22/04/2015

Os Ciclos

Há quem acredite que tudo é para sempre, mas nossas experiências são tão finitas quanto nossa existência. De alguma forma, tudo se transforma e a ideia inicial sempre se perde no tempo. A gente se esquece do quanto é importante que os ciclos se fechem, para que novos se iniciem. O doce cheiro do novo, do inesperado, da ausência de certezas que abre uma imensidão de possibilidades. Ciclos que se fecham são libertadores, permitem novas perspectivas, permitem oportunidades.

Sempre me incomodei com coisas sem fim, mal resolvidas, mal explicadas. Histórias sem fim, livros que não terminei, conversas interrompidas, sonhos mal encaminhados, mal entendidos. Essa coisa de deixar para depois, de não dizer o que deveria ser dito, de engolir sapos sem questionar, de deixar o outro partir sem saber o motivo. Mas apesar do meu incômodo, aprendi que o tempo também resolve por si só uma série de questões que não estão no nosso alcance. 

Afinal, ter poder e controle sobre as questões mal resolvidas dos outros não está na nossa alçada. Envolve o outro querer, tomar atitude e fazer a sua parte. Daí que o tempo tem uma grande vantagem nestes casos: mesmo que o outro não se resolva, não queira resolver, o tempo permite que você resolva a sua parte, que você seja responsável somente por aquilo que lhe compete de fato. O ciclo se encerra para você, eliminando velhos pesos, libertando-se do rancor, do passado ou da história que não mais lhe pertence. 

Talvez não tenhamos sido criados para entender a finitude de tudo. Da vida, das relações, das experiências. Bom mesmo seria nascer calejado de ciclos - conscientes de que tudo que se vai, cede espaço para o que ainda está por vir. Somos ocidentais demais nesse aspecto... Medo do fim, medo do fracasso, medo do erro. Falta a gente dar a cara a tapa sem ter medo de recomeçar quando necessário. 

Desejo que todos passem por muitos fins, para viverem novos recomeços. Recomeços são apaixonantes, são motivadores, são cativantes. Recomeços são um exercício da nossa própria humanidade, desde que estejamos conscientes da oportunidade ali escondida. E que entre os recomeços, todos se encontrem! Talvez por isso os círculos sejam formas tão perfeitas: por serem retas tortas com o devido destino. Onde o fim é sempre um início. E hoje fechei mais um ciclo, em paz. 

Recomece, todo santo dia! :)


04/01/2015

Viagem ao meu tempo com Darwin

Há exatamente dois meses eu parti. E mais uma vez eu voltei uma pessoa diferente de quem eu era. A essência permanece a mesma, claro, mas o ângulo sempre muda. Quando você se permite ir, nunca retorna como foi. Não poderia voltar ilesa de Galápagos e eu já estava ciente de que um preço seria cobrado por isso. O grande problema de viajar, é que você cada vez mais tem certeza de que precisa sempre estar "lá", onde quer que seja, e nunca mais estará satisfeito permanecendo sempre no mesmo lugar.
Talvez seja o apego à lei da física quanto a viajar pelo tempo. Você finalmente entende que tempo é o único conceito que dita toda a sua vida. Você descobre que pode voltar ao passado ou voar para o futuro quando muda de fuso horário. E se sente por algumas horas no comando do tempo curto que é de sua responsabilidade nesta vida.
Conhecer Galápagos estava no plano há anos e ganhou força em 2009, quando precisei me reconstruir. E nada mais justo do que a vida me permitir a concretização do sonho quando novamente eu precisei reencontrar meu eixo. Estar em Galápagos tem a ver com recarregar a bateria, tomar fôlego, pegar impulso pro que ainda está por vir. Tem a ver com o resgate da força que dispendi em vão, e que agora deveria focar em mim, por uma questão de sobrevivência. Precisei de dois meses e uma virada de ano pra aceitar tudo isso.
Já dizia Darwin que sobrevive quem melhor se adapta, e não o mais forte. Deus, como isso se aplica a mim! Precisei esticar meu pescoço várias vezes pra voltar a respirar, precisei engolir muita casca grossa pra me manter de pé, precisei aguentar a água salgada para me adaptar. 2014 foi um ano do exercício da resiliência, tentando aceitar que nem tudo está no meu controle e que ainda assim eu posso também ser mais flexível. Desde que isso não afete a minha essência. Fato é que não tenho mais certeza em que realmente sou "boa", sendo que antes já me julguei a "melhor" em algumas áreas. Perdi certezas para ganhar flexibilidade.
Descobri que tenho sérios problemas em diferenciar boas e más pessoas. Descobri também que não sou a mais egoísta de todas as pessoas que conheço. Descobri que podemos ser melhores se simplesmente ouvirmos o outro lado. Descobri que ouvir demais o outro, sem nos ouvirmos, também não adianta. Descobri que desde que aprendi a chorar aos 26 anos, carrego só o peso que me cabe. Descobri que não sei me sentir culpada. Descobri que não sei dormir com raiva. Descobri que ainda preciso trabalhar minha ansiedade diante da mudança, coisa que eu pensava que já tinha domado. Descobri que ter uma vida leve é o que me cabe, mesmo que isso me leve a ficar sozinha por um bom tempo. Não está só nas minhas mãos. E o que tiver que ser, será.
Darwin estava certo quando disse que sobrevive quem melhor se adapta. Nestes meus 32 anos de muitos diários engavetados, descobri que quanto menos eu escrevi e menos me ensimesmei quanto aos meus questionamentos, menor a importância que dei a eles, tornando-os irrelevantes diante de todo um contexto maior. Afinal, algumas questões é melhor deixar que o tempo resolva, sem você se obrigar a algum tipo de atitude. Não se trata de negar o que te incomoda, mas simplesmente de lhe dar a devida importância perante tudo que ainda está por vir.
Eu realmente queria poder explicar como estar em Galápagos apenas reafirmou tudo que acabei de mencionar, mas ainda assim nada que eu escrever hoje será tão fidedigno ao que pensei em cada instante lá. Você descobre que não tem medo de iguanas marinhas e que pode nadar junto com elas, mudando seu conceito de beleza e risco. Você descobre que tem mais medo de leão marinho do que imaginava, mudando a percepção da coragem que julgava carregar. Você se encanta não só com os grandes pelicanos, mas especialmente com os pequenos tentilhões, miúdos, simplórios e graciosos, trazendo seu coração de volta às pequenas alegrias. Você flutua diante de várias tintoreras (tubarões de galha branca) como se observasse toda a vida, intocável, compreendendo como é preciso respeitar o espaço de cada um. Você entende que às vezes você precisa desacelerar para viver mais o momento, no mesmo ritmo das tartarugas gigantes centenárias, economizando energia para o que realmente vai valer a pena. Você engole o choro quando encontra os tão sonhados pinguins, que te moveram durante meses rumo àquela escolha, que seguraram a sua onda quando outras esferas da vida te deixavam sem esperança.
Hoje mesmo também li sobre a dificuldade de endurecer sem perder a ternura. Há alguns anos me disseram que eu tinha me tornado uma pessoa dura (adaptada?) e mais arrogante (adaptada?). Confesso que meu medo era mesmo eu ter deixado de ser quem eu era, ou quem sempre me disseram que eu era: leve, alegre, otimista. Tudo que vi e senti em Galápagos me trouxeram a tranquilidade de dizer que não perdi a ternura (adaptada?) e que cada vez mais adoto duas posturas: minimizar o poder que as ações alheias negativas têm sobre mim (adaptada?) e potencializar a minha capacidade de ser sincera quanto ao que sinto, sem máscaras (adaptada?). Afinal, não sei quanto tempo me resta aqui, nem o que ainda está por vir. Quando se viaja, a gente aprende que não importa somente o destino, mas especialmente o caminho até lá. Enquanto isso, o que posso fazer é driblar os fusos da vida, fazendo planos quando possível e seguindo a maré quando ela me chamar. Resiliência, resiliência!

Trilha sonora da viagem:
- Lilly Wood & the Prick and Robin Schulz - Prayer In C
- Nico feat Vinz - Am I Wrong


Se alguém quiser dicas sobre Galápagos, estou às ordens!

03/11/2014

Antes de Partir

Porque quando você parte, nunca se sabe o que vem a seguir. A vida refaz os caminhos e quando você menos percebe, não voltou de lá. Quando você parte, você nunca mais retorna ao que era antes. Quando você parte, algo muda na ordem da vida. Aquele velho papo de que uma mente que se abre a uma ideia nunca mais volta ao seu antigo tamanho, ou que uma janela que se abre nunca mais aceita se fechar, ou que quando se conhecesse a vastidão mundo nunca mais deixa de querer o universo. 

Optar por partir faz parte do exercício para o qual somos tão pouco preparados. Crescemos com medo de despedidas, da saudade, dos términos e da morte. E pouco entendemos sobre a importância desses episódios na consolidação da nossa própria humanidade. Partir e deixar ir faz parte da nossa natureza como seres racionais, donos da nossa própria vontade. 

Há muitos anos venho tentando exercitar a minha compreensão das partidas, das rupturas, das mudanças. E por bem ou por mal, toda a sequencia de fatos da minha vida vem me cobrando resiliência diante destas partidas, minhas ou de outrem. Porém, quando é você quem opta por partir, opta por se desconectar por algum tempo de tudo que é parte da sua essência, você finalmente entende: que você basta a si mesmo. Que sua existência não depende de nada, além de você mesmo, por mais egocêntrico que isso pareça. 

E talvez pensando assim, sem cobrar que o outro te abasteça de qualquer coisa que você julga ser indispensável, você consiga de fato aceitar mais as pessoas, os fatos e o destino tal como eles realmente são. Sem esperar que as pessoas nunca partam, aceitando que você mesmo um dia pode partir. 

Entretanto, a sua existência independente não o blinda da existência alheia. É fundamental diferenciar as duas ideias. Quando você aceita que tudo é passageiro e que a partida ou despedida será necessária, você entende que sua vida não acaba quando uma outra vida se "desliga" da sua. Mas nem por isso as vidas relacionadas à sua existência deixam de moldar a pessoa que você é. Sendo assim, o conceito básico é que: você é o seu próprio mundo, mas nem por isso ele não será habitado.

E daí que os inquilinos um dia se mudam, ou você repassa o seu "imóvel". Você também muda, você também escolhe ir embora. Você também escolhe outros inquilinos. E no final das contas, cada experiência moldou o caminho da sua partida. Afinal, quando você parte, ainda assim nunca se sabe o que vem a seguir. 

Nó sem Fim: Um dos símbolos do budismo tibetano que representa a visão budista de que tudo o que existe está interconectado. 


22/10/2014

O tempo certo de todas as coisas

Tenho um coração de jumento.
Faço escolhas erradas quanto ao amor.
Fato.
E vim aqui compartilhar algumas coisas que aprendi até aqui.
Você pode ser inteligente e aprender pelos meus erros.
Ou pode viver os seus erros e ser feliz assim.
1) Nunca namore/continue com alguém porque se sente só. Ou pior: porque tem medo de se sentir só. Nada pior do que a solidão mesmo acompanhada, pois não completa e não trata a causa real do problema. Você perde tempo ao lado da pessoa errada.
2) Nunca namore/continue com alguém que acha que sua vida é "fácil", que você não tem problemas. Nada pior do que uma pessoa egoísta ao ponto de comparar os seus problemas com os de qualquer outra pessoa no mundo, pois só você sabe o peso real dos seus problemas. Você perde tempo ao lado da pessoa que só enxerga um umbigo: o dela/dele.
3) Nunca namore/continue com alguém esperando que essa pessoa mude por você. Nada pior do que uma pessoa ser forçada a ser o que não é. Nada pior do que essa pessoa também esperar que você se transforme naquilo que você nunca quis ser. Ceder e se anular são coisas diferentes. Em nenhuma hipótese mude pelo outro, mude se você achar que é a sua hora de agir diferente, por você. Você perde tempo ao lado de uma pessoa que espera que você seja outra - especialmente se for um tipo de pessoa que você não admira ou que venha a ter hábitos que não condizem com o seu conceito de felicidade.
4) Nunca namore/continue com alguém por pena, especialmente por pensar que você deve ser um companheiro/companheira das horas ruins inquestionavelmente. A pessoa deve aprender a separar os seus problemas dos seus momentos juntos, blindando a relação e fazendo valer a pena o que a vida ainda oferece de positivo. Você perde tempo ao lado de uma pessoa que é digna de pena, pois a verdadeira compaixão é também permitir que a pessoa siga um rumo sem você e que você também busque a felicidade.
5) Nunca namore/continue com alguém que não tenha saído de outros relacionamentos de forma honesta e íntegra. Fraquezas todos temos, claro. Defeitos todos temos, claro. Mas a forma como a outra pessoa se desliga da outra, o tempo que ela se dá para recuperar o fôlego, é fundamental para conhecer a integridade daquela pessoa. Especialmente se a pessoa nunca soube "estar sozinha", pois isso indica uma pessoa que vive de muletas. E que usa o próximo para tampar suas feridas sem cultivar o amor próprio. Você perde tempo ao lado de quem usa os novos amores como refúgios para serem pessoas perfeitas.
6) Nunca namore/continue com alguém que não respeita seus amigos. O verdadeiro companheiro de toda uma vida não precisa estar sempre ao seu lado em todos os encontros com seus melhores amigos, mas deve cultivar a consideração por todos que são importantes em sua vida. E isso não inclui estar presente em todas as festas, mas sim em ter cuidado com a forma como trata aqueles que você ama. E se seus amigos levantarem um sinal de alerta sobre a pessoa, investigue, busque saber sobre a pessoa - o alarme dos seus amigos é infalível e eles sempre querem o seu bem. Você perde tempo ao lado de quem não trata bem aqueles que sempre estiveram ao seu lado.
7) Nunca namore/continue com alguém que tenta sempre interferir no seu relacionamento com sua família. Pois essa pessoa não conhece sua história e não sabe de todo o seu passado. Cabe a você definir os limites de seus familiares em sua vida e só porque a outra pessoa é dependente emocionalmente da família, não significa que você precisa ser. Cada um sabe como lidar com seus pais e irmãos, desde que exista respeito e amor. Você perde tempo com uma pessoa que critica suas relações, ao invés de olhar para o seu próprio cordão umbilical.
8) Nunca namore/continue com alguém que possui valores de vida extremamente diferentes dos seus, o que é bem diferente de serem "complementares". Toda relação precisa de equilíbrio e os valores de ambas as partes precisam ser respeitados e atendidos nas devidas medidas. Ninguém tem que abrir mão dos seus valores em função do questionamento do outro. Especialmente quando se trata de assuntos materiais e emocionais. A relação saudável exige congruência e satisfação, não eternas concessões. As pessoas se perdem quando só cedem. Você perde tempo focando em atender somente aos valores do outro, deixando seus planos e sonhos de lado.
9) Nunca namore/continue com alguém que se descontrola emocionalmente e tem picos de raiva de qualquer ser vivo no mundo. O descontrole emocional é um reflexo de uma pessoa alterada, instável. Toda pessoa merece respeito, assim como não se deve usar de violência especialmente em situações banais e estressantes da rotina. Você nunca vai saber quando você será o próximo alvo e nunca estará segura diante de uma pessoa desequilibrada. Você perde tempo ao lado de alguém que incita qualquer energia negativa, especialmente concretizando em ações violentas.
10) Nunca namore/continue com alguém que esconde segredos ou histórias sobre seu passado. Busque pessoas que são um livro aberto, sem medo de falar sobre relações antigas, sobre medos, sofre defeitos e sobre qualidades também. Busque pessoas que joguem limpo - o tipo de pessoa que você escolheria para ser seu melhor amigo. Pois o seu amor também precisa ser seu amigo todo santo dia. Você perde tempo quando se envolve por comodismo, por sexo, por status, por vaidade, por orgulho - pois em nenhum desses casos a pessoa é "o seu melhor amigo com quem você dorme todos os dias".
Então!
Tenho um coração de jumento.
Fato. Pois sei de tudo isso e ainda assim sou uma pessoa complacente.
Você pode ser inteligente e aprender pelos meus erros (repito).
Ou você pode viver e aprender por si mesma/mesmo.


16/10/2014

A carta

Quando recebeu aquela carta, era ainda muito jovem. Ainda não tinha se tatuado pela primeira vez, ainda não tinha terminado seu primeiro namoro e ainda não tinha mergulhado - em si mesma e nem no mar. Tinha certeza sobre poucas coisas na vida, mas não podia negar seu amor pelo mundo e pela vida - em todas as suas formas. Não sabia quem seria no futuro, não sabia onde estaria em 5 anos, não sabia sobre sua trajetória, não sabia. 

Até então saber que aquela carta era o seu destino. 
Era seu fardo. 
Era sua rota. 
Era seu carma. 
Era seu propósito. 

A carta continha um mapa, com diferentes pontos assinalados. Brevemente conhecido em aulas de geografia e programas de televisão. Pouco acessíveis a muitas pessoas espalhadas pelo mundo. E uma única frase: "Encontre suas próprias rotas. Encontre-se." Aos seus 17 anos, aquilo parecia absurdo, mas nunca saiu de sua lembrança. A carta não tinha remetente, não tinha selo e nem possibilidade de rastreamento. Estava suja e amarrotada, assim como a própria letra de quem escreveu aquelas poucas palavras. No entanto, emanava uma energia única e, especialmente, uma possibilidade antes impensada. 

Alguns anos se passaram, ela tateou suas rotas no escuro: direção indefinida, simplesmente encaminhada. E tinha a nítida sensação de que não era tão dona assim da sua própria vida: por mais que se planejasse, era a vida que escolhia seus caminhos. Nunca quis ser quem era, e ainda assim acabou sendo. Nunca quis trabalhar com aquilo, e ainda assim acabou se destacando. Nunca estar necessariamente com aquelas pessoas, e ainda assim a vida lhe trouxe almas particularmente diferentes - e totalmente responsáveis pelas suas escolhas também. Até que um dia, revirando suas memórias, decidiu seguir a carta - mais uma "autoridade" definindo seu futuro. 

Era só um plano maluco, e não especulava sobre as possibilidades desta escolha. Especulava, sim, no entanto, sobre quem queria dar aquele recado. E qual era a sua intenção ao deixar aquele recado. E então no ápice do seu desapego à lógica, decidiu se programar para a primeira grande aventura. E quando percebeu, já tinha mesmo assumido as rédeas daquela cavalgada. Finalmente escolheu ir, ao invés de ficar parada.

13/10/2014

Quando tudo é possível...


Talvez um homem só tome consciência de sua humanidade quando sonha. O ato de sonhar extrapola qualquer descrição antropológica que um de nossos semelhantes tenha feito. E desde que me entendo por gente espero ansiosamente pelas oportunidades de conquistar cada um dos sonhos que alimentei desde a minha mais remota memória. 

Não se tratava apenas de viajar nas histórias de Cousteau e criar mundos a partir dos seus documentários. Não se travava apenas de imaginar sereias e sacis amigos de baleias voadoras. Não se tratava apenas de imaginar as inúmeras possibilidades de um tratamento contra o câncer a partir das células de defesa dos tubarões. Tudo se tratava da minha humanidade, cultivada nos sonhos de criança.

O que torna uma pessoa, em toda a plenitude do ato de "ser humana", é exatamente a minha vontade de ver tudo com os meus próprios olhos e experimentar cada milagre da vida, fruto das mesmas moléculas de carbono da origem da vida. Encarar de perto todas as possibilidades de existência, encarnadas e conscientes, para que eu compreenda a minha própria insignificância diante da perfeição. 

Sonhos não têm preço, por mais que levem a certos sacrifícios. E cada um tem o direito de buscar aquilo que o torna uma pessoa melhor. A mim cabe o irrisório papel de observadora deste mundo, em toda a sua plenitude, em toda sua versão selvagem e pura. E assim perpetuar o resgate da criança otimista que eu era, e que eu ainda sou.


Meta: Galápagos...

06/10/2014

O fim, por si só

Triste o fim em que a pessoa se revela outra.
Outra tal como deveria ter sido antes de partir.
Outra tal como tenha sido camuflada ao longo do tempo.
Outra, aquela do início, perdida no final.

Triste o fim em que nós nos revelamos outros.
Incrivelmente enfraquecidos por tanto ceder.
Imensamente enfraquecidos por termos tentado tanto.
Impressionantemente enfraquecidos pela frustração.

Triste o fim em que as pessoas não podem mais conviver.
Magoam sem perceber.
São duras para se protegerem.
Tornam-se amargas pela decepção.
Perdem a noção do limite e do respeito ao outro.

Triste o fim em que pessoas antes tão próximas precisam se tornar meros estranhos.
E nunca mais dar boa noite.
E tão cedo aceitar que o outro pode e merece ser feliz mesmo sem você.
E talvez sempre sentir uma pontada de tristeza ao ver fotos antigas antes felizes.

Triste o fim em que a gente precisa cortar todos os elos.
Deixar de lado os meios de contato.
Eliminar pontos de congruência.
Mudar a rotina e se distanciar cruelmente.

Triste o fim em que nenhum dos dois se permite ser leve e honesto.
Negando cada um as suas culpas.
Pedindo perdão quando é tarde demais.
Guardando mágoas sem solução no devido momento.

Triste o fim em que todos os planos perdem o sentido.
E você precisa se reinventar de novo.
Quando você está sem forças, sem esperança.
E especialmente naquele momento em que você só queria que tudo fosse como antes.

Triste o fim.
Esperando o recomeço.
E pacientemente acreditando que vai passar.

17/09/2014

A crueldade do fim

Você leva meses para aceitar uma nova pessoa em sua rotina, em seus cuidados, em sua vida. Você leva anos para compreender os defeitos, agradecer pelas qualidades e se adaptar aos momentos instáveis. Você leva muito tempo para se sentir seguro, confiar e deixar de lado o peso da solidão. Mas aí você de repente precisa se desapegar, aceitar o fim, cruelmente decidido pois a vida tem vontade própria.
Daí você tem que converter todo o amor e a convivência em frieza, esquecimento, distanciamento e desapego. Maldito desapego! Pois não é uma escolha só sua, especialmente quando você espera por milagres ou por uma atitude heroica, tão improvável quanto uma possível delicadeza no fim. O corte, rasgado e desfiado, é cruel, para todos os lados. Mas pra gente (eu, você, um dos lados) sempre parece pior - pra gente sempre é mais duro e insuportável.
Daí você é obrigado a pensar "usando a cabeça", a ser racional e medir o quanto ainda era feliz. E por mais amor que houvesse, por maior que seja o amor que ainda existe, você imbecilmente tem que aceitar que nem tudo está nas suas mãos. Desapegar enquanto ainda há amor - um suplício! E aí aceite que pessoas incompatíveis se cruzam, infelizmente, e se apegam, ainda "mais" infelizmente. Só que quando o corte é necessário, não adianta você ouvir: te avisei, falei que vocês eram muito diferentes, você precisa de alguém "assim-assado", bla bla bla.
"Assim-assado" o cacete. Desde quando a gente escolhe quem ama? Desde quando a gente escolhe por quem se apaixona? Quem dera eu pudesse dizer quais seriam as habilidades, qualidades e atitudes que espero do cara perfeito, e melhor ainda se pudesse pedir um currículo sentimental. "Sim, eu espero que seja um cara sincero, carinhoso (inclua bom de cama), bonito o suficiente, companheiro, inteligente, que gosta de viajar, que seja maduro, que me aceite como sou e que, se der, tenha dinheiro o suficiente para os nossos sonhos." Tá fácil, hein? Não sei você, mas nunca entrevistei alguém por quem me apaixonei.
E olha que fui a rainha dos amores platônicos nos meus velhos tempos, daquelas que transformavam sapo em príncipe da noite pro dia, mas ainda assim, entendia que era alguém digno da minha devoção. Quando me apaixonei, eu entrevistei olhares, sorrisos e piadas bobas. Fui fisgada pelo dia a dia, pelo beijo, pelo carinho. Fui cedendo à medida que me sentia mais segura e mais correspondida. E pior: sempre achei que eu era entendida, que eu era aceita assim, cheia de "trecos" esquisitos e mal acabados.
Mas no fim, aquilo que se entendia como aceitação, de repente se transformou numa grande sombra, num fantasma, nunca percebido. Você descobre no final que o "mundo do outro" esperava outra coisa de você e aí bate aquela frustração. "Assim-assado" o cacete. Cortar o laço, desligar o outro da sua vida, voltar a se sentir sozinha, desapegar daquilo que já era parte de você - é cruel. Por mais que você tenha vários motivos para entender que as coisas não iam bem, que as incompatibilidades ferraram com tudo, quem é que "programa o coração pra deixar de amar"?
Poucas vezes tive que "cortar" ou apagar pessoas da minha vida. E vou te falar: não tem nada mais difícil pra mim... Porque quando permito que alguém faça parte da minha vida, eu me entrego por completo, seja como filha, amiga, irmã, namorada, pessoa. E daí é difícil a gente pegar de volta aquilo que a pessoa tomou emprestado da gente. É difícil trocar as partes antes permutadas, recobrar a sua integridade sem aquela parte do outro que você já tinha fagocitado. Como é cruel voltar a ser você nessa coisa de finitude, uma vez que você aprendeu a ser a pessoa de hoje em função de quem você escolheu ter por perto. 

19/08/2014

Dos Medos

Sim, eu tenho medos. 
Diferentes em peso, forma e impacto. 
Todo santo dia tenho algum medo novo, mas nem por isso permanente.
Todo santo dia luto contra os meus medos. 
E em tempos de incertezas, de mudanças, de decisões, fica bem mais difícil encarar os meus medos. 

Tenho medo de morrer sozinha.
Tenho medo de viver uma vida infeliz.
Tenho medo de fracassar e voltar para a casa da minha mãe com o rabo entre as pernas.
Tenho medo de adoecer de novo. 
Tenho medo de escada.
Tenho medo de não constituir minha própria família.
Tenho medo de ficar desempregada.
Tenho medo de ser atacada por um estranho.
Tenho medo de perder a memória. 
Tenho medo de motoristas estressados. 

Todo santo dia reviso cada um desses medos, sem permitir que me tirem o direito de ir e vir. E raramente peço coragem para encarar um deles, pois me sinto na obrigação de lidar com meus próprios fantasmas. 

Mas obviamente baixo a guarda, humildemente, quando percebo que um destes medos se aproxima, por algum motivo ou circunstância. Peço em minhas orações simplórias pra ter coragem e força pra seguir em frente, mesmo sentindo medo. Mesmo sentindo insegurança, mesmo me sentindo triste ou derrotada. Peço para que Alguém me ouça e assim tento deixar meu destino nas mãos de Quem sabe melhor do que eu o que me cabe nesta vida. 

Em tempos de medo tento enxergar os sinais. Sinais da vida sobre o quanto eu estou me perdendo por medo. Medo de mudar, medo de me desapegar, medo de perder, medo de sofrer de novo. Mas ter medo faz parte da natureza humana, do nosso instinto de sobrevivência. Sem o medo, não aprendemos a ponderar, a escolher, a decidir e a medir os riscos envolvidos. O medo nos mantém em alerta, nos mantém atentos. 

Converter medo em coragem é particularmente difícil pra mim. Quando em tempos de bonança, parece um ato natural. Quando em tempos de dificuldade, parece sobrenatural. E rezo, oro, peço para que o medo não me cegue, não me congele, não me torne uma pessoa sem esperança.

Há de passar, pois a vida é assim: alternância entre medo e coragem. A cada segundo. 

29/07/2014

Aprendizado

A gente MUDA. E a gente aprende de duas formas:
Ou você aprende observando os tropeços alheios (santa inteligência!).
Ou você aprende sozinho com seus próprios trombos (santa teimosia!).
Mas SEMPRE - você cresce.

E todo esse processo está longe de ser algo compreensível, quiçá tranquilo. A gente se esfarrapa, se espeta, se machuca, e faz o mesmo com muitas outras pessoas. Só que a gente também cai na real quando descobre que não pode fazer tudo pelas pessoas - a gente aprende que o certo é estar ao lado, apoiando. Aprendizado pessoal e intransferível - para que o outro também aprenda.

A vida pode ser dura, mas se você for menos teimoso, vai aprender a ceder, sem se perder. Vai aprender a perdoar, sem se rebaixar. Vai aprender a amar, de peito aberto e sem medo. Vai aprender a se levantar, mesmo quando estiver triste e sem esperança. Vai aprender, finalmente, que você só pode exigir do outro se você age da mesma maneira. Vai aprender que ainda assim todo mundo falha, mas saberá dar a devida importância a cada tipo de tropeço - na sua devida proporção, sem estardalhaços, sem drama, sem arrogância.

E o mais importante: vai descobrir que nunca vai parar de aprender, de mudar, de crescer. Mas que notícia boa! Sejam bem vindos à vida. Todo santo dia é um aprendizado, todo santo dia é um desafio. E garanto que não será diferente amanhã!


15/06/2014

A Semente

Não tenho uma vida perfeita. Já dizia minha amiga Isabela, todo mundo vê as pingas que eu tomo, mas não vê os tombos que eu levo. Você acaba parecendo superficial ou fútil porque não idolatra os problemas e foca na solução. Isso não me impede de sofrer, mas me permite deixar o que é ruim no passado, ir adiante e não guardar rancor. Daí vem um problema sério: eu me desapego tanto da experiência ruim, que "emburreço". Passo por cima, perdoo e me agarro à esperança de que a vida há de dar um jeito e irá consertar tudo. E esqueço que não basta eu querer que a vida seja boa. Outras pessoas estão envolvidas...

Mas daí outro dia, com as ideias fervilhando, trombei com Dr. Artur, um oftalmologista que eu nunca tinha visto antes e com quem estava fazendo minha primeira consulta para monitorar o efeito dos medicamentos do lúpus nos meus olhos. E pouco depois que resumi essa história do lúpus e contei que estou há 1 ano e meio em remissão, sem corticoides, ele parou de examinar os meus olhos e dissecou a minha alma. Seguindo uma lógica assustadora através de seus questionamentos sobre minha postura diante da doença e da vida, ele examinou a minha alma.

Como quem não queria nada, ele foi me perguntando sobre como reagi a cada etapa do lúpus e a cada reação das pessoas ao meu redor durante o período de atividade da doença. Falei sobre o quanto fiquei chateada ao me olhar no espelho e ver o rosto ferido, os cabelos caindo e as bochechas inchando. Meu corpo mudou e perdi o controle sobre ele, sobre minha saúde e especialmente sobre minha qualidade de vida. Mas nem por isso deixei de tomar os remédios, de dar tempo ao tempo e de confiar. A negação inicial se transformou em aceitação alguns meses depois e decidi seguir minha vida adiante.

Sai do ninho da minha mãe, morei com outros estudantes aos 17 anos, encarei a faculdade como prioridade e comecei a trabalhar duro para conquistar o meu futuro. Batalhei especialmente para mostrar que eu não era apenas uma garota de saúde frágil, mas sim uma pessoa que tinha aprendido a dar valor à vida, independente do desafio que me era apresentado. Aprendi a conviver, a aceitar a minha condição e fazer o melhor possível com o que eu tinha. Durante anos fiquei distante do mar, evitando o sol, pois era naquela época um grande vilão. Mas não deixei de ser jovem, de ter amigos, de ir a festas e nem de me apaixonar, por mais insegura que eu ainda fosse. Aceitei, mesmo com aquela sombra me rondando. Não aceitei parar de viver.

E depois de contar outras tantas coisas para o Dr. Artur, ele me disse exatamente o que intuitivamente eu entendia sobre a minha postura diante do lúpus, da vida. Que eu tinha me permitido aceitar a vida que estava programada para mim, que eu tinha aprendido a confiar em algo maior que sabia o motivo daquela experiência, que eu tinha aprendido a converter o sofrimento em presente, em uma chance de viver de forma diferente. Eu não me entreguei e que o mais importante era que hoje eu podia SEMEAR a minha história para que outros pudessem ter esperança, pudessem confiar no aprendizado que nos era ofertado.

Não falei para o Dr. Artur sobre quase nada da minha vida, não falei da Corrente do Bem, não falei de quantas pessoas com lúpus já me procuraram em busca de um conforto, nem de como fui referência quando outras pessoas próximas a mim descobriram que também carregariam a borboleta do lúpus... Não contei sobre minhas decepções ao longo da vida, não falei sobre como reagi a elas, mesmo que levasse tempo para a dor ir embora. Mas falei para ele sobre como consegui aprender a controlar o lúpus a meu favor. Ele é meu alerta, meu termômetro, meu limite. Para o estresse, para a angústia, para a infelicidade. Meu corpo me diz o que ando fazendo de errado e que fere minha alma... O lúpus é o registro do meu instinto, meu sexto sentido, minha inconsciência representada.

E daí contei para o Dr. Artur sobre como consegui estabilizar os efeitos da doença, mesmo no período mais estressante que vivi em 2009. Eu aprendi a não carregar o problema dos outros, aprendi a não me sentir culpada pelos erros dos outros e aprendi, principalmente, a não guardar meus sentimentos... E por mais que eu não gostasse de confrontos, falar, falar, falar e nunca deixar as coisas mal resolvidas passou a ser um medicamento oral, infalível. Parei de me esconder, parei de carregar pesos alheios e comecei a viver a minha vida, seguindo uma disciplina com severidade: por mais que alguns tivessem sentido o cordão umbilical romper, por mais que às vezes eu parecesse dura, por mais que às vezes eu parecesse ser egoísta. Entendi que não posso resolver os problemas de todo mundo e que não posso mudar as pessoas - a mudança tem que partir delas mesmas.

A adaptação a essa nova "Carol" foi dolorosa para muita gente, mas me tornou uma pessoa mais sincera, transparente, honesta e, especialmente, saudável. E daí, quando parei de brigar com o destino, passei a seguir adiante sem desconfianças, descobri que podia ser uma pessoa mais leve, menos angustiada, mais feliz. E quando Dr. Artur, em suas perguntas inquietantes, me dissecava a alma, segurei meus olhos embaçados para não chorar e entrar em pânico sobre o meu medo de não conseguir ser a SEMEADORA que ele me dizia que eu era... Que me sinto frustrada por não conseguir fazer as pessoas serem mais felizes, mesmo as pessoas que mais amo. Que me sinto pequena diante da força da negatividade que algumas pessoas se acostumaram a cultivar. Que me sinto fraca às vezes diante da insistência das pessoas em serem infelizes.

Daí o Dr. Artur me sacolejou e disse que o meu papel era semear, não obrigar a semente a nascer. Que eu tinha o papel de contar a minha história, mesmo para aqueles que não sabiam ouvir, que só sabiam reclamar. Que eu tinha o papel de ensinar pelo exemplo para que os outros se sentissem mais confortáveis e não ouvissem uma teoria da boca pra fora. Que eu era uma SEMEADORA e que a minha postura de aceitação demonstrava a minha confiança em algo maior, fosse Deus ou qualquer representação de outra crença. Que era melhor a minha postura de aceitação sem questionamento do que aquela postura em que as pessoas que se julgam mais "fiéis e crentes" que entendem as experiências como castigo e não como aprendizado. Que era meu papel semear a fé em sua forma pura, sem preconceitos religiosos, sem amarras ideológicas.

Ah, Dr. Artur, se o senhor soubesse como eu queria ser mais eficiente nesse papel de distribuir as sementes da esperança, da leveza, da positividade... Quem me dera eu fosse superior às minhas limitações humanas, como irritação, falta de paciência e ansiedade... Quem dera eu pudesse chacoalhar cada um para que aprendam a viver a sua vida com plenitude... Quem dera eu tivesse mesmo todo esse poder... É muita responsabilidade sair por aí semeando uma visão de mundo, uma visão de fé na vida. Eu aprendi pelos meus próprios tropeços, mas cada um tem seu tempo... E daí sou realmente só uma semente... Miúda, mas insistente. Entretanto, sem terra fértil que se permita ser cultivada, não há semente que vingue...




15/05/2014

Coisa de Gente


Como é difícil ser GENTE.

Você precisa gostar de dinheiro o suficiente pra viver bem, mas precisa desgostar o suficiente de dinheiro pra ser mais "gente". Você precisa trabalhar muito pra ser "gente", mas precisa trabalhar menos pra conseguir ser mais "gente". Você precisa ter compaixão com outras "gentes", mas precisa aprender que se não tiverem compaixão pela sua pessoa, você precisa aprender a perdoar porque somos todos "gente". Você precisa agir corretamente a maior parte do tempo, mas só precisa agir corretamente o suficiente para não estragar a sua felicidade e a felicidade de outras gentes. Você às vezes precisa relevar porque a "gente" é tudo "gente", mas precisa também soltar os cachorros pra não engolirmos sapos e assim respeitarmos as "gentes" que somos.

Mais difícil ainda é ser GENTE e ao mesmo tempo saber que toda GENTE é falha.

E aí você descobre que tem que aprender a amar outra "gente" mesmo com todos os defeitos e com todas aquelas promessas de que existe uma vida perfeita em algum ponto do universo. Daí quanto mais "gente" você é, mais você entende que nada vai dar certo todo o tempo e que mesmo que você faça tudo certo, não depende de você garantir que as outras "gentes" vão sempre agir do jeito certo. Daí que quanto mais "gente" você é, mais você entende que "gente" nasceu com defeito de fábrica e que só dá pra melhorar a situação se você aceitar a condição falível de qualquer um ao seu redor. Ou seja, você se prepara para a falha, e não para ser positivamente surpreendido.

É uma pena, no entanto, que alguns confundam os dois conceitos: sobre saber que "gente" falha e sobre aceitar o hábito das "gentes" de falhar. Ao mesmo tempo que você não deve, não pode, não merece criar expectativas falsas sobre a perfeição de qualquer "gente" que seja, a "gente" não pode deixar de confiar e de esperar que cada um seja melhor, ou que ao menos tente ser melhor. Não é simplesmente se decepcionar por uma grande atitude em especial, mas é se decepcionar com aquela sangria continuada, que vai devorando, que vai te consumindo, e fazendo você perder a esperança sobre o que é ser "boa gente". E quando percebe, é bem diferente ser "boa gente" de ser "gente boa". E que não dá pra ser só um ou outro - tem que ser "gente" equilibrada pra ao menos viver melhor.

Por outro lado, não posso negar que GENTE me encanta, assim como me assusta. É como um livro não lido, um presente ainda por abrir, um caminho nunca feito, um pensamento novo - "gente" é bicho surpreendente, aterrorizante, interessante. Nem os mais previsíveis, monótonos e planejados conseguem garantir que o dia seguinte será exato, calculado e programado, pois outras "gentes" poderão interferir a qualquer instante. E se convém a explicação sobre o conceito de "inteligência", tão peculiar ao ser "gente", dá pra entender que ser inteligente é ser capaz de ser imprevisível. Ser capaz de mudar a vida, o mundo, o destino, em um piscar de olhos. Num ato, numa ideia, num sonho.

Fato é que ser GENTE é coisa que se aprende, e que não se para de aprender.

E que bom mesmo seria nascer jovem mas com cabeça de velho, pra sofrer menos com esse aprendizado pra ser "boa gente" na medida certa e "gente boa" sem exageros. Porque a "gente" só começa a entender de "gente" quando já errou muito, já se perdeu e se reencontrou exaustivamente, já se decepcionou, já se precipitou. Se fosse possível fazer um manual sobre melhores práticas da operação de uma "gente", ainda assim de nada valeria - porque gente não segue manual, gente não segue padrão, gente não sai forma de gelo. "Gente" inova, segue o instinto quando sente algo fora do lugar, segue a razão quando acha que vale a pena, abandona quando perde o gosto, toma pra si quando se apaixona, joga tudo pro alto quando quer recomeçar.

Eu não sei você, mas eu sou "gente" pacarái! E quando acho que estou no caminho certo, que aprendi a ser resiliente, a aceitar as fraquezas alheias, a ser mais paciente, descubro que estou caminhando rumo ao tédio, ao erro, ao desencontro com a "gente" que eu sou. E daí me pego revisando os meus passos, supondo o que seria diferente, pesando o que realmente vale a pena - manter, suportar, batalhar, assumir, abandonar ou mudar. Como "gente", eu só posso garantir que por mim, pela "gente" que sou, prefiro não botar a mão no fogo, pois fomos criados à imagem e semelhança de quem queria que aprendêssemos a viver, custe o que custar.

Obs: Mas cabe ressaltar que toda ação, reação e relação tem um custo benefício. Cuidado com o saldo negativo em sua conta.

01/04/2014

Era uma vez!

Era uma vez uma garotinha de sonhos gelatinosos, esculpidos em entulhos no terraço de um prédio, criados com os olhos colados no céu, que era o maior pedaço de azul que até então podia permanecer próxima. A sua proximidade com o azul do céu camuflava a sua paixão platônica por outra imensidão azul, da qual de alguma forma sempre se sentiria conectada.

Ela queria o teletransporte para saltar da nave para um submarino e em menos de 20 mil léguas encontrar cada ser vivo que um dia já imaginou ou desenhou em sua memória inventada. Foi sereia, foi saci que via baleias no céu, foi tubarão com um sistema imunológico que ignorava o câncer, foi mergulhadora com Cousteau. Como se não bastasse inventar um mundo nas estrelas, especialmente em Fomalhaut, precisava buscar o oceano. 

Queria um golfinho no seu quintal, mas se contentava com porquinhos da índia. Queria siris de aquário que durassem mais de 2 meses, mas se contentava com a lenda da Afrodite que permaneceu 8 anos (no seu tempo de criança, não no tempo da Terra) em seu aquário, sobrevivendo aos fungos, choques térmicos e outros peixes estressados. Queria que piabas de rio sobrevivessem em água parada, sem corrente, pois água "era água", em seu entendimento peculiar. Queria ter barbatanas e guelras atrás das orelhas, como no filme. 

Mas a vida é feita de condições reais, ainda que boas. A garotinha aprendeu a nadar, mas ainda assim não aprendeu a plantar sementes de praias. Aprendeu a se virar, mas não aprendeu a virar o mapa pra inverter a posição do mar. Aprendeu a viajar, usando menos a imaginação e mais os próprios pés, que ainda assim, ela queria que fossem barbatanas. Aprendeu a mergulhar e ouviu de um amigo de Cousteau algumas histórias que nem a memória conseguiu guardar em detalhes, pois não aprendeu a ser hardware quando o assunto era o mar. Aprendeu a tentar, mesmo que ainda sentisse medo. 

A garotinha ainda não cresceu, continua velejando em ideias, mas segue acumulando sonhos e planos ao longo de anos. Não sabe no que vai dar essa mania de azul, refletida em suas roupas, traços e inspirações. Mas espera que o que for seu, permaneça reservado para a hora certa, para a alma devidamente pronta. 


 Que tudo seja possível pra quem crê!

27/02/2014

Conto de um minuto só

Era uma vez uma menina, com seus sonhos, sonhados todos os dias de sua infância. De uma querência sem igual, que só o Seu Guimarães, o Rosa, entenderia. Sem pestanejar, sem duvidar, sabia o que queria para seu futuro: tudo que não era o que tinha. E com o tempo, remando contra a maré, a ressaca e até a piracema, ela um dia chegou lá, mesmo que não fosse como no seu mundo sonhado infinito. De que adiantava a querência, se nenhuma escolha era exata e precisa?

Adiantava, mesmo que essa adiantância não fosse exatamente o que se esperava do seu destinamento percebido como finito. Ralava o calcanhar dias a fio, para depois descobrir que seu destino não era aquele sonhado, e parecia mais um pão dormido: duro, destinado a ser ralado. Destino ralado. Ela, que via estrelas no céu e sempre esperava por algo mágico que dali viesse, terminou por descobrir que tinha uma força de piaba diante do rio da vida. "Tem dia que não é fácil, menina" - dizia seu conscienciamento inquieto. 

Mas nem tudo era farelo, e quando em vez a vida lhe era misteriosamente boa. Com uma pitada de surpresa, de repentismo, descobria um sabor novo, mesmo que desconfigurado do plano inicial. Era essa a fórmula: achar que os tombos tinham mais cara de desajustes e que as coisas normalmente são simples, sem grandes momentos cinematosísticos. Só era difícil de engolir, porque a garganta travava. 

E nesse passo, trocando às vezes gato por lebre, engolindo sapos sem gosto de rã frita, a vida toma sua rumância, discordância e petulância em pessoa. Não há o que fazer quando você não é pitoresca como aquela Amelie, e nem tem o poder de fazer o mundo e as pessoas encorpadas de pessimismo mudarem. Você rema, rema, e quando nota, já não é um barco e está em trilhos inexatos, mas totalmente seus. Pois a vida é essa coisa, desrregulada. 


30/12/2013

As nossas vidas secretas

Olá, meu nome não é Walter Mitty, mas poderia ser. Quantas vezes não nos sentimos empurrados pela roda da vida, tomando decisões responsáveis para sobrevivermos nesta selva? Quantas vezes já acordamos pensando nas contas do fim do mês, vivendo a curto prazo, só para que nenhuma engrenagem pare de funcionar devidamente? Quantas vezes você não se sente pequeno diante de um mundo de possibilidades, reduzido à jornada de um trabalho que estava longe de ser o seu plano inicial?

Eu não era skatista, mas já sonhei com uma vida dedicada ao mar. Eu preferia meus patins, se isso vale de alguma coisa. Mas o que fazia diferença eram os planos, os quais foram engolidos pela rotina. E pelo destino. Fato é que você tem que decidir em minutos algo que irá afetar toda a sua vida a longo prazo, o que não é de fato muito justo. A gente acaba fazendo o melhor que pode, mas não o que podia ser feito de melhor. Daí é um passo a você se achar muito parecido com Walter Mitty, o cara que cuida dos negativos de uma revista, mesmo em tempos de câmeras digitais.

Sinto muito. Eu guardo todos os meus negativos. E sinto falta das antigas câmeras, quando você nunca sabia o que esperar da revelação dos filmes... Assim como o personagem de Sean Penn, também aprendi ao longo destes anos que mais vale viver o momento do que tirar mil fotos daquela paisagem que te tira o fôlego. Resultado deste aprendizado: reduzi consideravelmente o número de fotos que faço durante minhas viagens, algo que a gente só aprende depois de muitos anos. Afinal, também descobri que minha memória é preguiçosa e tenho mania de guardar somente as imagens que registrei, e não o que vi em 360 graus.

A sensação que tenho é Walter é meu reflexo, congelado pela vida real. Por mais que eu tenha me prometido viajar pelo mundo, me sinto limitada. Porque não posso ir quando bem entendo, e nem tenho dinheiro pra ficar durante o tempo que pretendo. Porque não posso chutar o balde de uma vida "certinha" sem antes me planejar, o que também é coisa de gente com juízo. Não dá pra acordar amanhã e comprar uma passagem pra Cidade do Cabo, só pra salvar pinguins sem ser paga por isso. E isso é triste. Ou melhor, isso é Walter Mitty, preso no padrão de vida capitalista ao qual todos estamos condenados. 

E não é um discurso hipócrita: claro que gosto do meu teto, do conforto, do meu dinheiro no final do mês. Mas fato é que os rumos foram definidos sem que houvesse tempo para ponderar o que realmente faria eu me sentir completa, realizando aqueles velhos sonhos. Agora, pra chegar perto daqueles planos, eu tenho que ir com calma, passo a passo, resiliente. Aliás, resiliência foi um exercício diário ao longo de todo esse ano. Como se eu estivesse todo santo dia me preocupando somente com a foto da última capa da Revista Life (como no filme). 

Como se não bastasse, Sean faz com que Walter viaje sem destino, por um objetivo quase pessoal. Disposto a ir onde fosse preciso, superando a si mesmo, deixando para trás todos os seus "pré-conceitos" sobre a vida. Pra aprender a sentir a vida e viver o mundo, como diria o verdadeiro fundador e editor da Revista Life: "Ver coisas a milhares de milhas de distância, coisas escondidas atrás de muros e dentro de quartos, coisas perigosas por vir" - Henry Luce - 1936. 

O filme é leve e posso apostar que pra muita gente vai ser "só mais um filme". Bom, se você está totalmente conformado com quem você é hoje, em que você se transformou, fato é que nada neste conto irá dizer algo a seu respeito. É um filme pra quem sente que falta algum pedaço, que deixou para trás alguma realização que mudaria sua vida, que não sabe hoje como mudar o curso de toda uma vida de responsabilidade e compromisso. É um filme pra quem tem medo de nunca estar "estampado" na capa do seu próprio livro de memórias, por ter sido coadjuvante de toda uma vida. 


A vida secreta de Walter Mitty: Walter (Ben Stiller) é o responsável pelo departamento de arquivo e revelação de fotografias da tradicional revista Life. Ele é um homem tímido, levando uma vida simples, perdido em seus sonhos. Ao receber um pacote com negativos do importante fotógrafo Sean O'Connell (Sean Penn), ele percebe que está faltando uma foto. O problema é que trata-se justamente da foto escolhida para ser a capa da última edição da revista, que está em transição para uma publicação online. Walter, com o apoio de Cheryl (Kristen Wiig) é obrigado a embarcar em uma verdadeira aventura que irá mudar a sua vida.

08/12/2013

Vida de gente grande

A gente nunca se imaginou ali, tendo aquela conversa. Os tópicos anteriores já eram parte da pauta, faziam sentido. Mas sermos arrebatadas pela nossa "maior idade" não estava previsto, por mais que a gente soubesse que esse dia chegaria. Quando a gente se descobre como pessoa adulta, é de assustar. O tempo circula em nossas mentes e ainda assim não cai a ficha de que estamos fazendo nossos destinos porque esta é a ordem natural da vida. Só que agora a decisão e o medo são de "gente grande", e não daquelas adolescentes que um dia já fomos. 

Como bem disse uma de nós, não era como roubar o carro, ficar bêbada ou qualquer outra situação maluca já vivida. Agora era assunto que fazia chorar e rir ao mesmo tempo: preocupadas, felizes, assustadas e cúmplices. A vida é de arrepiar, temos certeza disso nesses momentos: você não pode fugir - não é um plano, mas sim um fato. E daí os tópicos anteriores se tornaram pequenos, miúdos diante daquela notícia. Pois a vida de gente grande é assim: surpreendente, por mais que a gente sempre soubesse que aquele sempre fora um sonho pessoal e que agora estava se realizando. 

A vida nos sacode, pra mostrar que a gente perde tempo com tanta coisa pequena que se esquece do milagre da vida. Vida que surge assim, num piscar de olhos. Vida que renova, vida que completa. E se a gente se permitir ser infeliz nesse curto espaço de tempo, a aventura não terá sentido. Pois o único objetivo da vida é, sempre será, transformar as pessoas em seres de fato realizados, mesmo que às vezes pareça um truque do destino. Fato é que ela sempre quis isso, e nosso pensamento tem poder. 

11/11/2013

O Desapego da Camaleoa!

Estou numa grande onda do exercício do desapego. Acabei de descobrindo mais leve quando adotei uma nova postura diante das minhas decisões: não posso agir por você, não posso ser melhor que 99% das pessoas do mundo, nem posso segurar o meu destino entre meus dedos - ele tem sua própria força. A vantagem desse processo, que não vem de hoje mas só agora está se configurando às vistas alheias, é que eu me sinto mais leve - e menos pesarosa por tomar atitudes conscientes e sinceras, mesmo que aparentemente antagônicas. Há algum tempo, eu queria pra mim tudo aquilo que me trazia segurança, conforto e plenitude. Hoje eu quero pra mim o que de fato tiver que ser meu, com os desafios que isso representar. 

A questão é o desapego te ensina a ver o outro lado como uma novidade: por que não tentar, por que não se reinventar? Quando você não muda, o seu mundo não muda, você não vê resultados diferentes. Não que você esteja trilhando um caminho errado, mas quem é que te disse que não existe outro caminho ainda melhor? Se você não tentar, por você, por sua própria decisão, uma hora o destino vai te impor uma nova postura, e você não vai estar aberto a isso. Então se abrir, por livre e própria vontade, pode ser um passo positivo pra se deixar renovar, se deixar desafiar, mesmo que no fundo você já saiba que vai dar conta, modéstia à parte.

A verdade é que sempre que me permiti uma mudança, aprendi. E sempre que uma mudança me foi imposta, aprendi do mesmo jeito, mas às vezes de forma dolorosa. Então se abrir ao novo, se propor uma reviravolta, se desvirar do avesso, deixa de ser tão arriscado e passa a ser simplesmente uma atitude preventiva, racional e bastante positiva. Quando você se desapega, se permite ser diferente, você se abre, você aceita a mudança como uma decisão sua, consciente e prudente. Não é fácil, mas quando se aprende, o desapego te torna mais leve, te ensina a ser menos dura com suas limitações e te impulsiona rumo a novas possibilidades. E se tudo der errado, você já aprendeu a mudar, por sua própria capacidade de se camuflar, camaleoa de sua própria vida. 

Não sei até quando a onda otimista da mudança auto-sustentada irá permanecer nestas praias, mas fato é que nos últimos meses eu ando revirando velhos planos, velhos sonhos, metas antes esquecidas. Metas que por tantos anos me nortearam como pessoa e que por algum motivo, das quais me distanciei cumprindo os rituais paradoxais da vida. Não sei até que ponto revirar tudo de volta vai me levar lá, naquele ponto que anda me incomodando, me trazendo de volta à minha essência. Só sei que desapegar do que já se tem certeza é um bom começo pra se reinventar, pra renascer, pra recriar sonhos. E mais: para perdoar aqueles que insistem em seguir, na mediocridade, achando que são felizes por que se julgam melhores, maiores, mais ricos, mais qualquer outra coisa que é total ilusão. Pois a real satisfação está única e exclusivamente dentro de você, e você é a única pessoa do mundo da qual você não pode se desapegar.


Saqsaywaman - Peru - 2013

Considerações: Tudo isso tem a ver com pinguins, porquinho da índia, criatividade pra reinventar a vida, saudade do mar, um septo nasal recentemente esvaziado e principalmente - uma cabeça disponível pra revisar minhas prioridades. 

Obs: Ainda devo um texto sobre Machu Picchu, eu sei... :)

24/09/2013

Dos incas ao Peru de hoje...

Conheci Pisac, território das terrazas bem conservadas. Os incas cultivavam em seus vales (como é o caso do Vale Sagrado, seguindo o rio Urubamba) e também nas montanhas em que podiam trabalhar em plataformas como curvas de nível. O total aproveitamento da terra fértil é uma lição antiga e permitiu aos incas cultivarem plantios adaptados às mais diversas temperaturas, que variavam conforme a altura das terrazas na montanha. A questão é que quando você vê aquela construção hoje, sem nenhuma vida, você sem perceber é capaz de imaginar algo do tipo "Jardins da Babilônia". Como a vida ali deveria ser exuberante, colorida! Como aquele povo é responsável por tantas espécies vegetais que hoje consumimos: batatas, milhos, frutos da genética caseira exercitada pelos incas. Uma observação: é possível ver os buracos das tumbas arrombadas no passado, em busca do ouro com que os incas eram enterrados para ir para a "outra vida" em que acreditavam...


Saqsaywaman, outrora território de uma fortaleza inca. Ponto de resistência durante anos, ponto de luta contra os cento e tantos homens de Francisco Pizarro que aos poucos trouxeram armamento da Espanha para impelir seu domínio. As muralhas, em ziguezague, nos fazem refletir sobre a lógica do pensamento inca: o que é proteção para guerra, o que é de fato só arte, o que é ciência ainda incompreendida? Blocos enormes de pedra, perfeitamente recortados e encaixados, à prova de abalos sísmicos, estruturada no topo de uma montanha com visão ampla dos inimigos que chegavam das planícies mais baixas. Hoje o terreno é constituído de uma terra árida, seca, mas o que terá sido em tempos de vegetação abundante e com a circulação do povo inca, dando vida à fortaleza?


Mas se quiser saber onde eu de fato entendi a grandiosidade do império inca, não pense que foi em Machu Picchu. Ollantaytambo é um conjunto de ruínas e restaurações que me deixou muito impressionada: por sua história, por sua imponência, por seu encaixe na natureza regional. Ollantay era um guerreiro inca que queria se casar com a filha de um imperador inca, mas este não permitira seu casamento com alguém de uma casta mais baixa, mesmo que fosse o grande guerreiro. Porém, ele faleceu e o irmão de sua amada propôs que ele construísse um Templo ao Sol (de quem os imperadores incas eram filhos, segundo a cultura) e assim concederia a permissão para o enlace. Assim, Ollantay construiu essa fortaleza e no topo dela iniciou a construção do Templo, com pedras inteiriças que vinham de longe (das margens do rio) e que até hoje é difícil entender como chegaram ao topo. As terrazas, a vila, as casas dos "líderes", tudo encrustado entre enormes montanhas que também eram a referência da passagem do tempo para aquele povoado. Pontos na montanha onde esculpiram o rosto de um inca eram referências para o solstício e equinócio. E também lá no alto estavam seus armazéns, garantindo a segurança da produção contra ataques. Tambo em quechua (ou algo próximo) quer dizer "ponto de troca, de comunicação", onde os antepassados peruanos faziam abastecimento de comida e repassavam informações durante suas viagens pelas tão conhecidas trilhas incas (diz a lenda que são 50 mil km de caminhos espalhados pela América). Ollantaytambo também foi ponto de resistência por anos, mas sucumbiu à dominação espanhola em meados de 1500. O pior? Não sei se Ollantay se casou, enfim, com sua amada!




Qoricancha foi alvo da ambição espanhola desde os primeiros tempos. Era um centro de estudos dos incas, onde aprendiam e repassavam o conhecimento sobre astronomia, agricultura, etc. No entanto, para desmoralizar os incas e transformá-los em ateus ou pecadores por crerem em mais de um deus, o local foi tachado como um tempo aos deuses incas, mas nada mais era do que um centro para disseminação da cultura inca e formação daqueles que seriam enviados aos outros pontos importantes do império para replicar as informações. No entanto, com a dominação espanhola, os colonizadores construíram a Igreja de Santo Domingo, demolindo as fundações para construir a catedral e o mosteiro. Em diversos pontos de Cusco essa dominação está estampada em muros e paredes que em parte foram feitos pelos incas, em parte pelos espanhóis. E todo o outro que ali esteve um dia navegou até a Europa, sem dar direito a este povo de usufruir da própria riqueza. Quem disse que a história é feita de louça?


Ainda tem mais! Aguardem...

14/09/2013

O que os incas não podem contar...

Sempre que alguém quer saber o que mais me impressionou nesta viagem ao Peru, fica fácil dizer que não foram as montanhas gigantescas pela janela e nem a grandiosidade da história dos incas. O que me marcou no Peru foram as pessoas de hoje, apesar de sentir que muitas delas ainda vivem em função de um passado bem distante. Da melancolia ao orgulho por sua história de domínio e dominação, os peruanos de hoje precisam superar o saudosismo para vislumbrar um futuro tão colorido quanto suas tecelagens. 

Fato é que as montanhas estão mesmo por todos os lados. E tanto os antepassados com sangue inca, como os peruanos de hoje, aprenderam a seguir os contornos destas gigantes para conviver em harmonia com a natureza. Você roda pelas estradas e se depara com lindos picos nevados, de 5.500 metros como o Verônica, que estão ali desde sempre, como molduras na região do Vale Sagrado. Imponentes e respeitados, transformando o Peru num território em que qualquer planície é sagrada e onde as montanhas ainda têm serventia: como proteção, para o plantio em curvas de nível, como barreiras naturais para as mudanças climáticas. 

Entretanto, na região de Cusco, nota-se que o desmatamento de anos atrás foi tão feroz quanto a subjugação dos espanhóis. Naquelas terras quase nenhuma árvore renasce e prova-se o nosso temor da desertificação da nossa própria Amazônia. Alguns pinheiros salpicados pela região foram replantados, supostamente de origem de uma espécie australiana, para tentar reviver a floresta local, mas todos os esforços foram insuficientes e o que se vê são montanhas e vales com poucos arbustos, com a terra nua. Efeito de uma economia que não aprender a se sustentar ao longo dos humanos - defeito humano que vem de fábrica, certo?

Você aprende que em Cusco, tudo é negociado. A pechincha é parte da cultura do comércio local e para tudo se pede um desconto. Mas eu cheguei à conclusão que você só pechincha com quem você sabe que está ganhando muito dinheiro e eu não tinha muita coragem de pedir descontos ou "regalos". Você percebe que está disposto a pagar aquele preço, mesmo que não seja equivalente à qualidade do que está comprando, simplesmente pra garantir que aquele povo sobreviva dignamente, do seu artesanato e do comércio livre nas ruas. Já tenho meus hábitos de compra de artesanato estabelecidos, mas garanto que resisti bastante a todos os bagulhos que encontrei pelos becos e bancadas de Cusco. Tudo é muito colorido, expressivo e as pessoas estão totalmente dispostas a negociar para que você compre qualquer coisa, mesmo que não seja de fato de lã de alpaca. Todos disseram pra não comprar a prata vendida na Plaza de Armas, pois é falsa, mas é uma bijouteria tão barata e aquelas pessoas precisam tanto, que o que menos importa é o fato de ser de prata. A lã falsa irrita a pele (fico realmente pinicando), mas nos dias de frio ela me esquentou o suficiente e valeu o preço, que não era caro. Daí eu me pergunto: não vale a pena ser enganada por esse povo tão desesperado, vivendo às custas do turismo, que é o que lhes resta? Comprei uma máscara para para minha coleção, a mais inacabada que vi, por um preço semelhante àquelas já bem envernizadas e coloridas. Mas era de um senhor tão desolado que caminhava pelas ruas de Machu Picchu tentando vender seu trabalho, e claro, não vi nenhuma outra igual. Dane-se o dinheiro que os outros esperam que eu gaste em free shops - eu viajo pra ver e ser gente, pra talvez bater a asa da borboleta em outro canto. 

A comida. Não comi o ceviche peruano que tinha planejado, mas estive em dois restaurantes em Cusco que me marcaram por motivos diferentes: um pela apresentação de dança inusitada e o outro pela comida de fato. A apresentação de dança aconteceu enquanto eu tomava uma sopa de legumes, daquelas bem verdes e pastosas, e mais uma vez repito: como gosto de gente, especialmente de gente diferente! A música andina, em seu ritmo alegre, com flautas peruanas fazendo o "furi-furi" que eu sempre ouvi na praça da minha cidade natal. Os dançarinos vestidos a caráter, tímidos, mas executando os passos, rodopiando coloridos. Pra quem não sabe, foi assim que me emocionei no Peru e voltei pra mesa com os olhos molhados, com minha mãe surpresa com minha reação. É bonito ver gente cultivando a cultura, sem transformar aquilo em algo cinematográfico. Quanto ao outro restaurante, foi uma boa surpresa para o paladar (La Cicciolina é o nome). Fechamos a viagem com chave de ouro. 

Planejamos a viagem para estarmos em Cusco e Machu Picchu em um período de clima estável, sem chuvas, já que de outubro a fevereiro, a umidade é fator a se considerar. Viajamos em agosto e nos surpreendemos com um clima frio, de congelar os ossos. Especialmente porque não nos hospedamos em nenhum hotel luxuoso e por este motivo garanto que tomei banhos frios em algumas noites, pois o encanamento congelava e o gás não era suficiente para esquentar a água. Portanto, apesar do céu azul e de não suar muito durante as caminhadas nesta época do ano, garanto que se programar para os horários do banho é uma boa dica. E seguindo esta linha do raciocínio, acredito que isso explica os pés empoeirados de tantos artesãos e vendedores na Plaza de Armas de Cusco e nos pontos turísticos... Não sei até que ponto os peruanos daquela região realmente têm água quente todos os dias para terem o hábito tão rigoroso como temos. Banho frio é sofrido! 

Em outro post, escrevo mais! 

15/08/2013

A sua felicidade

Alguém disse que sonhos são como deuses: se você deixa de acreditar, eles deixam de existir. E que sonhos são urgentes, tornam as pessoas condutores de suas vidas e não meros passageiros. Nada disso faria sentido se eu realmente não acreditasse que somos movidos pelos nossos objetivos pessoais e, mesmo que a princípio pareça uma ideia egoísta, que não podemos abrir mão da vida que projetamos esperando que outras pessoas sempre aprovem nossas escolhas. Uma enfermeira australiana retratou em seu livro as cinco lamentações mais comuns feitas pelas pessoas em seu leito de morte, momento que arrepender-se não seria suficiente para corrigir toda uma postura diante da vida.
 
Grande parte das pessoas disse que se arrependia de não ter vivido uma vida fiel a si mesmas, sempre ditada pelas vontades ou opiniões alheias, ferindo os princípios da individualidade, do direito à personalidade e do libre arbítrio. Presas às convenções ou aos critérios morais às vezes questionáveis, quantas pessoas não deixam de ser quem realmente são para simplesmente agradar ao outro, ou para serem convenientes, ou para se sentirem mais adequadas ao meio em que estão inseridas? Acorrentadas, quantas pessoas não deixaram sua felicidade recolhida à aparência?
 
Outro arrependimento comum é não ter se permitido ser mais feliz, o que na minha opinião está totalmente ligado à outra lamentação já comentada. Você não se permite se divertir porque tem que se preocupar, porque tem que ser mais sério, porque tem que ser responsável, porque deve agir daquela maneira, etc. Você não precisa ser um inconsequente, claro, mas se permitir à felicidade é uma questão de saúde pública, a meu ver. Todo o estresse e os índices de depressão que crescem ao nosso redor refletem uma insatisfação geral porque as pessoas sequer sabem o que as faz mais felizes. Faltam sonhos, falta perspectiva, falta esperança.
 
Outras três lamentações muito citadas: ter trabalhado tanto (pouco tempo pra ser mais feliz?), não ter mantido contato com os amigos (não ter mantido contato com quem te faz mais feliz?) e não ter coragem de expressar seus sentimentos (ser mais você para ser mais feliz?). A questão é: por que a gente se perde tanto quando o óbvio está estampado no espelho? A felicidade é responsabilidade de cada um. Mais do que isso: é um diferencial para se manter uma espécie saudável e perene. Gente feliz vive mais, trabalha melhor, se reproduz (filhos mais felizes?), não prejudica o próximo.
 
E só dá pra ser feliz se você sonhar, se mover pra conquistar o que deseja a cada segundo. E a cada sonho concretizado, ter uma fila de outros desejos engatilhados, pra se motivar, pra se programar, pra não desistir enquanto ainda tiver planos. A curto ou longo prazo, sonhos que te modifiquem, que te transformem, que te façam enxergar o mundo e a vida com outros olhos. Pois a vida é finita e não dá pra achar que você vai poder repetir de ano.