpreendente, por mais que a gente sempre soubesse que aquele sempre fora um sonho pessoal e que agora estava se realizando. 

A vida nos sacode, pra mostrar que a gente perde tempo com tanta coisa pequena que se esquece do milagre da vida. Vida que surge assim, num piscar de olhos. Vida que renova, vida que completa. E se a gente se permitir ser infeliz nesse curto espaço de tempo, a aventura não terá sentido. Pois o único objetivo da vida é, sempre será, transformar as pessoas em seres de fato realizados, mesmo que às vezes pareça um truque do destino. Fato é que ela sempre quis isso, e nosso pensamento tem poder. 

11/11/2013

O Desapego da Camaleoa!

Estou numa grande onda do exercício do desapego. Acabei de descobrindo mais leve quando adotei uma nova postura diante das minhas decisões: não posso agir por você, não posso ser melhor que 99% das pessoas do mundo, nem posso segurar o meu destino entre meus dedos - ele tem sua própria força. A vantagem desse processo, que não vem de hoje mas só agora está se configurando às vistas alheias, é que eu me sinto mais leve - e menos pesarosa por tomar atitudes conscientes e sinceras, mesmo que aparentemente antagônicas. Há algum tempo, eu queria pra mim tudo aquilo que me trazia segurança, conforto e plenitude. Hoje eu quero pra mim o que de fato tiver que ser meu, com os desafios que isso representar. 

A questão é o desapego te ensina a ver o outro lado como uma novidade: por que não tentar, por que não se reinventar? Quando você não muda, o seu mundo não muda, você não vê resultados diferentes. Não que você esteja trilhando um caminho errado, mas quem é que te disse que não existe outro caminho ainda melhor? Se você não tentar, por você, por sua própria decisão, uma hora o destino vai te impor uma nova postura, e você não vai estar aberto a isso. Então se abrir, por livre e própria vontade, pode ser um passo positivo pra se deixar renovar, se deixar desafiar, mesmo que no fundo você já saiba que vai dar conta, modéstia à parte.

A verdade é que sempre que me permiti uma mudança, aprendi. E sempre que uma mudança me foi imposta, aprendi do mesmo jeito, mas às vezes de forma dolorosa. Então se abrir ao novo, se propor uma reviravolta, se desvirar do avesso, deixa de ser tão arriscado e passa a ser simplesmente uma atitude preventiva, racional e bastante positiva. Quando você se desapega, se permite ser diferente, você se abre, você aceita a mudança como uma decisão sua, consciente e prudente. Não é fácil, mas quando se aprende, o desapego te torna mais leve, te ensina a ser menos dura com suas limitações e te impulsiona rumo a novas possibilidades. E se tudo der errado, você já aprendeu a mudar, por sua própria capacidade de se camuflar, camaleoa de sua própria vida. 

Não sei até quando a onda otimista da mudança auto-sustentada irá permanecer nestas praias, mas fato é que nos últimos meses eu ando revirando velhos planos, velhos sonhos, metas antes esquecidas. Metas que por tantos anos me nortearam como pessoa e que por algum motivo, das quais me distanciei cumprindo os rituais paradoxais da vida. Não sei até que ponto revirar tudo de volta vai me levar lá, naquele ponto que anda me incomodando, me trazendo de volta à minha essência. Só sei que desapegar do que já se tem certeza é um bom começo pra se reinventar, pra renascer, pra recriar sonhos. E mais: para perdoar aqueles que insistem em seguir, na mediocridade, achando que são felizes por que se julgam melhores, maiores, mais ricos, mais qualquer outra coisa que é total ilusão. Pois a real satisfação está única e exclusivamente dentro de você, e você é a única pessoa do mundo da qual você não pode se desapegar.


Saqsaywaman - Peru - 2013

Considerações: Tudo isso tem a ver com pinguins, porquinho da índia, criatividade pra reinventar a vida, saudade do mar, um septo nasal recentemente esvaziado e principalmente - uma cabeça disponível pra revisar minhas prioridades. 

Obs: Ainda devo um texto sobre Machu Picchu, eu sei... :)