14/09/2013

O que os incas não podem contar...

Sempre que alguém quer saber o que mais me impressionou nesta viagem ao Peru, fica fácil dizer que não foram as montanhas gigantescas pela janela e nem a grandiosidade da história dos incas. O que me marcou no Peru foram as pessoas de hoje, apesar de sentir que muitas delas ainda vivem em função de um passado bem distante. Da melancolia ao orgulho por sua história de domínio e dominação, os peruanos de hoje precisam superar o saudosismo para vislumbrar um futuro tão colorido quanto suas tecelagens. 

Fato é que as montanhas estão mesmo por todos os lados. E tanto os antepassados com sangue inca, como os peruanos de hoje, aprenderam a seguir os contornos destas gigantes para conviver em harmonia com a natureza. Você roda pelas estradas e se depara com lindos picos nevados, de 5.500 metros como o Verônica, que estão ali desde sempre, como molduras na região do Vale Sagrado. Imponentes e respeitados, transformando o Peru num território em que qualquer planície é sagrada e onde as montanhas ainda têm serventia: como proteção, para o plantio em curvas de nível, como barreiras naturais para as mudanças climáticas. 

Entretanto, na região de Cusco, nota-se que o desmatamento de anos atrás foi tão feroz quanto a subjugação dos espanhóis. Naquelas terras quase nenhuma árvore renasce e prova-se o nosso temor da desertificação da nossa própria Amazônia. Alguns pinheiros salpicados pela região foram replantados, supostamente de origem de uma espécie australiana, para tentar reviver a floresta local, mas todos os esforços foram insuficientes e o que se vê são montanhas e vales com poucos arbustos, com a terra nua. Efeito de uma economia que não aprender a se sustentar ao longo dos humanos - defeito humano que vem de fábrica, certo?

Você aprende que em Cusco, tudo é negociado. A pechincha é parte da cultura do comércio local e para tudo se pede um desconto. Mas eu cheguei à conclusão que você só pechincha com quem você sabe que está ganhando muito dinheiro e eu não tinha muita coragem de pedir descontos ou "regalos". Você percebe que está disposto a pagar aquele preço, mesmo que não seja equivalente à qualidade do que está comprando, simplesmente pra garantir que aquele povo sobreviva dignamente, do seu artesanato e do comércio livre nas ruas. Já tenho meus hábitos de compra de artesanato estabelecidos, mas garanto que resisti bastante a todos os bagulhos que encontrei pelos becos e bancadas de Cusco. Tudo é muito colorido, expressivo e as pessoas estão totalmente dispostas a negociar para que você compre qualquer coisa, mesmo que não seja de fato de lã de alpaca. Todos disseram pra não comprar a prata vendida na Plaza de Armas, pois é falsa, mas é uma bijouteria tão barata e aquelas pessoas precisam tanto, que o que menos importa é o fato de ser de prata. A lã falsa irrita a pele (fico realmente pinicando), mas nos dias de frio ela me esquentou o suficiente e valeu o preço, que não era caro. Daí eu me pergunto: não vale a pena ser enganada por esse povo tão desesperado, vivendo às custas do turismo, que é o que lhes resta? Comprei uma máscara para para minha coleção, a mais inacabada que vi, por um preço semelhante àquelas já bem envernizadas e coloridas. Mas era de um senhor tão desolado que caminhava pelas ruas de Machu Picchu tentando vender seu trabalho, e claro, não vi nenhuma outra igual. Dane-se o dinheiro que os outros esperam que eu gaste em free shops - eu viajo pra ver e ser gente, pra talvez bater a asa da borboleta em outro canto. 

A comida. Não comi o ceviche peruano que tinha planejado, mas estive em dois restaurantes em Cusco que me marcaram por motivos diferentes: um pela apresentação de dança inusitada e o outro pela comida de fato. A apresentação de dança aconteceu enquanto eu tomava uma sopa de legumes, daquelas bem verdes e pastosas, e mais uma vez repito: como gosto de gente, especialmente de gente diferente! A música andina, em seu ritmo alegre, com flautas peruanas fazendo o "furi-furi" que eu sempre ouvi na praça da minha cidade natal. Os dançarinos vestidos a caráter, tímidos, mas executando os passos, rodopiando coloridos. Pra quem não sabe, foi assim que me emocionei no Peru e voltei pra mesa com os olhos molhados, com minha mãe surpresa com minha reação. É bonito ver gente cultivando a cultura, sem transformar aquilo em algo cinematográfico. Quanto ao outro restaurante, foi uma boa surpresa para o paladar (La Cicciolina é o nome). Fechamos a viagem com chave de ouro. 

Planejamos a viagem para estarmos em Cusco e Machu Picchu em um período de clima estável, sem chuvas, já que de outubro a fevereiro, a umidade é fator a se considerar. Viajamos em agosto e nos surpreendemos com um clima frio, de congelar os ossos. Especialmente porque não nos hospedamos em nenhum hotel luxuoso e por este motivo garanto que tomei banhos frios em algumas noites, pois o encanamento congelava e o gás não era suficiente para esquentar a água. Portanto, apesar do céu azul e de não suar muito durante as caminhadas nesta época do ano, garanto que se programar para os horários do banho é uma boa dica. E seguindo esta linha do raciocínio, acredito que isso explica os pés empoeirados de tantos artesãos e vendedores na Plaza de Armas de Cusco e nos pontos turísticos... Não sei até que ponto os peruanos daquela região realmente têm água quente todos os dias para terem o hábito tão rigoroso como temos. Banho frio é sofrido! 

Em outro post, escrevo mais! 

15/08/2013

A sua felicidade

Alguém disse que sonhos são como deuses: se você deixa de acreditar, eles deixam de existir. E que sonhos são urgentes, tornam as pessoas condutores de suas vidas e não meros passageiros. Nada disso faria sentido se eu realmente não acreditasse que somos movidos pelos nossos objetivos pessoais e, mesmo que a princípio pareça uma ideia egoísta, que não podemos abrir mão da vida que projetamos esperando que outras pessoas sempre aprovem nossas escolhas. Uma enfermeira australiana retratou em seu livro as cinco lamentações mais comuns feitas pelas pessoas em seu leito de morte, momento que arrepender-se não seria suficiente para corrigir toda uma postura diante da vida.
 
Grande parte das pessoas disse que se arrependia de não ter vivido uma vida fiel a si mesmas, sempre ditada pelas vontades ou opiniões alheias, ferindo os princípios da individualidade, do direito à personalidade e do libre arbítrio. Presas às convenções ou aos critérios morais às vezes questionáveis, quantas pessoas não deixam de ser quem realmente são para simplesmente agradar ao outro, ou para serem convenientes, ou para se sentirem mais adequadas ao meio em que estão inseridas? Acorrentadas, quantas pessoas não deixaram sua felicidade recolhida à aparência?
 
Outro arrependimento comum é não ter se permitido ser mais feliz, o que na minha opinião está totalmente ligado à outra lamentação já comentada. Você não se permite se divertir porque tem que se preocupar, porque tem que ser mais sério, porque tem que ser responsável, porque deve agir daquela maneira, etc. Você não precisa ser um inconsequente, claro, mas se permitir à felicidade é uma questão de saúde pública, a meu ver. Todo o estresse e os índices de depressão que crescem ao nosso redor refletem uma insatisfação geral porque as pessoas sequer sabem o que as faz mais felizes. Faltam sonhos, falta perspectiva, falta esperança.
 
Outras três lamentações muito citadas: ter trabalhado tanto (pouco tempo pra ser mais feliz?), não ter mantido contato com os amigos (não ter mantido contato com quem te faz mais feliz?) e não ter coragem de expressar seus sentimentos (ser mais você para ser mais feliz?). A questão é: por que a gente se perde tanto quando o óbvio está estampado no espelho? A felicidade é responsabilidade de cada um. Mais do que isso: é um diferencial para se manter uma espécie saudável e perene. Gente feliz vive mais, trabalha melhor, se reproduz (filhos mais felizes?), não prejudica o próximo.
 
E só dá pra ser feliz se você sonhar, se mover pra conquistar o que deseja a cada segundo. E a cada sonho concretizado, ter uma fila de outros desejos engatilhados, pra se motivar, pra se programar, pra não desistir enquanto ainda tiver planos. A curto ou longo prazo, sonhos que te modifiquem, que te transformem, que te façam enxergar o mundo e a vida com outros olhos. Pois a vida é finita e não dá pra achar que você vai poder repetir de ano. 

 

 

08/06/2013

Quem sabe morrer?

Não entendo nada sobre morte. Não entra na minha cabeça que alguém simplesmente se desconecta. Não aceito a explicação de que pode ser que tenhamos algo melhor depois da vida. Não consigo acreditar que vamos dormir até que sejamos julgados. Enquanto eu não tiver certeza, nenhuma dessas teorias fará sentido. A questão é que sermos finitos é de dar medo. Pois não sabemos o limite dessa finitude, não sabemos quando seremos desligados e convertidos em simples memória. E a tendência, por mais cruel que pareça, é cairmos no esquecimento ou termos nossa imagem deturpada pelas lembranças alheias. 
Quantos já não estiveram aqui na Terra e já se foram, hoje esquecidos? Como somos reduzidos à nossa mediocridade natural, mas que lutamos por toda a vida para superar, não é mesmo? Do pó ao pó. E se não nos esforçamos por deixar um rastro de boas lembranças e bons exemplos, temos ainda uma chance maior de sermos lembrados com uma imagem ruim ou somos fadados a nos transformarmos em fantasmas. E de que terá adiantado viver, sem termos deixado alguma herança, algum propósito cultivado?
Para muitos, ter filhos é garantir a sua permanência aqui, mesmo que seja por sua continuidade genética. Ainda assim, não é você, não é a sua história, não é a sua história contada por você. Tudo tende a ser perder no tempo, incluindo os seus genes, que serão naturalmente adaptados aos novos tempos, misturados com os genes de outras pessoas, gerando pessoas totalmente únicas, mesmo quando clonadas. Afinal, não somos apenas código genético - somos almas moldadas pela vida, pelo ambiente, pelo destino, pelo tempo. 
E aí me pergunto o que será feito de todas as fotos que tenho impressas em meu grande armário na sala, contando a minha história em imagens, mas que escondem tantos fatos, segredos e peculiaridades sobre as pessoas fotografadas que só eu posso contar e que provavelmente só interessam de fato a mim. Qual o sentido de hoje documentarmos tudo, sermos tão públicos, fazermos tanto marketing de nossas vidas, se seremos convertidos ao mesmo pó? Talvez porque temos medo de perder a nossa memória... Talvez porque estejamos nos esforçando para não passarmos despercebidos pela vida... Já que o fim é igual para todos. 



Observações: Quando eu morrer, tenho duas tarefas específicas e um pedido geral:
1) Dayana Fernandes - Fotografar o meu velório. Que o registro seja feito até o fim. 
2) Que os meus melhores amigos garantam um destino amigável para minhas fotos impressas, se eu não tiver herdeiros. Façam o que eu gostaria que fosse feito.
3) Que na minha rede social todos postem alguma lembrança, um fato, sobre nossa convivência, e não lamentações sobre a minha partida. 

24/04/2013

Ser sem Ressentir

Não abrir mão de quem você é. A regra mais básica para garantir que seu amor ao próximo não será construído com ressentimentos. A partir do momento em que você cede mais do que lhe cabe, você se perde, e um dia vai cobrar isso de volta. E se deu por decisão própria, é injusto que comecei a cobrar. Então não ceda se não é capaz de fazer isso sem se ressentir, sem criar expectativa que as outras pessoas passem a agir como você espera e como você age. Você se perde e deixa de ser a pessoa que levou anos pra construir, anos pra entender, anos pra se impor. 

Não é justo que você se ponha em risco a sua felicidade tentando suprir os desejos do outro que conflitam com quem você é. Se existe incompatibilidade, que exista negociação - e não apenas concessão. Quando você perceber, depois de tanto ceder pra não discutir, não brigar, não querer encarar o sofrimento e as diferenças, terá se transformado numa outra pessoa que não se reconhece, sem estrutura, sem base, sem felicidade real. E daí a cobrança pelo que o outro deveria estar fazendo no mesmo sentido, o esforço que as outras pessoas também deveriam ter feito, será duramente cobrado com juros, mas não serão pagos. Pior: sua cobrança será julgada, pois você não terá mais a força inicial para se defender. 

Ao se perder, corre-se ainda o risco de se perder também o amor e respeito daqueles que te amaram ou admiraram pelo que você já foi um dia, pois a essência não é mais a mesma. Qual o preço por abrir mão da pessoa que você levou tanto tempo para ser? E quanto tempo será necessário para recuperar a essência perdida, endurecida, ressecada e ofuscada pelo peso da mudança imposta? A culpa não está sempre no próximo, porém. A escolha muitas vezes é da própria pessoa, é nossa, tentando ser melhor, mas nem sempre percebendo que ser outra pessoa não significa ser melhor. 

02/04/2013

Sua Versão da História

Saber contar a própria história sem deixar que a narrativa te transforme em um mero aglomerado de fatos, vazios de experiência e motivação. Eis um grande desafio a todos aqueles que tentam se explicar, narrando suas vidas como se uma biografia autorizada fosse o melhor mecanismo de entender a si próprio. Pensando sobre isso, entendi por que "As Aventuras de Pi", além de falar sobre fé, me deixou tão emocionada, assim como eu já havia sentido antes com "Peixe Grande e suas Histórias Maravilhosas". O que eles têm em comum? A capacidade de transformar a vida em "sentido", propriamente dito, provida daquilo que efetivamente chamamos de "experiência". 

As duas histórias nos levam à reflexão de como nos perdemos diariamente nas "pequenices" da vida, ao invés de nos deixarmos levar pela magia do "todo", do que conquistamos ao longo do tempo, do quanto mudamos ao longo dos anos, da pessoa em que nos transformamos à medida em que acumulamos cada vivência peculiar, por mais simplória que nos pareça. E daí, como seres únicos, inigualáveis, nos perdemos como se fôssemos qualquer um, robotizados, deixando de pensar na nossa própria versão da história... Esquecemos que está em nossas mãos mostrar a nossa história com o que ela tem de melhor: a nossa versão. 

E para criar a nossa versão, precisamos também aprender a interpretar a nossa vida com olhos diferentes. Precisamos ter compaixão por nós mesmos, entender as fraquezas entranhadas e os erros que cometemos. Precisamos aceitar o passado imutável e os riscos do futuro, compreendendo que a vida não está sob nosso controle todo o tempo. E alimentando a compaixão, um sentimento que budistas e outras religiões entendem plenamente como aceitável e benéfico, você pode se perdoar por não ser perfeito, e interpretar a sua história como uma aventura, que exigiu coragem e esforço. Você passa a ser Pi, num barco, lutando contra o tigre, mesmo que ele seja apenas um reflexo de você mesmo, ou um motivo para te manter vivo. E você pode ser uma lenda vida, que ajudou várias pessoas ao longo da vida sem notar, mas só se gabar por ser também o misterioso peixe grande. Você pode não ser uma lenda mundial, não ser um super-herói do cinema, mas pode sentir orgulho do que conquistou e das lutas que venceu. 

A questão é: faz mais sentido para toda a humanidade aprender sobre a fé através das palavras da Bíblia, do Alcorão, ou de qualquer livro sagrado que seja, ou simplesmente ouvir uma narrativa científica explicando um milagre sobre a cura de alguém pelas orações daqueles que acreditam? A verdade é que para crer, as pessoas precisam da vida transformada em "sentido", da "experiência" transformada em sentimento. E daí percebi que Ed Bloom, o peixe grande, é como minha mãe: um mito, às vezes o anti-herói, que sempre me sacoleja mostrando que a gente precisa ver a vida de outro ângulo... e às vezes vivendo num mundo paralelo que tanto critico - mas será que é tão ruim assim? E mais: percebi que sou Pi, dentro daquele barco, brigando com um lado meu para entender os meus conceitos de fé - no divino e nas pessoas. Se essas histórias fossem narradas de outra forma, talvez eu não conseguisse entender tudo isso. 

24/02/2013

Tratado sobre a Arrogância

Nos últimos 4 anos eu mudei consideravelmente. Para alguns, sou mais petulante, para outros, mais calada, para outros ainda mais próximos, me tornei uma pessoa arrogante. Enquanto eu pensava simplesmente estar mais madura, consciente dos meus atos, distanciada dos problemas alheios que não me pertencem e sofrendo menos por aquilo que não me cabe resolver. Eu "endureci", coisa que aquela frase do Che Guevara me proibiria de fazer. Mas a verdade é que não foi por mal, mas sim pelo rumo que a vida tomou. 

Não quis me tornar uma pessoa mais fechada por simples opção, nem mais carrancuda por uma questão de acordar com um péssimo humor. As circunstâncias me pediram uma posição diferente diante da vida, das pessoas e dos fatos, e fui empurrada pra essa pessoa que agora eu sou, não sei se melhor, porém a que agora eu sei ser. Faz falta ser leve, mas não dá pra simplesmente voltar a velha fita cassete e desembolar o nó. Não sei até que ponto dá pra ser tudo tão "simples" de novo. 

A verdade é que também parei de esperar das pessoas mais do que elas podem dar, e talvez isso tenha me transformado numa pessoa menos "iluminada", como alguns diziam antes. Eu tinha mais fé no que estava por vir, tinha mais fé nas pessoas. E agora eu simplesmente sei que as pessoas falham, simplesmente sei que todos somos tortos de nascença. Não quero mais decepcionar, nem ser decepcionada, sem criar expectativas sobre coisas impossíveis, sem projetar sonhos que não dependam do simples momento do "agora". Não quero achar que daqui há uma semana a cura de todos os males estará na próxima esquina, quero simplesmente tomar o remédio de hoje à noite. 

E por essa visão simplista, que aos olhos de alguns parece triste e negativista, eu aprendi a ser mais leve, a me cobrar menos, a sentir menos o peso do mundo. Parei de carregar nas minhas costas as responsabilidades que não me cabiam, as mágoas que não me pertenciam, aprendendo a cultivar o desapego também pelo passado e pelo futuro. E por isso talvez eu agora tenha esse ar de arrogância, por simplesmente não querer mais me expor ao sofrimento. Não me tornei dura o suficiente, muita coisa ainda dói - só faço o que faço para não sofrer mais adiante. 

"O lado bom da vida", como diria o filme, não é ter esperança, não é criar falsas expectativas sobre o dia de amanhã. É simplesmente enxergar o que é bom agora, e cuidar disso da melhor forma possível. Tenho me esforçado para não sofrer pelo dia de amanhã, e como é difícil! Como é difícil não projetar no outro a sua própria vontade, o que você mesmo queria fazer e não consegue! Maldita inércia. Só que culpar o outro também não adianta, então prefiro cuidar do meu quadrado, fechar a boca, ouvir mais, e aí estou eu de novo: a arrogância em pessoa, porque agora eu não sou mais a velha matraca falante, não saio querendo animar a todos como antigamente, não tenho mais uma palavra amiga a todo instante como se meu repertório tivesse se esvaziado. Não é por mal, aconteceu. 

A gente simplesmente se transforma. Dizem que aos 30 nosso signo muda para o signo lunar. Ou algo assim. O meu signo anterior (virgem), combinado com o ascendente (peixes), era conhecido pela doação incondicional. Meu signo lunar é escorpião (independente, egocêntrico, materialista)... E se o nosso HD, pra não vir zerado, for realmente configurado no modo padrão com essas coisas de signo? E ao longo da vida a gente for se transformando, como a gente faz com um computador, instalando novos programas, mas no fundo, está lá o mesmo Windows, dando pau? Quem é que disse que não vou ficar ainda mais cabeça dura neste meu ciclo dos 30? Já fui feita no programa difícil - esse tal do virginiano sofre. Mas não podia ter nascido no "tabuleiro" que gera gente mais fácil, mais dócil, mais leve? Não tem boot de sistema que resolva, meu bem. 

O meu medo é esse: estar ou ser estigmatizada de agora em diante pelo meu novo gênio. Por estar mais consciente do que quero, do que sinto, do que falo, do que quero manter distante de mim, agora sou tachada. Não sei mais o real conceito de humildade (e de fato a perdi em vários aspectos, mas em outros não). Não sei mais até que ponto tomei o caminho certo para mim, que não era bom para outras pessoas porque deixei de ser um saco de pancada, ou deixei de ser o pára-raio, ou deixei de ser a fonte inesgotável de esperança e alegria. A verdade é, que por mais que doa, pesa menos em mim todo o peso do mundo, tudo aquilo que não me deixava dormir, tudo aquilo que me fazia escrever sem parar, tudo aquilo que me incomodava e deprimia, tudo aquilo que literalmente me adoecia. Para conseguir a minha paz de espírito, eu precisei mudar. Para me tornar uma pessoa mais segura, eu precisei cortar os galhos bem baixos, deixando tudo nascer de novo, mesmo que agora me pareçam tortos e encruados. Sinto muito por quem se sentiu atingido, mas foi apenas uma questão de sobrevivência. 

01/01/2013

À Liberdade

Eu descobri que os livros não são bons ou ruins. Descobri que os livros nos encontram nas fases certas da vida, ou da consciência, ou não. Concordo que a trilogia de Cinquenta Tons de Cinza é um romance, ficção pura para diversão do público feminino, mas isso não explica por que o livro nos prende - e mais do que isso - nos engole. E decidi escrever exatamente pra refletir sobre como essa trilogia me engoliu com suas 1483 páginas em 7 dias, assim como outros livros já me intoxicaram em diferentes fases da vida. 

Ontem mesmo perguntei para minha mãe como cheguei a Hermann Hesse aos 16 anos. Sinceramente, não sei até que ponto esse é um livro para uma adolescente. Fato é que o "Lobo da Estepe" determinou profundamente várias de minhas ações naquela época, deixando de ser a boa garota para assumir as vontades que uivavam dentro de mim. Da pamonha de sempre à rebelde contida, fato é que me vi refletida no mesmo "sufocamento" do personagem do livro e viver uma vida infeliz, presa nas circunstâncias, tornou-se o meu maior medo. Parece surreal, mas afinal somos feito pára-raios na adolescência: abertos a influências, a seguir mentores, a ter ídolos do mundo pop, a criar mitos, a definir ideologias como filosofias de vida. Eu simplesmente saltei de Richard Bach, do pacífico "Fernão Capelo Gaivota" e "Ilusões" para o "Lobo da Estepe" e "Sidarta", buscando uma elevação, um estado superior de consciência de mim, do outro, do meu destino. E desde então, nunca mais deixei de ser teimosa, petulante, aventureira e passei a assumir os riscos da vida. 

Aos 20, ganhei o livro de um amigo do trabalho (hoje o jornalista Erick Araújo, que está em algum lugar por aí) chamado "Mulher solteira procura homem impotente para relacionamento sério", da autora Gaby Hauptmann. Naquela época, eu sofria com a pressão típica da minha idade: estudar, trabalhar, ser popular, ser atraente, ter uma vida sexual ativa, ter um namorado, me divertir, ser jovem. E eis que surge um livro falando de um passo depois, mas com as mesmas pressões machistas e paradigmáticas estabelecidas por um maldito não sei quem. Virei a noite lendo o livro, 303 páginas, para ficar feito um zumbi nas aulas da faculdade no dia seguinte, mas satisfeita por saber que eu não era a única que simplesmente não estava a fim de priorizar o sexo aos 20. Eu tinha muitos planos na frente e tinha muitas outras coisas pra aproveitar. Eu, que às vezes me sentia um ET em meio às amigas com seus namorados que tanto lhe tomavam o precioso tempo, percebi que estava vivendo uma vida plena da minha liberdade e que não precisava correr. Fato é que seguindo essa filosofia, acabei me tornando uma mulher mais bem resolvida do que muitas que conheço, apesar de só entender isso anos depois...

Mais uma vez através de um presente de minha mãe (não lembro se eu já tinha escolhido o livro ou se ela quem escolheu o título por sorte), aos 22 anos eu descobri Aldous Huxley, em "Admirável Mundo Novo", que não é a letra da música da Pitty. Eu tinha acabado de me formar e pensar no mundo ditado por regras alheias à minha vontade, numa sociedade manipulada, me incomodava - aliás, sempre incomodou desde aquele lobo que descobri aos 16 anos. Tudo que impedia de fazer o que eu planejava, o que eu sonhava, não me deixava apenas infeliz - mas furiosa. E talvez tenha sido importante pra correr atrás dos meus planos como "gente grande", da minha independência - da minha liberdade, melhor dizendo, até onde me fosse possível. Não queria retroceder, regredir, perder o que já tinha conquistado. Huxley não me deixou ser engessada por modelos antiquados, pelo comodismo. Eu aprendi a persistir. 

Li vários livros neste período, poderia citar como cada um mexeu com minhas ideias, mas vou me ater àqueles que estão ligados ao tema do post... Só pra constar os prediletos... "Outra Vez", o segundo diário de Che Guevara. "Em busca do sonho", de Heloísa Schürmann. "Deusa do Mar", de P.C. Cast. "Contato", de Carl Sagan... "Travessuras da menina má", de Mário Vargas Llosa. 

Aos 28, ganhei das minhas queridas amigas (Carla e Rafaela) o tão falado "Comer, Rezar e Amar" e fui devorada. Sem saber, as meninas tinham me jogado no olho do meu próprio furacão pessoal. Não que eu tivesse a sorte de chutar o balde por um ano e viajar pra 3 países diferentes, mas eu tinha acabado de passar por um divórcio difícil (sentimentalmente falando), assim como a personagem. O que ela sentia, era o que eu sentia - decepção, fracasso, medo. E também os momentos de redescoberta dos novos planos, reconstrução da vida, entendimento da crise, aceitação, compaixão e perdão. Os críticos falem o que quiser, mesmo sendo um livro (depois um filme) pra "mulherzinha". Eu estava mesmo numa fase "mulherzinha" e precisava recuperar o meu lobo... Quando eu digo que um livro te encontra, não duvide. Se não acontece com você, isso realmente me preocupa - pois comigo, acontece a todo momento. 

Aos 29, trombei com "O Segredo de Frida Kahlo", de Francisco Haghenbeck, uma biografia desta artista que aprendi a admirar como mulher. Toda sua história de amor à arte e a um homem peculiar, mesmo sofrendo com o egoísmo de Diego, talvez me tenham permitido a reflexão para amenizar as minhas mágoas em relação ao amor... E tenham permitido que eu me envolvesse novamente... A paixão é necessária em tudo que fazemos na vida... Acho que Frida pensava assim... Eu terminei de ler o livro a caminho de Santiago, no Chile, e estava a caminho da minha aventura na Ilha de Páscoa, outro marco na minha vida. Era hora de me permitir arriscar novamente, apesar de ter sido doloroso da última vez. Não sei até que ponto o livro é verdadeiro em todas as partes, mas sinto uma enorme vontade de conhecer os lugares onde Frida viveu, só pra ver se a energia daquela mulher perdura. Pois eu não duvido. E quem sabe eu agradeça por ela ter ajudado a amaciar o meu coração ressentido.

E agora, aos 30, dou de cara com o Sr. Grey, um cara transtornado que precisa ser domesticado. Mas que vale a pena porque é, a princípio, bonito, sedutor, sensual e rico. Apesar de toda a ostentação, o que faz o mulherio querer um Grey em casa não é sua riqueza, nem sua beleza - são seus gestos. É a disposição para o prazer, para conquistar continuamente, para seduzir a qualquer preço, com ou sem os fetiches. E claro, com amor, vira sonho de consumo de qualquer uma... Mas eu posso garantir que a história é boa e prende não é porque fala de sadismo, mas sim de carne, de vontade, de desejo - de coisas que a maioria das pessoas reprime por achar que é pecado saber mais do próprio corpo, entender mais de sexo ou ter fantasias sexuais. A trilogia rompe preconceitos machistas que várias gerações antes da minha foram obrigadas a engolir, a seco. É uma versão romanceada da liberação sexual feminina. Éramos sempre o lado tortuoso da equação - passionais, imprevisíveis, românticas. E acho que o rumo dos fatos acaba mostrando que nem mesmo o macho mais perfeito por fora, é sempre tão racional e binário por dentro... Enfim, o equilíbrio dos tempos modernos onde podemos nos permitir direitos iguais ao prazer e a tantas outras esferas da vida... Volto àquele meu bom e velho lobo, ronronando, com as patas pro ar, brincando... Não é disso que sempre falei? Não é dos vários tons da liberdade, baby? 


A propósito... Personificando Sr. e Sra. Grey, desde que comecei a ler o livro, me vieram à mente os dois atores abaixo, brasileiros. Danilo Sacramento e Priscila Moura Faria (Priscila Sol). Gostaria de saber como cada um imaginou o biotipo dos dois! Essa é a vantagem da leitura: cada um pode imaginar o que quiser! :)